Um reaccionário confessa-se

António Barreto

A escola deve ser democrática, na sua função social, permitindo o acesso de todos, mas não deve ensinar a democracia nem a cidadania. Não deve muito menos orientar comportamentos e atitudes, modelar espíritos e formar consciências.

António Barreto não consegue sequer enunciar correctamente o nome da disciplina que, no seu entender, deveria desaparecer do currículo. Mas, com o ar gravissério de oráculo do regime, lá vai defendendo a ideia, tão utópica quanto, nos dias de hoje, reaccionária: uma escola neutra em matéria de princípios e valores.

Fazendo o jogo da direita conservadora, mete tudo no mesmo saco, fazendo equivaler o educar para os direitos humanos, a igualdade, a tolerância, a democracia ou a saúde à imposição de ideologias ou religiões. Equipara a pluralidade, o diálogo, o debate e o confronto de ideias com o pensamento único e a doutrinação próprios dos regimes totalitários.

No mundo da internet e das redes sociais, a velha ideia de que à família compete educar e à escola instruir faz cada vez menos sentido. Sabemos que estereótipos e preconceitos discriminatórios se perpetuam precisamente por serem normalizados e relativizados, em vez de questionados e combatidos. Que há evidentes desigualdades sociais e défices de cidadania activa que a escola só por si não pode anular, mas que deve fazer a sua parte para ajudar a corrigir.

Acrescente-se que o pretenso combate ideológico já nem sequer opõe, como pretendem os novos fundamentalistas da neutralidade educativa, a escola à família: trava-se cada vez mais contra o mundo avassalador das fake news, do discurso de ódio, das seitas e do ciberbullying que proliferam nos media sensacionalistas e nas redes sociais. Uma realidade incontornável, embora ainda haja pais convictos de que conseguem educar os filhos numa redoma, imunes às influências e tentações do mundo que os rodeia.

Ajudar as novas gerações a distinguir as sementes do ódio e da intolerância, do assédio e da discriminação, do abuso e da violência que germinam à sua volta é, sem dúvida, uma tarefa de que as escolas não se podem alhear. Fazer dos alunos cidadãos conscientes dos seus direitos, respeitadores do próximo e cumpridores dos seus deveres não é doutrinação: trata-se de os capacitar para viver, de forma livre e responsável, em sociedade – como é próprio da natureza humana. E aqui a existência ou não de uma disciplina autónoma é relativamente irrelevante: formar cidadãos é uma responsabilidade de todas as disciplinas, de todos os professores.

15 thoughts on “Um reaccionário confessa-se

  1. Caro António Duarte,

    É com as “aulas” de Cidadania e Desenvolvimento que se vai “Ajudar as novas gerações a distinguir as sementes do ódio e da intolerância, do assédio e da discriminação, do abuso e da violência que germinam à sua volta”?

    Através de uma componente curricular (que não é disciplina) que pode ser implementada sob 4 formas (n.º 4, artigo 15.º do DL 55/2018), onde o seu desenvolvimento como disciplina autónoma não é uma obrigatoriedade?

    Em projetos direcionados a um ou dois temas daquela lista imensa? Então e os outros? Mesmo nos selecionados, a carga horária permite uma continuidade pedagógica que possibilite a aquisição e consolidação efetiva e duradoura dos conhecimentos inerentes?

    Num clima de impunidade generalizada e com um estatuto do aluno moribundo, aquilo que se propõe é sentar um aluno para lhe dizer que não se pode bater no outro?

    A orientação dos alunos em situações práticas não valerá como estratégia bem mais profícua (no contacto diário, com ou sem conflitos; ensinar a ser delegado e subdelegado de turma; parlamento jovens; gestão das assembleias de turma; eleições e demais atividade da associação de estudantes; preparar os representantes dos alunos no Conselho Geral, sugerindo-lhes que auscultem os alunos em assembleia de modo a levar os assuntos às reuniões; regimes de tutoria; quadros de mérito; promoção de condutas adequadas; etc.)?

    Serei eu uma má pessoa por pensar assim? Já não basta ter passado pela experiência negativa, por isso abandonada, da Formação Cívica (os assuntos são os mesmos)?

    Bem que gostaria de lhe dar razão, era sinal que os problemas do mundo tendiam a ficar resolvidos.

    Cumprimentos,
    Rui Ferreira

    Gostar

    • Caro Rui,

      Antes de mais, uma rectificação: o n.º 4, artigo 15.º do DL 55/2018 aplica-se ao ensino secundário. No 2.º e 3º. CEB é mesmo obrigatória a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, conforme consta das matrizes curriculares do mesmo DL.

