Onde é que já ouvimos isto?

Em Espanha, o governo de esquerda prepara uma reforma educativa que, pelo menos ao nível das intenções, aparenta ter muitas semelhanças com o que tem sido feito em Portugal. Mas enquanto por cá as mudanças se estabelecem através da aprovação de alguns decretos-lei, por lá costumam traduzir-se na aprovação de uma lei orgânica que estabelece as novas bases jurídicas do sistema educativo. Por outras palavras, a LOMCE – Lei Orgânica para a Melhoria da Qualidade Educativa, aprovada em 2013 – irá ser substituída pela LOMLOE – sigla para a designação, algo caricata, da Lei Orgânica de Modificação da Lei Orgânica Educativa.

Lendo o que a imprensa noticia e os professores espanhóis vão comentando sobre a nova lei, percebe-se rapidamente que nem os governantes deles nem os nossos primam pela originalidade: todos vão buscar inspiração à agenda da OCDE, repetindo os mesmos demagógicos chavões, construídos em torno de palavras mágicas como flexibilidade, inclusão, competências e aprendizagens essenciais…

O Ministério da Educação começou a elaborar o novo currículo escolar, elemento central do sistema educativo, sob a nova lei educativa, que define o que devem aprender os alunos em cada disciplina e como deve avaliar-se. O ministério elaborou um “documento base” sobre como deve ser o novo currículo, ao qual teve acesso o EL PAÍS, no qual se estabelecem as grandes linhas da reforma, que o Governo aspira a que seja a maior das últimas décadas e em cuja concretização quer que participem as comunidades autónomas e a comunidade educativa.

O objectivo, assinala o documento, é desenhar um currículo mais curto, menos enciclopédico, mais flexível e mais centrado nas competências básicas e nas aprendizagens essenciais, com ferramentas de avaliação mais simples, que contribua para preparar os alunos para um mundo que muda muito rapidamente e no qual as pessoas devem continuar a formar-se ao longo da vida. O tamanho e a rigidez do actual currículo alimentam, segundo acredita o ministério, “altas taxas de retenção e de abandono escolar precoce” e dificultam “a equidade e a inclusão”, ao expulsar do sistema uma parte dos alunos. Um em cada quatro estudantes não consegue obter o diploma de Educação Secundária Obrigatória (ESO).

3 thoughts on “Onde é que já ouvimos isto?

  1. Último parágrafo ( invertendo a ordem de duas frases)

    Ou seja : ” … para preparar os alunos para um mundo que muda rapidamente (…) ” , se bem entendi, nada melhor do que rapar da seguinte receita : ” …desenhar um currículo mais curto, menos enciclopédico, mais flexível, centrado nas competências básicas (…) ” .

    Nós já vamos muito à frente dos espanhóis , carago ! E com resultados – reconhecidamente – soberbos!
    Que passem por cá que “a gente” ensina-lhes mais uns truques…

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    • Se importamos do Brasil “a” 51, a bem da balança comercial por que não exportar para Espanha “o” 54 , conho ?

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  2. “O termo flexibilização é muito tentador porque remete, na fantasia das pessoas, à autonomia, livre escolha, espaço de criatividade e inovação. Mas flexibilização pode ser também desregulamentação, precarização, instabilidade da proteção contra a concentração da riqueza material e de conhecimento, permitindo a exacerbação dos processos de exclusão e desigualdade social” (Morduchowicz, 2017; Krawczyk, 2014).

    “… flexibilizar o currículo, significa, em suma, a diminuição do papel do Estado na proteção social e do trabalho e faz parte de um pacote bem mais vasto, flexibilizar as relações de trabalho e flexibilizar a vinculação de receitas dos recursos públicos” (Krawczyk e Ferreti, 2015).

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