Ainda a demagogia dos rankings

raquel-varelaPolémica, por vezes excessiva, para alguns, na forma como exprime os seus pontos de vista, Raquel Varela tem o imenso mérito de não alinhar com os consensos pantanosos que continuamente se vão erigindo na área da Educação. Sob a batuta da OCDE e do internacionalismo financeiro e traduzido naquela novilíngua de tiradas pedantes e chavões pretensiosos a que convencionou chamar-se eduquês.

A pretexto ainda dos rankings das escolas, feitos a partir dos resultados dos exames, e das leituras que deles vão sendo feitas, a investigadora demarca-se tanto do discurso da direita elitista em busca das melhores escolas e da glorificação do ensino privado, como do discurso miserabilista de alguma esquerda, que louva as pequenas vitórias das escolas do fundo da tabela. As escolas onde a maioria dos alunos não aprendem satisfatoriamente, mas em contrapartida realizam outras “conquistas”: vêm às aulas em vez de vadiarem na rua, convivem com os colegas, almoçam na cantina – nalguns casos a única refeição completa que fazem ao longo do dia.

Ora a escola é, acima de tudo, o lugar onde se ensina e aprende. Onde, pela educação, os alunos se descobrem a si mesmos, mas também ao mundo em que vivem, na sua imensa variedade e complexidade, e as pessoas que os rodeiam. Uma escola onde os alunos não aprendem até poderia ter uma cantina com estrelas Michelin, mas continuaria a falhar redondamente na sua missão educativa. E são indignas e miseráveis todas as esquerdas que se conformem e compactuem com esta realidade.

Deixemo-nos de demagogia, que cresce fértil no país, e será cada vez pior com a promoção da ignorância a que assistimos. Uma escola que está no fim do ranking não fez um bom trabalho porque “pelo menos os alunos comem, e não andam no tráfico de droga”. A escola é um lugar para educar e transmitir o pensamento científico às novas gerações. Não é uma cantina, um depósito de crianças, nem um departamento da assistência social. O professor é um educador, não é um mediador, nem um cuidador, nem um animador cultural. Uma escola com média de 1,7 em 20 é um lugar onde os alunos são analfabetos funcionais. Contra a direita segregadora que defende a lei da selva, uma parte da esquerda, com responsabilidades governativas, resume a sua política cada vez mais à defesa do Estado Assistencial em vez do Estado Social, universal, de qualidade. O direito à educação plena é basilar de uma sociedade democrática. Que andemos a discutir no século XXI que “pelo menos eles comem” não é um sintoma de boas políticas do governo, é a confissão do seu falhanço total. Estas escolas servem para produzir mão de obra para limpar centros comerciais às 4 da manhã por 2 euros e meio à hora e serventes de pedreiro. 

16 thoughts on “Ainda a demagogia dos rankings

  1. Às vezes concorda-se com Raquel Varela; outras nem por isso.
    Este excerto é muito bom.
    Entre a ideologia da direita política para a escola pública – a da futura mão de obra barata que não questione e não ande por aí a assaltar a sua propriedade privada e a de uma esquerda dos “coitadinhos”, ao menos não andam a vadiar nas ruas e pelo menos os alunos têm uma refeição por dia e a escola tem de ir ao encontro do sempre lúdico e mui flexível, existe um espaço vazio que ninguém parece querer abordar.E enquanto não se aborda o problema, as 2 visões acabam por confluir em osmose estranha.

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  2. Para a Raquel Varela não tenho a mais pequena das paciências. Uma demagoga.

    Sobre os discurso de elogio às escolas que figuram nos últimos lugares dos rankings, como fez o SE Costa, num texto miserável, que na prática desvaloriza os resultados da aprendizagem e por consequência a possibilidade desses alunos acederam à universidade. Aquelas discursos assumem que destas escolas poucos serão os alunos que terão um nível de vida (cultural e material) diferente do dos pais. O discurso miresabilista vem de quem sabe que em alguns espaços geográficos as escolas mais não são do que instituições de proteção social/ocupação de potenciais delinquentes. E sejamos sinceros, nestes casos, em que a escola é uma extensão do “bairro” só há uma solução eficaz: encerrar a escola e distribuir os alunos dessa zona pelo maior número possível de escolas “normais”.

    Sobre o falhanço dos programas de apoio às escolas em contextos favorecidos sugiro este artigo de Tiago Neves & Gil Nata:

    https://www.researchgate.net/publication/324992606_A_eficacia_dos_programas_de_educacao_compensatoria_nos_resultados_escolares_analise_do_programa_nacional_portugues_de_educacao_compensatoria_ao_longo_de_13_anos

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    • Daniel, quando os alunos problemáticos são poucos, a integração em escolas e turmas “normais” é a melhor solução, desde que conjugada com outras medidas de apoio, nomeadamente turmas reduzidas que permitam dar atenção aos que dela necessitam.

