Mais 303 cientistas da educação

Analisando as colocações da primeira fase de acesso ao ensino superior, há algo que me deixa perplexo: cinco licenciaturas em “Ciências da Educação”, que em conjunto recebem 303 novos estudantes.

cienc-edu

Admito no entanto que a minha perplexidade possa causar estranheza: o que leva um professor a desvalorizar o estudo e o ensino das teorias e metodologias da Educação e das suas ligações a outras áreas do saber como a Psicologia, a Sociologia e a História? Acaso pretende, num exercício de anti-intelectualismo, desvalorizar a sua própria profissão, reduzindo-a a uma praxis sem substrato teórico, crítico e reflexivo?

Nada disso. As minhas reticências a estas fornadas de “cientistas” que algumas universidades continuam a formar para o desemprego partem de uma constatação muito simples: não temos, nas escolas portuguesas, vagas para cientistas da educação. Precisamos, isso sim, de professores. E, complementarmente, de psicólogos, terapeutas e outros profissionais qualificados para trabalharem directamente com os alunos, sobretudo os que têm necessidades educativas especiais. 

A habilitação profissional de um professor compõe-se, nos dias de hoje, de uma licenciatura que abrange uma ou várias disciplinas e níveis de ensino que irá leccionar, complementada por um mestrado em ensino – onde se incluirão as ciências da educação e as didácticas específicas. Um cientista da educação poderá ter um saber teórico muito mais aprofundado do que qualquer dos professores que se formaram para dar aulas. Mas não tem uma formação científica que o habilite a ensinar qualquer disciplina.

Ainda assim, dir-me-ão, os teóricos também são importantes. São os investigadores e académicos que irão estudar o passado e o presente da educação e desbravar os novos caminhos da pedagogia, trazendo aos actuais e aos futuros professores as teorias, as reflexões e os conhecimentos que permitirão a inovação e a renovação da prática docente. 

Ora isto é inteiramente verdade. Acontece que, para este fim, não precisamos de formar 300 novos cientistas em cada ano, que não encontrarão lugar no mercado de trabalho.

Para acabar a trabalhar na caixa do Continente ou num call center, será seguramente excesso de habilitações. E como curso de cultura geral, haverá outros, certamente, mais interessantes.

2 thoughts on “Mais 303 cientistas da educação

  1. As faculdades que ministram os estupendos cursos em “ciências ” da educação querem “mazé” manter mais uns lugarzinhos para os seus professores – à conta dos incautos. Convenhamos, contudo, que o mesmo se passa em inúmeros cursos superiores, ou dito superiores, que por aí pululam . Que fazer?

    Voltando às “ciências” da educação : quando a coisa começou a aparecer em força, dei-lhe o benefício da dúvida . Admiti que, com tantas “teses” , “estudos” e o diabo a sete, a qualidade do ensino em Portugal subiria em flecha. Mas – na minha modesta opinião – aconteceu exactamente o contrário .

    Então, como se diz na planície, “porra p`ra isto” (para não dizer pior).

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  2. Numa irritante linguagem, sem substância , pejada de clichés e tolices , as ditas “ciências” oferecem-nos milagrosas soluções para tudo, mesmo para o impossível.

    Exemplo :
    Um aluno NEE, com acentuado défice cognitivo, aparece – milagrosamente – matriculado numa turma do 8º ano. Dificilmente conseguiria fazer a 3ª classe, no meu tempo. Mas “está” no 8º ano, prontosss.
    Desesperado, e perplexo, o professor de Matemática não sabe, obviamente, o que fazer dada a complexidade dos conteúdos a ensinar e a total incapacidade do jovem . A solução surge célere : ” tem de arranjar estratégias”. Ora aí está !
    E se não “arranjar estratégias” arrisca-se a passar por incompetente…

    ( Nota : caso verídico )

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