O crash do sistema de colocação de professsores

Há alunos que não têm professor a determinadas disciplinas logo no início do ano nem vão ter até ao final. Esses alunos serão cada vez mais, sobretudo na região de Lisboa, Alentejo e Algarve.

Joana Mortágua, a deputada do BE que acompanha de perto o sector da Educação, esboça de forma concisa, mas rigorosa, o problema da falta de professores. Começando pelo básico, que é desmontar a ideia de que se trata de uma falha pontual, um bug do sistema informático ou, como agora se tornou moda usar como desculpa para tudo o que funciona mal, uma contingência da pandemia.

De facto, o que enfrentamos não é um constrangimento temporário ou pontual, mas um problema estrutural do sistema educativo, que assenta em duas grandes causas: o envelhecimento da classe docente, com cerca de metade dos actuais profissionais em vias de se aposentar ao longo da próxima década e a precariedade em que a profissão continua a ser exercida pelos professores mais novos.

O desprezo com que os professores têm vindo a ser tratados pelo poder político, a desvalorização social e material da profissão e a incúria com que tem sido tratada a formação de professores e a renovação geracional desta classe profissional criaram uma situação complicada que levará anos a reverter. Uma boa razão para não se perder mais tempo…

Este problema não se resolve sem uma grande reforma do sistema educativo que tenha três eixos: reformar os professores mais antigos para abrir vagas; vincular todos os precários do sistema para garantir que não fogem para outras profissões; dignificar a carreira docente para atrair mais candidatos. Nenhum destes problemas está a ser tratado e a breve notícia de que haveria um programa de pré-reformas para docentes, além de pré-anunciar cortes valentes, não se deixa encontrar no Orçamento 2021.

Passemos às afinações possíveis, ao imediato. A maioria dos horários em falta são horários incompletos, os “párias” do sistema. Alguns dos docentes colocados nesses horários não têm acesso sequer aos descontos completos para a Segurança Social. Pelo menos 800 professores dos que ainda estão em falta recusaram a colocação numa escola porque iriam ganhar entre 555 e 750 euros líquidos para darem entre oito e 14 horas de aulas por semana, provavelmente deslocados do norte para Lisboa/Alentejo/Algarve.

Querem resolver os “constrangimentos”? Comecem por aqui, por estes professores que andam há anos a reclamar justiça.

One thought on “O crash do sistema de colocação de professsores

  1. Ótima análise e ótimas sugestões de Joana Mortágua. O BE deveria tê-las em consideração nas negociações com o PS/Governo.

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