      O problema é quando são “bairros” inteiros de alunos complicados. A solução de fundo seria fechar, não a escola, mas o bairro. Ou seja, reverter uma política habitacional que, ao longo de décadas, tem induzido fenómenos de guetização e gentrificação difíceis de reverter.

      Depois há outros fenómenos difíceis de controlar. Por exemplo, os alunos e as famílias preocupados com o bom ambiente escolar que tendem a fugir de escolas que tomam como mal frequentadas.

      Aqui na zona onde moro havia, há uns anos atrás, uma situação sui generis: uma escola TEIP e dois ou três colégios com contrato de associação que “pescavam” os melhores alunos, ou os menos maus, ajudando a perpetuar o estigma da escola dos “pobres” e dos “ciganos” que mais ninguém queria.

      É preciso encontrar um equilíbrio que não é fácil e, acima de tudo, abandonar a ilusão de que a escola consegue resolver, por si só, problemas sociais que em muito a ultrapassam.

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  3. Eu sei que o problema é o território e não a escola. Mas os ministros da educação só gerem as escolas.
    Claro que o fecho destas escolas é uma impossibilidade. Só o sugeri na linha demagógica da Varela.

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    • Precisamente, e por isso se escolhem invariavelmente, à esquerda e à direita, ministros da Educação sem peso político no governo a que pertencem.

      Para que não tenham a tentação de interferir nesses problemas que desaguam na escola, mas que a transcendem completamente…

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    • Caro Daniel, permita-me duas notas:

      1.ª – fazer-lhe a seguinte pergunta à luz do conceito do adjetivo que usa, onde vê demagogia na Raquel Varela?

      de·ma·go·gi·a
      (demagogo + -ia)
      nome feminino
      1. Preponderância do povo na forma do governo.
      2. Abuso da democracia.
      3. Dominação tirânica das facções populares.
      4. Discurso ou acção que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político.
      “demagogia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/demagogia [consultado em 13-07-2020].

      2.ª – O meu agradecimento por ter sugerido o artigo científico sobre o TEIP que desconhecia e que me vai fazer muito jeito em sede de Conselho Geral no meu agrupamento que é TEIP (Território Educativo de Irracionalidade Partilhada, assim lhe chamo vai para 12 anos, a título de brincadeira). Uma fraude autêntica.

      Cumprimentos.

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      • Rui, se preferir a Varela tem um discurso básico que visa manipular as paixões e os sentimentos dos leitores para conquista fácil de protagonismo. Nem estava a pensar nesta opinião em concreto, mas na postura geral da autora.

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        • Caro Daniel, agora já entendi um pouco melhor, nada tem que ver, pois, com demagogia.
          Permita-me, se ainda tiver paciência, questioná-lo porque razão (qual a evidência) a Raquel Varela tem como propósito manipular as paixões e os sentimentos para, assim, facilmente, conquistar protagonismo?
          A última questão endereço a mim próprio: considerar-me-ei um ingénuo?

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          • Olá Rui,

            A Raquel Varela recorre a meias verdades para passar a mensagem. Quando fala de educação isso é evidente. Exemplos em opiniões recentes da autora:

            1) Os colégios de topo mantêm uma educação clássica (não sei muito bem o que isto é). Quando se sabe que muitos são um antro de PAFC. Conferir artigo da diretora do Pedro Arrupe que em tempos partilhei (1).
            2) Nesses colégios os professores são bem pagos. Rigorosamente falso, como todos sabemos. E mesmo depois de contrariada nos comentários por professores do privado, é incapaz de se retratar.
            3) Os professores com formação educacional são piores que os “científicos” (linguagem dela).

            E mesmo fora dos assuntos educacionais falta-lhe o rigor. A tese dela, na qual alega que foi o PCP a impedir a revolução “socialista” de 74 é risível. Sendo eu Portuense e com ascendência paterna Minhota, facilmente constato que a revolução à norte foi uma coisa “mini”, que esbarra na sua matriz cultural.
            Mas neste assunto, o António Duarte terá uma opinião mais válida.

            Diria que a Raquel Varela tem um papel importante na opinião publicada à esquerda, mas não deixa de ter um registo entre o da Helena Matos e do Alberto Gonçalves, “opinadores” de direita.