      No resto, julgo que estamos de acordo: acho que uma disciplina com um tempo semanal para abordar pela rama e de forma desgarrada alguns temas de cidadania tem uma eficácia muito reduzida.

      Pessoalmente, e enquanto professor de História, prefiro abordar as questões dos direitos humanos, da igualdade de género, da democracia, etc. integrados nas matérias curriculares. Acho um disparate, por exemplo, retirar-se um tempo semanal à História no 9º ano, que é quando abordamos a maior parte destes temas, integrados na história contemporânea.

      Depois, uma coisa que me faz impressão nestes recentes ataques à educação para a Cidadania é a ilusão, que os seus detractores parecem alimentar, de que nós conseguimos, assim do pé para a mão, “doutrinar” os nossos alunos e colocá-los a pensar e a agir como pretendemos. As dificuldades que passamos, às vezes, para conseguir que aprendam o mais simples b-a-bá, e afinal poderíamos simplesmente educá-los com umas instantâneas lavagens cerebrais…

      Também não tenho dúvidas de que é muito mais fácil e profícuo ensinar pelo exemplo e através de situações práticas como as que refere. A democracia, a tolerância, a igualdade de direitos, o respeito pelos outros, são dificilmente interiorizados se apenas fizerem parte da teoria e não da vivência do dia-a-dia na escola.

      Gostar

  2. É capaz de argumentar bem melhor do que isto!

    Como se dentro da classe não houvesse professores adeptos do partido que idolatra Mao e a Coreia do Norte! Outros do PS e PSD! Outros do PAN! Outros do Chega!

    Como se todos os professores pensassem, fizessem e ensinassem a mesma coisa! Isto da CD é uma daquelas coisas que vão redondar em fiasco absoluto e completo e que serve apenas para uma bravata da esquerda, que quer salvar o mundo impondo os seus valores, quando os ditos valores são uma questão bem complexa e que necessitam de uma fundamentação filosófica que se situa muito além da sua forma habitual de colocar as questões: os progressistas de esquerda versus os reaccionários de direita!

    Pobre! Muito pobre!

    Recordo-lhe mais uma vez o seu rotundo fracasso no que diz respeito às suas tomadas de posição e opiniões que veiculou. Fracasso atrás de fracasso, frequentemente na observância do que a sua linha política e ideológica defende.

    Isto, sim: https://www.publico.pt/2020/09/12/sociedade/noticia/barrar-ensino-superior-publico-recuse-aulas-cidadania-solucao-magistrada-1931398

    Gostar

    • Caro António, os meus argumentos favoritos são os de natureza pedagógica, e também já os usei. Acho que os temas de cidadania deveriam ter uma abordagem assente, não no achismo de cada professor ou nas suas convicções político-partidárias, mas em conhecimento sólido e estruturado das diversas áreas disciplinares.

      Acredite ou não, ficarei satisfeito no dia em que acabarem com uma disciplina que serviu, entre outras coisas, para retirar tempo lectivo à História, onde deixaremos por abordar, por falta de tempo, alguns temas que seriam úteis, justamente, para a cidadania.

      Agora quem ataca a disciplina de CD fá-lo por razões bem distintas: eles não querem cidadania alguma na escola, com ou sem disciplina própria.

      Quanto à pretensão da procuradora, acho obviamente um disparate…

      Gostar

  3. Caro António Duarte,

    Creio ser mais que um disparate retirar horas à História, as disciplinas das humanidades já foram muito penalizadas.
    Sei bem que as 4 opções são para o secundário mas, a haver disciplina, não seria mais adequado ser nestas idades? O número de escolas que optou pela alínea a) é residual. Porque será?

    A importância da dita “disciplina” que a tutela pretende assegurar neste braço de ferro esbate-se quando é a mesma tutela a não considerar como obrigatória, principalmente em idades de maior maturação, e, fundamentalmente, por diluí-la numa imensa panóplia de temas que torna a sua implementação impossível.

    A portaria que define o currículo do ensino básico, no seu artigo 11.º (Portaria n.º 223-A/2018), remete para a implementação desta área para o definido no artigo 15.º do DL 55/2018, constituindo-se como uma área de trabalho transversal, de articulação disciplinar, com abordagem de natureza interdisciplinar (alínea a), n.º 3 do referido artigo), logo de disciplina ter muito pouco ou mesmo nada.

    Pergunto eu, já não se fazia antes? Claro que se fazia. Há bem pouco tempo um colega comentava aqui que abordar a Farsa de Inês Pereira era mais que uma aula de Igualdade de Género. E o Sermão de Santo António aos Peixes “Antes porém que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi agora também as vossas repreensões”, ainda o sei de cor, uma autêntica aula de cidadania o que vem a seguir.

