Mind The GAP!

Aí estão eles de novo, vindos com pezinhos de lã e o apoio de uma instituição de peso – a Fundação Gulbenkian – que deveria, alvitro eu, seleccionar melhor as suas companhias. Para a Teach For Portugal, filial portuguesa de uma pouco recomendável multinacional de olho nos negócios da Educação, os efeitos nocivos da pandemia nos alunos mais vulneráveis são uma boa oportunidade para colocar os seus “mentores” e “voluntários” nas salas de aula, físicas ou virtuais. Para “ajudar”, evidentemente…

Claro que a falta de professores qualificados que nalgumas zonas do país já se começa a sentir é o resultado, não da pandemia, mas de políticas erradas que tardam em ser revertidas e que tornam a profissão docente pouco atractiva e certas ofertas de horários impossíveis de aceitar. Mas quando se governa sem estratégia nem rumo, a sobrevivência política baseia-se na fuga aos problemas. E é difícil resistir ao canto de sereia destas soluções fáceis e baratas, baseadas em formadores instantâneos a substituir os professores qualificados que faltam nas escolas.

A Fundação Calouste Gulbenkian vai lançar o projecto GAP – Gulbenkian Aprendizagem com o apoio do Ministério da Educação. A iniciativa pretende apoiar pelo menos 5 mil alunos dos ensinos básico e secundário a recuperar aprendizagens perdidas em três áreas disciplinares do currículo: Português, Inglês e Matemática, bem como a desenvolver competências importantes para o estudo autónomo.

O apoio dado aos alunos de cerca de 120 escolas nestas três áreas será prestado através de Mentorias Académicas. Sistema inovador em Portugal, estas mentorias serão levadas a cabo de forma individual, em pequenos grupos ou na sala de aula (em tempo curricular, presencial ou online), por uma bolsa de 30 a 60 mentores da Associação “Teach For Portugal” (www.teachforportugal.org), com a colaboração da Associação Portuguesa de Professores de Inglês, da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) e das Universidades do Porto e do Minho. Prevê-se que sejam prestadas, entre Janeiro e Junho de 2021, cerca de mil horas de mentoria semanal.

Em complemento a estas mentorias, a Sociedade Portuguesa de Matemática vai assegurar Aulas de Matemática a um conjunto de turmas deste universo que, devido aos efeitos da situação pandémica, estejam sem professor a esta disciplina. As aulas de Matemática, asseguradas por uma bolsa de professores voluntários constituída pela SPM, serão lecionadas (de forma virtual ou presencial) a partir do mês de Dezembro.

5 thoughts on “Mind The GAP!

  1. Por Espanha

    Á míngua de professores profissionalizados – com master – devido ao desdobramento das turmas, os nossos vizinhos estão a recorrer , temporariamente, a “simples” licenciados universitários para cobrirem diversas disciplinas ou especialidades, como eles dizem ( e já vão em 36 ). São indivíduos com sólidas , evidentemente, formações nos seus diferentes domínios e, consequentemente, com bagagem “científica ” mais que suficiente para ensinarem. Aqui prefere-se deixar centenas de alunos sem aulas porque se não houver “ensinos de…” , criaturas das eses ou piagets disponíveis … ai Jesus .

    Pergunta: como iniciaram a sua carreira muitos dos actuais professores? E os seus “longínquos ” mestres? Alguém, nesse tempo, deu pela falta das “ciências” da educação ?

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    • Cara Maria, no nosso sistema de ensino, as ESEs formam apenas professores para o 1º e o 2º ciclo. Os restantes continuam a ser formados, científica e pedagogicamente, pelas universidades.

      Pessoalmente conheço bem esse percurso, comum há 30 ou 40 anos atrás, de se começar a leccionar sem formação pedagógica, que depois se ia adquirindo com a experiência e com o estágio/profissionalização. Passei por isso e não me envergonho do trabalho que fiz nos meus primeiros anos de serviço. Mas sei que a formação pedagógica foi determinante para evoluir profissionalmente.

      Claro que se tiver de optar pelo primado da formação científica ou pedagógica nos bancos da faculdade, optarei sem hesitar pela primeira. Primeiro têm de se dominar os assuntos que se vão ensinar, depois se verá a forma de ensinar melhor e mais eficazmente. Sucede que temos um sistema de formação que, não sendo perfeito, permite conjugar as duas coisas, essenciais num professor: dominar o conhecimento científico da sua área e saber transmitir esse saber aos alunos, motivando-os a aprender. Não gostaria que, a pretexto de economicismos de vistas curtas, se regredisse nesta matéria.

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      • Caro A. Duarte

        De acordo.
        Seja como for, insisto que, na actual situação – e transitoriamente – deveríamos seguir as pisadas de nuestros hermanos. Um licenciado ou mestre em História , Geografia , Engenharia ou Belas-Artes possui , largamente, formação científica para ensinar matérias do seu âmbito. Quanto à vertente didáctico – pedagógica : em jeito de tutoria (digamos assim) , o respectivo coordenador ou outro experimentado docente do grupo poderia, dentro do possível, assumir o papel de orientador, mobilizando os tempos semanais atribuídos ao trabalho colaborativo, por exemplo.

        Não será o ideal, concedo .Mas havendo tantos alunos sem professor e milhares de credíveis diplomados sem emprego – eventualmente aceitando o “desafio” – não vejo por que espera o ME.

        Quanto à formação inicial dos professores ( seja nas eses ou nas faculdades) : se os planos de estudo fossem um pouco aliviados daquelas “ciências”, em favor de um reforço da componente específica ou científica, pelo que ouço não seria má ideia.

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