Um governo desnorteado

Ir trabalhar, à escola, assistir a espetáculos com bilhete já reservado, viajar para o estrangeiro ou ir ao notário estão entre as exceções previstas na resolução do Conselho de Ministros que impõe limitações à circulação entre concelhos neste período, que engloba o fim de semana de finados. Por outro lado, a deslocação de convidados para casamentos ou batizados, por exemplo, faz parte das situações que não vão ser permitidas.

É evidente o desnorte, nesta tentativa de confinamento concelhio que, como o presidente Marcelo acabou por reconhecer, acaba por ser mais uma recomendação do que uma proibição, tantas são as excepções que se podem invocar para viajar entre hoje e a próxima terça-feira.

Quando se percebe que os riscos de contágio dependem mais dos comportamentos individuais do que dos espaços físicos ou das actividades que neles se realizam, o país assiste, perplexo, à sucessão de decisões cada vez mais incoerentes e contraditórias de quem deveria agir com mais serenidade e discernimento. Inspirando confiança, em vez de semear dúvidas e incertezas, alimentando negacionismos e teorias da conspiração.

Faz algum sentido mandar as polícias chatear quem trabalha, em operações stop matinais à entrada das cidades, e ao mesmo tempo deixar passar sem consequências ajuntamentos como o que ainda ontem ocorreu na Nazaré? De que serve a proliferação de regras restritivas, se depois não são para cumprir? Porque é que as famílias se podem juntar para ir ao restaurante ou ao teatro ou à Fórmula 1, mas não ao cemitério? Há cada vez mais medidas que não só não fazem sentido como se mostram completamente ineficazes na contenção da pandemia. O que os números em crescendo das últimas semanas vêm, infelizmente, demonstrando.

A consequência mais grave da desorientação do Governo é que estão a fragilizar as instituições do Estado com que, nestes tempos difíceis, mais deveríamos poder contar. E isto tem um nome, que não é bonito. Chama-se cobardia política. Nem falo já dos serviços de saúde, covid e não-covid, à beira da ruptura. Penso na autoridade técnica da DGS, que se vai perdendo aos poucos de cada vez que os seus responsáveis são chamados à primeira linha para justificar decisões do poder político. E penso nas forças de segurança, que deveriam ser preservadas para missões realmente importantes e prioritárias e não para andarem em missões pedagógicas aos automobilistas às oito da manhã. Ou a serem toureadas pelos adeptos do surf nazareno.

Amanhã parece que vai ser dia de decisões políticas importantes, com um conselho de ministros extraordinariamente convocado. Esperemos que impere por lá algum bom senso e discernimento, virtudes que têm rareado, ultimamente, nas hostes governamentais.

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