Educação para a adversidade

we-can-do-it…se há uma falha evidente na “filosofia” actual que domina o nosso sistema educativo é desajustamento entre uma ideologia baseada num desmesurado optimismo e uma crença no progresso das sociedades humanas, que está em claro contra-ciclo com a realidade que se tem vivido nas últimas décadas. O século XXI, até ao momento, se trouxe alguns ganhos no combate à pobreza extrema em algumas zonas do mundo, não se tem revelado especialmente favorável no combate às desigualdades económicas, à justiça social ou à estabilização das condições laborais da maioria da população das economias consideradas “desenvolvidas”.

O nosso tão aclamado “Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória” é um documento ambicioso na enunciação de tudo o que se acha que os indivíduos devem desenvolver para serem cidadãos de uma sociedade mais justa, sustentável, inclusiva, humanista e tolerante, mas pouco ou nada tem acerca do modo como se deve lidar com a adversidade. Porque não chega ser-se flexível, crítico ou reflexivo, se isso é envolvido por uma retórica que dá a entender que tudo será um caminho para a felicidade e o bem-estar. Porque pouco ou nada se contempla quanto a reagir a situações negativas, de emergência, de crise global, como as que a maioria do mundo enfrentou já por duas vezes desde a viragem para o século XXI.

Não acompanho Paulo Guinote na intensidade da crítica ao E@D. Não me parece que tivesse sido possível, mesmo “parando para pensar” um pouco mais, ou escutando outras vozes, indo além do habitual círculo de avençados e cortesãos do SE Costa, fazer muito mais, ou melhor, do que foi conseguido com o ensino remoto dito de emergência.

Quanto ao essencial do post, contudo, subscrevo inteiramente. Há um problema de fundo que vem de trás, mas que o confinamento agravou, e que assenta numa visão da Educação centrada no lúdico, no fácil, nos mitos educativos do conhecimento inato e da aprendizagem espontânea, na ilusão de tudo se pode aprender rapidamente e sem esforço e de que a missão fundamental dos professores do século XXI é a de facilitadores da aprendizagem, removendo da frente dos meninos e das meninas tudo o que possa representar obstáculo na senda do conhecimento.

A verdade é que o caminho da felicidade e da realização pessoal não se faz apenas de facilidades, sendo preciso desenvolver a persistência, a resiliência, capacidades de adaptação e superação, hábitos de trabalho: competências de base essenciais para superar as dificuldades, não apenas da escola, mas sobretudo ao longo de toda a vida. Para nos conhecermos a nós mesmos, as nossas capacidades e os nossos limites. E, transformando as dificuldades em desafios, conseguir, sempre que isso é possível, dar a volta por cima.

No rol das muitas educações para a cidadania que se recomendam para o desenvolvimento de competências transversais, falta certamente uma educação para a adversidade. E isso nota-se, cada vez com mais frequência, nas nossas crianças e jovens, quando as coisas não lhes correm como pretendido. Lidar com a frustração e o fracasso, enfrentar os constrangimentos, retirar ganhos e ensinamentos mesmo das más experiências da sua vida: parece haver um claro défice destas competências entre as gerações mais novas.

Paulo Guinote nota, acertadamente, que ao não capacitarmos os nossos alunos para reagir à adversidade estamos a remetê-los a uma especial vulnerabilidade. E nem é tanto na escola, onde existem cada vez mais redes de segurança, que garantem que nenhum aluno é “prejudicado”. Se for preciso será até, como vai acontecendo cada vez mais, levado ao colo, para não se cansar demasiado.

Mas, fora da escola, a vida não é assim. E é quando começam a dar os primeiros tombos, na vida social ou sentimental, no ingresso na universidade ou na entrada no competitivo mundo laboral, que as vulnerabilidades vêm ao de cima. A descoberta de que nem sempre conseguimos concretizar os nossos sonhos ou ganhar os nossos desafios traduz-se em números preocupantes de adolescentes e jovens adultos vítimas de depressões, crises de ansiedade, tentativas de suicídio. Frágeis, inseguros e dependentes de drogas de todos os tipos, tanto as ilícitas como as que se vendem nos supermercados e nas farmácias.

