Não me peçam calma

mamadou-baNão me peçam calma nem contenção porque estou cansado dos vossos pedidos. Até quando me vão acusar de ser responsável pelo racismo de que sou vítima? Até quando continuarão a dizer que sou igual àqueles que me violentam e me querem matar? Até quando continuarão a pedir-me para esperar enquanto se vai matando ou ameaçando matar uma parte de mim? Até quando? Ou ainda não perceberam que qualquer morte ou ameaça de morte racista é uma morte da própria ideia dos valores de humanidade que tanto gostam de apregoar? Só a condescendência com a morte da própria ideia de humanidade pode levar uma comunidade política a não se sentir ela própria ameaçada com ameaças de morte por ódio racial. Portanto, a única decência que espero dos que insistem em negar ou relativizar o racismo é que tenham a inteligência e a coragem de matar o racismo antes que ele nos mate.

O dirigente do SOS Racismo coloca – bem – o dedo na ferida. Afinal de contas, há um relativismo cultural e moral de que a esquerda costuma ser acusada que também é evidente à direita. A verdade é que nem todos os radicalismos se equivalem, e ser radical na defesa de direitos para todos não é a mesma coisa que ameaçar a vida, a liberdade e a segurança de outros cidadãos.

Independentemente de posicionamentos políticos ou ideológicos, há que reconhecer coragem e sentido de justiça na intervenção oportuna de Mamadou Ba. O racismo existe, e a condescendência com os actos racistas apenas sublinha que a discriminação, a exclusão e a violência contra portugueses de etnias minoritárias continuam bem vivas entre nós. E encoraja a extrema-direita fascizante e xenófoba a ser mais ousada e perigosa na sua afirmação.

O apelo à calma dos que são violentados enquanto se transige com os violentadores é a demonstração clara de que há mesmo um racismo estrutural na sociedade portuguesa. Ainda que gostemos de viver, nesta como noutras realidades, em estado de negação.

3 thoughts on “Não me peçam calma

  1. Sugiro ao Senhor Mamadou que leia os artigos de Rui Baptista no blogue De Rerum Natura. V~e como as coisas são e o que ainda temos mesmo num blogue prestígiado.

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  2. Li. O que terá levado gente como Carlos Fiolhais e outros a meter lá o Senhor Rui Baptista? Dá que pensar mas … não se descortina.

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