    Cumprimentos,
    Rui Ferreira

    Gostar

  4. Caro António Duarte, vai escrevendo com uma perspectiva ideológica cada vez mais tacanha. Apetece-me deixar de o ler. O seu radicalismo ideológico, com laivos de intolerância democrática é cada vez mais evidente. Mas vou fazer mais um esforço. O que tem dito e comentado a propósito do caso da Cidadania e Desenvolvimento é duma rigidez mental, fixista, incrível! Quase puro fel ideológico.
    Pronto, prometo que ainda vou tentar lê-lo mais uma ou outra vez.

    Gostar

    • Caro Fernando, fiquei perplexo com o que escreveu.

      E preocupado, até. Pois não me tenho por intolerante ou de ideias fixas. E sou sensível às reacções de quem me lê, pelo que se estou a ser acusado, a meu ver injustamente, de fazer o que não quero ou de defender o que não defendo, provavelmente não me estarei a explicar bem.

      O que eu defendo, mas pelos vistos não tenho estado a exprimir da melhor forma, é uma escola plural e tolerante, um espaço de diálogo e confronto de ideias, que é precisamente o que os opositores da disciplina de Cidadania, na minha maneira de ver, estão a contestar.

      Não quero impor qualquer ideologia na escola ou orientação doutrinária aos programas, seja em que disciplina for. Não desejo censura na escola, venha ela de onde vier: do ministério, dos professores ou dos pais que querem cidadanias opcionais. E se no que tenho escrito defendo estas ideias com alguma veemência é porque acredito nelas, não porque queira menorizar ou ser intolerante com quem pensa de modo diferente.

      Agora também me parece, e gostaria de saber se ao menos neste ponto concorda comigo, que há alguma desonestidade intelectual da parte de quem argumenta contra a disciplina de cidadania sem enunciar claramente o que pretende e ao que vem. E, claro, o mais lamentável e preocupante nisto tudo, que é usarem-se os dois jovens como reféns de uma luta, essa sim, política e ideológica contra o governo.

      Gostar

    • Olhe que não, olhe que não!

      As qualidades do autor deste blog : sensatez, conhecimento, isenção, serenidade , capacidade comunicacional, sei lá, são mais que reconhecidas .
      Por isso, faça um esforçozinho por entender o que lê, o que não é pedir muito atendendo à assertividade e cristalina clareza que emanam dos textos escritos pelo prezado António Duarte .

      Gostar

      • Concordo maria, considero o António Duarte a antítese das críticas que lhe são feitas pelo comentador.

        Gostar

  5. E dá-lhe !

    Mas o que se poderá “cidadanar ” numa pseudo-disciplina com uma horita semanal ? Como se não bastasse, a coisa é , frequentemente, “dada” por professores (sem qualquer bagagem) para ali atirados – eles próprios não fazendo a mínima ideia do “quissoé”. Ao menos, segundo consta, se forem DT aproveitam o tempo para verificarem com a petizada como andam as faltas. A CD “existe” ?

    Gostar

  6. Ó CRIANÇADA, ensinai alguma coisa aos profes , sobretudo aos de ” cidadania”

    Desintoxicai a cabeça aos tristes Adultos

    Rapazes, é a vossa oportunidade de atirar aviõezinhos à mais bonita / à mais convencida /… / Não sabeis fazer aviõezinhos, ou o não vos deixam

    Ó minha neta, ( 12 anos) lembras-te do teatro cómico que fizemos em casa quando na aula de ” Cidadania” responderam a um inquérito sobre violência no namoro

    E no outro dia ( 13 anos) estava a fazer um chá com ervas aromáticas do canteiro e tu me enumeraste uma carrada de plantas afrodisíacas ( esses dedinhos sabem tudo)

    Tu (onze anos) – avó, só vou se houver lá rapazes bonitos . e eu pensei: na tua idade pensava o mesmo só que não dizia
    Meus Meninos , cada vez sois mais vítimas dos paranóicos

    Gostar

  7. O meu 1º comentário dirigia-se ao que escreveu o sociólogo Barreto.

    Deixei de ler o que o sr escreve ou diz.

    A ignorância e a má fé são enormes.

    Lembro-me de 2 pérolas:

    1- a defesa que fez das aulas de substituição quando apareceram, dizendo que eram pagas e outras delícias….

    2- reconhecer o facto de haver cada vez mais mulheres nas universidades mas…não ter ainda a ideia do porquê.

    Então o A. Duarte anda para aqui a espalhar ” O seu radicalismo ideológico, com laivos de intolerância democrática” que ” é cada vez mais evidente”??!?

    Ahhhhhhhh……………….

    Incrível!

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.