Mais uma campanha contra a escola pública

manif-amarelaA comparação com as escolas privadas deixa as escolas públicas numa posição desconfortável. Nos privados, em geral, houve aulas à distância, o mérito académico não foi dispensado, a reabertura do ensino presencial foi serena e a aposta na aprendizagem dos alunos assume-se prioridade absoluta.

A primeira narrativa dos media sobre a educação em tempos de pandemia garantia-nos – quem se recorda? – que o ensino à distância iria obrigar alunos e professores a trabalhar e a aprender como nunca, operando uma verdadeira revolução educativa e fazendo de todos uns craques em tecnologias de informação.

Poucos meses passados, dá-se uma aparatosa cambalhota no discurso: afinal, ensinar e aprender a sério só se consegue na escola, na interacção directa dos alunos entre si e com os seus professores, sendo o E@D um parco remedeio, que empobrece as aprendizagens e aprofunda as desigualdades no acesso à educação.

Com a reabertura das escolas, o discurso mudou outra vez: os habituais comentadores oficiosos destas coisas, que raramente são professores dos que dão aulas, asseguram-nos agora que o ensino à distância funcionou afinal às mil maravilhas, mas apenas nos colégios. Os alunos das escolas públicas ficaram a ver navios. E por isso teríamos agora os pais preocupados, numa sangria desatada, a querer mudar os filhos para o ensino privado.

Há aqui alguns pontos a clarificar. Antes de mais, os colégios da moda que asseguram ter cada vez mais alunos em lista de espera já se encontravam nessa situação muito antes da pandemia. É uma realidade radica numa política educativa que tem conduzido ao aprofundamento das desigualdades: a exagerada mediatização de rankings, o desinvestimento na escola pública, a inclusão feita por decreto, são apenas algumas das facetas mais notórias. A pandemia apenas terá acentuado uma tendência que vem muito de trás e é consequência das políticas de sucessivos governos.

Depois há que ter em conta as assimetrias sócio-económicas. É evidente que quem gasta anualmente milhares de euros nas propinas de um colégio não terá problemas em proporcionar aos filhos o computador, o tablet, o smartphone e tudo o que mais precisar para se manter conectado com os professores. Nas escolas públicas, boa parte do esforço despendido nas primeiras semanas foi apenas para garantir, numa inédita mobilização de esforços entre escola, famílias, autarquias e instituições locais, que nenhum aluno ficava para trás.

Na minha experiência de professor à distância, a preocupação de não perder alunos, de não deixar nenhum deles para trás, condicionou fortemente o trabalho desenvolvido, que considero bom, sem falsas modéstias. O agrupamento de escolas públicas onde ensino avaliou o E@D num processo amplamente participado por alunos e pais e a grande maioria valorizou muito positivamente a experiência. Muitos pais fizeram questão de agradecer aos professores o esforço, a competência e tudo o que, em condições difíceis, conseguiram fazer pelos seus filhos. Admito que nalguns lados possa não ter corrido tão bem. Mas espanta-me a facilidade com que alguns comentadores e especialistas encartados decretaram já, e em definitivo, a incapacidade das escolas públicas em acompanhar os alunos em ambiente de ensino remoto.

Sublinhe-se, finalmente, a contradição do discurso: porque a experiência do ensino remoto não foi boa, agora que as escolas retomam o presencial é que os pais procuram os colégios, supostamente melhores a ensinar à distância? Há algo aqui em que falha a lógica. Em boa verdade, este discurso só faz sentido enquanto parte da velha campanha contra a escola pública e em favor do ensino privado. Pretende-se insinuar que as escolas privadas preparam melhor os seus alunos, apesar de haver estudos sérios, aprofundados e independentes a demonstrar claramente que os estudantes oriundos do ensino público têm em média melhor desempenho académico no ensino superior do que os provenientes do privado.

Há, no entanto, um ponto em que devo dar razão aos críticos da escola pública: com a sua política de desinvestimento na Educação, atolando as escolas em burocracia e pseudo-reformismo, promovendo uma falsa inclusão e o facilitismo avaliativo para conseguir sucesso estatístico, o governo socialista está a atentar gravemente contra a qualidade da escola pública. Urge reconhecer os erros e arrepiar caminho…

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