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          • Obrigado pela paciência Daniel. Não partilho da ideia que tem. Entendo para mim que o carácter da pessoa deve ficar de fora dos comentários, argumentações, justificações, explicações,… Eu próprio ainda não conheci ninguém que eu concordasse a 100%. Prefiro olhar para o que se escreve ou ouvir o que se fala e escrever ou dizer concordo com isto, mas já não concordo com aquilo. Cumprimentos.

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  4. Mais um excelente artigo de Raquel Varela.
    Eu que já por aqui ando há mais de 30 anos considero bem realista.

    Já agora e a propósito do os ministros da educação só gerirem as escolas??? – Desculpe mas nem isso!!!
    Em território teip já que a escola é impotente para melhorar as condições sócio-económicas, sociais, familiares e habitacionais… (Sempre pensei que a existência de vários ministérios seria exactamente para ARTICULAR políticas de coesão e integração social, económica e territorial mas… adiante… que coitados dos ministros…) os “tais que só gerem as escolas” deveriam, estão, permitir turmas com metade do tamanho …mas não… a inclusão serve para resolver isso de forma baratinha… se o jovem que chega ao 7º ano sem saber ler e escrever …então adequem-se objectivos e estratégias… e no final do 7ºAno se já sabe escrever o nome sem erros e o nome das disciplinas e consegue ler, com sequência e sem soletrar uma frase com seis palavras, atingiu os objectivos e progride!
    Exagerado? – Sim…mas pouco!

    Poderia contar aqui uma experiência “sui generis” com uma Direcção de turma de um 8º ano – turma que tive pela primeira vez e que vinha do 7º com um dos projectos promovidos pelos tais que mandam nas escolas : ” Sucesso +” ou coisa parecida. Na turma existiam um grupo de delinquentes, que vinham do bairro, fazendo da escola o seu prolongamento…

    Já é tarde, vou descansar e amanhã, se tiver algum tempo, venho até aqui acabar a história… que apenas é digna para demonstrar como “os tais que gerem as escolas” se estão, literalmente, a borrifar para as escolas, para os miúdos, para as aprendizagens e obviamente para todos os outros que nelas, ainda, se esforçam no seu papel de Ensinar.

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  5. Voltando ainda à mundivisão de Raquel Varela:

    “Sem relação presencial entre alunos e professores, estimulando o sentido crítico, debatendo e combatendo com conhecimento opções de contraditório, argumentando e contra-argumentando, estabelecendo relações críticas tensionais, não existe verdadeira educação livre. Não que o processo de educação-ensino-aprendizagem não possa e não deva incluir meios digitais, presenciais ou à distância, tecnologias de informação e comunicação de natureza não analógica. Mas esses meios são sempre subsidiários e secundários – suporte didáctico, e não, modalidade de ensino – relativamente àquilo que é o essencial da relação pedagógica.

    Não é possível construir um espaço de aula exclusivamente através de meios digitais ou televisivos, embora estes possam e devam estar à disposição de professores e alunos. Não que esses espaços não possam ser utilizados, neste momento particular. Mas nunca, e esse é o perigo que hoje se vive em Portugal, através da veiculação da ideia anticientífica de que usar, em exclusivo e como forma substituta das aulas presenciais, uma plataforma digital ou um canal de televisão com conteúdos culturais, é “dar” aulas ou um momento “mágico”. Não é. Bem pelo contrário. É um momento trágico.”

    1- Completamente de acordo.

    2- O único problema é que Raquel Varela, na defesa saudável da relação presencial entre alunos e professores, esqueceu-se ou ignora todo o processo físico e psicológico que levou ao encerramento das escolas.

    3- Espera-se de Raquel Varela uma opinião sobre as medidas do ministério da educação para Setembro, sem desdobramento de turmas/redução de alunos por turma, sobre menos intervalos e mais aulas e sobre o que é o ensino-aprendizagem em relação presencial com máscaras, bloco de aulas a seguir a bloco de aulas. Não, não há o conforto de um gabinete pessoal onde, no máximo, se possa orientar 1 ou 2 alunos.

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    • Cara Fernanda, a Raquel Varela não faz outra coisa, e já lá vai algum tempo, que não seja responder ao ponto 3 que formulou. A exemplo, o chumbo na AR ao desdobramento/redução das turmas foi possível com os votos do PS, o mesmo PS que hoje é governo. Não há dinheiro? Há, sim senhor, é vê-lo declaradamente a ser canalizado para outros fins. São opções.

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        • Se souber, direi.
          Todavia, primeiro é preciso que a RV queira, tenha vontade de, comentar.
          Com aquilo que tem produzido entendo que a RV já fez mais pela classe docente a favor do nosso (que não é o dela) estatuto da carreira.
          Cumprimentos.

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