Temo que o vanguardista perfil dos alunos e todo o modelo de escola que se tenta construir a partir dele estejam a desvalorizar esta realidade preocupante. Como a pandemia e o confinamento demonstraram, aprender a lidar com a adversidade e o imprevisto pode não ser um tema curricular apelativo. Mas a sua necessidade tornou-se, no tempo que vivemos, clara e evidente.

11 thoughts on “Educação para a adversidade

  1. Caro A. Duarte
    Excelente análise do funesto caminho que a Educação está a trilhar em Portugal.
    De forma um pouco atabalhoada, permito-me respigar umas frases da excelente reflexão, as quais traduzem de forma cristalina ” o estado a que isto chegou” :

    ” (…) visão da Educação centrada no lúdico, no fácil, (…) na ilusão de que tudo se pode aprender sem esforço (…) removendo tudo o que possa representar obstáculo na senda do conhecimento”

    O conhecimento “clássico”, veiculado pelas disciplinas curriculares , passa para um segundo plano. Em seu lugar aparecem umas “competências “, uns “valores” e umas “cidadanias”, que não se sabe exactamente o “quéquisso” significa e muito menos como se ensinam e… como são avaliadas.

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  2. No que respeita aos “valores” e à “cidadania” da rapaziada, quem está em muito boa posição para avaliar a coisa é a P.S.P. e a G.N.R.

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  3. A crítica a muitos aspectos do ensino à distância desde que foi necessário o encerramento das escolas não me diz nada.Impossível ter-se feito melhor e, no entanto, os professores mobilizaram-se de modo a manter o máximo de alunos “conectados”. Mais do que aprendizagens programáticas, creio que houve a consciência de se saber como os alunos se estavam a sentir em termos psicológicos e emocionais.

    Parece-me óbvio que em breve muitas questões logísticas terão de ser resolvidas. E este é o tempo para o fazer. E é também o tempo para se repensarem questões que vieram à superfície- exames, ingresso no ensino superior, percursos alternativos diversos e ingresso no meio laboral (este último dependente de variáveis que agora vou deixar de lado).

    Quanto à divisão a régua e esquadro entre os “conhecimentos clássicos” e umas “competências “, uns “valores” e umas “cidadanias”, “umas coisas lúdicas e fáceis”, como refere a maria, já dei para esse campeonato, ou seja, quem percebeu, percebeu; quem não percebeu, não percebeu. Nunca pensei usar tantas vezes nos últimos tempos a expressão “bom senso”de que não gostava especialmente. Aprendi a usá-la cada vez mais.

    Escreve o Paulo Guinote: “Porque não chega ser-se flexível, crítico ou reflexivo, se isso é envolvido por uma retórica que dá a entender que tudo será um caminho para a felicidade e o bem-estar.”
    Quem está mal pago, em lay-off, desempregado ou doente, realidades vividas e testemunhadas pelos nossos alunos sabe bem o que é a adversidade e que o “caminho da felicidade” é uma “treta”. Têm a seu favor a idade, a energia e melhores ferramentas para mudar, agir e rumar noutro caminho e não estou a referir-me ao caminho da “felicidade” que não existe. E a adversidade, que existe, essa sim, poderá ser lidada.
    A nossa geração e agora a geraçaõ dos nossos alunos tem vindo a aprender precisamente o contrário da “facilidade” – nada é adquirido, não há um “caminho para a fecilidade e o bem-estar” E o aprender-se a ser “flexível, crítico e reflexivo” dá-nos a realidade da “adversidade” e dá-nos as ferramentas para a contrariar.
    Os últimos tempos são de movimentações sociais e cívicas nesse sentido.E os mais jovens têm marcado presença.

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  4. Muita boa reflexão do Paulo Guinote com o acrescento do António Duarte.
    E sobre o E@D sou do entender que o Paulo Guinote tem toda a razão. Eu vejo a coisa bem pior.
    Parabéns aos dois.

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    • O E@D foi uma resposta de emergência, e vendo desta forma têm de se desculpar alguns erros e excessos de voluntarismo. E compreender o atacar em várias frentes – aulas na TV, sessões síncronas e assíncronas, uso de diversas plataformas – que tanto baralhou alguns alunos.

      Agora onde não terei a mesma tolerância, e aí julgo que partilho a opinião do Paulo e a sua, é quando se tenta instrumentalizar esta resposta de emergência para tentar impor, como “novo normal”, um modelo de ensino alienante e low-cost, assente na tecnologia e numa falsa modernidade.

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