ME 55 – Colégios 0

A última decisão judicial conhecida na guerra jurídica devido às restrições no financiamento do Estado data do princípio deste mês. Todos os processos concluídos foram decididos a favor do Ministério da Educação. Ensino particular dá o caso como encerrado: “O mal está feito e não é reversível.”

Quatro anos depois, chega finalmente ao fim a longa guerra jurídica que os colégios que perderam os seus contratos de associação moveram ao Estado. Recorde-se que o anterior ministro, Nuno Crato – o tal que se lamentava de não ter dinheiro para nada – tinha ampliado o conceito de contrato de associação, tornando-o, nalgumas zonas do país, quase equivalente a um cheque-ensino: a família escolhia a escola privada aderente e o Estado pagava essa escolha – ainda que isso implicasse degradar as condições de funcionamento das escolas públicas e duplicar despesa pública.

Com as alterações introduzidas pela então secretária de Estado Alexandra Leitão, apenas em situações de comprovada carência de oferta educativa na rede pública se mantiveram os contratos, mas mesmo assim apenas para os alunos residentes nessas zonas carenciadas. O que, a prazo, ditou o encerramento das escolas que não se conseguiram adaptar à nova realidade. E uma catadupa de 55 processos em tribunal, dos quais nenhum, sabe-se agora, teve provimento.

Nas decisões judiciais, há um princípio importante que os juízes invocaram, perante as pretensões dos donos dos colégios: o de que o Estado contratualiza com privados unicamente para garantir fins de interesse público e apenas enquanto essa necessidade persistir. Não existe para satisfazer ou garantir, com o dinheiro dos contribuintes, os interesses privados.

Na peça do Público a jornalista Clara Viana, noutros tempos uma notória simpatizante da causa dos colégios, fez um esforço de isenção e contenção, analisando o tema de forma objectiva e imparcial e dando voz aos diferentes intervenientes. Não resiste, no entanto, a terminar com uma alfinetada final, dando a última palavra ao representante das escolas privadas…

Como a procura do ensino particular está em alta, o director executivo da Aeep, Queirós e Melo, conclui que o que resultou de tudo isto “é que os pobres não podem frequentar as escolas que cada vez mais estão a ser escolhidas pelos ricos”.

Sobre isto, apenas recordarei que os colégios da moda – elitistas, com lista de espera, reserva do direito de admissão e propinas a condizer – nunca estiveram, nem quereriam estar, abrangidos pelos contratos de associação. Pelo que nem com o mais benevolente dos regimes de acesso à escola privada os “pobres” lhes conseguiriam aceder.

2 thoughts on “ME 55 – Colégios 0

  1. Excelente artigo! Já partilhei no FB colega, obrigada.

    Já agora chamo a atenção para o Público de hoje com notícias dos professores contratados e a audiência na AR sobre a petição dos mesmos nos horários incompletos.

    Cumps

    Gostar

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