Covid-19: a política do encobrimento e da mentira

Não sou epidemiologista nem especialista em saúde pública e este é, seguramente, um daqueles posts que preferiria não ter de escrever. Mas é mais do que evidente que o Governo está a acumular erros grosseiros na gestão da actual crise pandémica, com consequências directas na saúde e na vida de muitos cidadãos. Não podemos, como muitos gostariam, “ficar caladinhos”, para não causar “alarmismo” e deixar as autoridades (ir)responsáveis continuar a fazer o seu (mau) trabalho.

E no entanto, durante a primeira vaga da pandemia, governantes e a dirigentes estiveram quase sempre bem. Com o desconfinamento, não sei se por excesso de confiança, o Governo falhou estrondosamente na preparação da segunda vaga que, sabia-se bem, viria aí. Se não se queria equacionar a hipótese de um segundo confinamento, mau em todos os aspectos, então haveria que acautelar os meios para fazer a gestão da crise de uma forma proactiva, reforçando a capacidade de testagem, mantendo o foco na identificação das cadeias de contágio e no isolamento dos os possíveis infectados. Haveria que reforçar os recursos humanos no sector da saúde, em vez de esperar que profissionais exaustos e cada vez mais desmotivados continuem a trabalhar cada vez mais.

Com o trabalho de casa por fazer e correndo cada vez mais atrás do prejuízo, em vez de tomar a iniciativa para reverter uma situação que se encaminha a largos passos para a tragédia, o Governo parece estar agora a ceder a uma tentação que noutros países deu mau resultado: restringir os testes, de forma a que os assintomáticos desapareçam das estatísticas dos casos positivos, e assim “aplanar” artificialmente uma curva de crescimento que se vinha a tornar assustadoramente exponencial.

O truque é bem visível até nas estatísticas do site oficial. Veja-se a evolução do número de novos casos e de amostras testadas desde o início de Setembro até agora. Enquanto a evolução dos casos vai de uma média de 500 diários para cerca de 2000 ao longo da última semana – uma subida de 400% – a capacidade de testagem terá aumentado menos de 50% – de valores em torno dos 20 mil para um valor médio inferior a 30 mil.

Esta mudança de orientação é bem visível nas escolas. Agora, os casos suspeitos já raramente são testados. Perante um positivo numa turma, os colegas – por vezes apenas os que se sentam mais próximo dele na sala de aula – são mandados para casa cumprir isolamento. Mas só farão teste se apresentarem sintomas. Ao fim de dez dias, presume-se que, mesmo que tenham ficado infectados, estarão curados e podem regressar à escola – sem necessidade de qualquer teste. Quanto aos professores, continua a prevalecer a curiosa ideia de que, por qualquer razão misteriosa, são imunes ao contágio dos alunos.

Claro que, ao não testar possíveis contágios entre alunos, prolonga-se o mito de que não há contágios nas escolas. Tal como não há nos transportes públicos, pois também não se fazem testes aos desconhecidos que terão viajado, em autocarros ou comboios superlotados, ao lado de passageiros infectados. Ao testar apenas os colegas de turma que se sentam junto do colega infectado, comprova-se que, estando de máscara, a protecção é eficaz. Mas não se testa o companheiro do refeitório, da brincadeira no recreio ou do transporte escolar – situações onde as probabilidades de contágio são muito maiores.

Esta enorme mentira que se está a construir, em nome de um bem maior que será o de manter as escolas abertas e a economia a funcionar, tem um custo que já está a ser dramático: o novo recrudescer de surtos nos lares e outras estruturas de apoio a idosos. Apesar dos cuidados redobrados que estas instituições continuarão a ter, a verdade é que, ao não testar e isolar como deveríamos, estamos a permitir que o vírus se propague livremente na comunidade. A partir daqui, é apenas uma questão de tempo, e um jogo de sorte e azar, até que instale entre os grupos mais vulneráveis.

Mas a covid-19 também fará as suas vítimas – já as está a fazer, entre as camadas etárias mais jovens, os supostamente invulneráveis. Não são os idosos que estão a levar ao esgotamento da capacidade dos hospitais, obrigando a reduzir a resposta a outras doenças para poderem atender os doentes covid. Em Espanha, já há hospitais a interromper tratamentos a cancros da mama para libertarem camas para doentes covid. Por cá, será também esse o caminho que queremos seguir?…

4 thoughts on “Covid-19: a política do encobrimento e da mentira

  1. “Esta mudança de orientação é bem visível nas escolas. Agora, os casos suspeitos já raramente são testados. Perante um positivo numa turma, os colegas – por vezes apenas os que se sentam mais próximo dele na sala de aula – são mandados para casa cumprir isolamento. Mas só farão teste se apresentarem sintomas. Ao fim de dez dias, presume-se que, mesmo que tenham ficado infectados, estarão curados e podem regressar à escola – sem necessidade de qualquer teste. Quanto aos professores, continua a prevalecer a curiosa ideia de que, por qualquer razão misteriosa, são imunes ao contágio dos alunos.”

    Confirma-se.

    E é tudo mantido em certo secretismo. Mais, há alunos a ligarem para a saúde 24 que lhes dizem para ficarem em casa, sendo que as escolas os mandam ficar na escola….uma enorme confusão!!

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  2. Ao oportuno comentário do António, convém acrescentar alguns factos que constituem tabu nos media, tão pressurosos em bombardear-nos constantemente com os números.
    Há uns números que eles nunca referem, nomeadamente a percentagem de fiabilidade dos testes, por exemplo. Segundo alguns especialistas, ela varia entre 20 a 5% de acertos. Nada mau. Comprovadamente, muitos positivos aparecem em pessoas plenamente saudáveis e sem virus nenhuns. Tb era bom ser explicado o que é que os testes testam de facto. Sequer indicam se o material detectado está ou não activo. Ou então discutir por que é que África, uma zona prevista como túmulo, é agora das mais seguras, com números infinitamente inferiores ao Ocidente desenvolvido. Como nada disto se quer discutir, surge a inevitável e habitual pergunta: porque será???????

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