“Fiz muitos trabalhos, mas não aprendi nada!”

MadeupSaltyGarpike-small.gifDepois de ter ouvido, um por um, os mais de 150 alunos a quem dei aulas, primeiro presenciais, depois remotamente, foi esta confissão sincera e espontânea, de um dos menos dotados para os estudos, que mais me impressionou.

Qualquer reflexão sobre a aprendizagem não presencial deve ter presente esta realidade insofismável: somos seres sociais e, de um modo geral, aprendemos mais e melhor quando estamos com outras pessoas: os pais, os professores, os colegas de escola ou profissão, os amigos. Um sistema educativo confinado à casa de cada um e às limitadas interacções que as tecnologias nos possibilitam pode admitir-se como alternativa de recurso. Mas será sempre uma solução empobrecedora, até para os alunos mais motivados, autónomos e organizados. Para os restantes, os que executam sem aprender e os que simplesmente desligam, resulta ainda pior. Fomentando, como já muitas vezes se disse, a desigualdade no acesso à Educação.

Há outra ideia, subjacente à afirmação que titula este post, que convém salientar: na impossibilidade de ensinar, ou de mobilizar ferramentas eficazes de aprendizagem adequadas aos seus alunos, muitos professores optaram por mandar fazer “trabalhos”. E em vez das pomposas designações que se foram inventando, como o Plano de Trabalho, o E@D ou o #EstudoEmCasa, quantos alunos nossos não chamaram à realização das tarefas solicitadas, simplesmente, fazer o trabalho de casa? Quantos milhares de emails não terão recebido os professores, nas últimas semanas, dizendo algo do género: “Stor, envio o TPC”?…

Contrariando o mito construtivista, atrever-me-ia a dizer que, em boa verdade, não é a “fazer trabalhos” que se aprende. Eles podem servir para consolidar e aplicar conhecimentos previamente adquiridos e desenvolver diversas competências. Mas se as aprendizagens de base não forem feitas, o “trabalho” torna-se uma tarefa puramente mecânica. Que com a orientação do professor ou a ajuda de outros adultos, até pode sair bem feita. Mas será que de facto se aprendeu alguma coisa? Com o brutal investimento de tempo e energias despendido no ensino remoto, e o seu incorrigível optimismo, muitos professores gostam de acreditar que sim. Mas são os próprios alunos que, tantas vezes, nos fazem cair na dura realidade…

10 thoughts on ““Fiz muitos trabalhos, mas não aprendi nada!”

  1. Ainda bem que os professores são incorrigíveis optimistas; ainda bem que há alunos que dizem que o rei vai nu.
    Perverso, perversinho, perversinho, é o ministério da Educação, surdamente, continuar a agir ao jeito de querer sol na eira e chuva no nabal – mais uma vez, espremendo os professores, pouco respeitando as aprendizagens dos alunos e encostando os pais à parede: ou colaboram ou…

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  2. Há um outro relato a fazer. Porque nada é ou tudo ou nada. Refiro-me às aulas não presenciais de alunos do secundário que não resultou mal. Foi positiva a oportunidade de explorar alguns recursos
    informáticos, assim como o facto de, em princípio, o processo de ensino não
    presencial poder ter contribuído para o desenvolvimento da autonomia e da literacia
    digital dos alunos que cumpriram tarefas e seguiram todas as etapas das orientações
    dos trabalhos, utilizando vários recursos.
    Registo com agrado a alteração na comunicação com a professora – os emails bem endereçados, cada vez mais cuidados, com princípio, meio e fim e o acabar-se com o envio de fotografias das tarefas, sem nome, turma e ano e o saber-se anexar ficheiros escritos, em vídeo e áudio.
    Aprendeu-se algo que considero importante- a responsabilidade e o cumprimento de prazos.
    Todas as turmas do 10º ao 12º ano responderam numa quase esmagadora maioria ao solicitado e o solicitado teve por objectivo ser motivador e actual.
    Preferindo, obviamente, as aulas presenciais, muitos alunos referiram que lhes foi dado mais liberdade e responsabilidade na organização do seu tempo.

    Uma outra visão foi o que quis trazer ao debate.

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  3. Há um outro relato a fazer. Porque nada é ou tudo ou nada. Refiro-me às aulas não presenciais de alunos do secundário que não resultou mal. Foi positiva a oportunidade de explorar alguns recursos
    informáticos, assim como o facto de, em princípio, o processo de ensino não
    presencial poder ter contribuído para o desenvolvimento da autonomia e da literacia
    digital dos alunos que cumpriram tarefas e seguiram todas as etapas das orientações
    dos trabalhos, utilizando vários recursos.
    Registo com agrado a alteração na comunicação com a professora – os emails bem endereçados, cada vez mais cuidados, com princípio, meio e fim, o acabar-se com o envio de fotografias das tarefas, sem nome, turma e ano e o saber-se anexar ficheiros escritos, em vídeo e áudio.

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    • É inegável que, assim como há factores que potenciam o insucesso do ensino remoto, também há contextos que potenciam o seu sucesso, pelo menos em alguns aspectos específicos: com alunos mais velhos, em disciplinas onde a prática é menos relevante ou pode ser simulada ou aplicada com recurso às TIC, com níveis mais elevados de autonomia, disciplina, organização.

      Presentemente só tenho alunos de 3º ciclo, mas notei uma diferença muito significativa entre os do 7º ano, onde um número significativo andou este tempo todo perdido entre os emails, as plataformas e os zooms, e o 9º ano, onde quase todos se organizaram e consegui um cumprimento de tarefas praticamente a 100%.

      Como optimista realista, tento encontrar um ponto de equilíbrio na avaliação do que foi este ensino a distância de emergência: não substituiu satisfatoriamente a escola presencial, resultou em aprendizagens em geral mais pobres e limitadas e acentuou as desigualdades no acesso à educação.

      Mas não foi tempo perdido, como dizem alguns detractores que acham que o ano lectivo acabou em Março: houve alunos que, admitido pelos próprios e constatado por nós, melhoraram as suas competências digitais, por exemplo a escrever emails e a explorar, como ferramentas de trabalho, aparelhos a que até aqui davam um uso quase exclusivamente recreativo. Outros confessam que a escola em casa os obrigou a tornarem-se mais organizados e responsáveis, e reconhecem nisso uma mais-valia que os vai beneficiar daqui em diante. Mas estão longe de ser a maioria. Em suma, nada é a preto e branco…

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  4. Tinha enviado outro comentário, mas não entrou…

    Sobre o “não aprendi nada” tenho algo a dizer.
    Para muitos alunos, o não aprendi nada pode resultar do seguinte: não há apontamentos escritos, não há testes nem fichas de avaliação.
    E há aulas assim. Debate-se, procura-se informação e há interação. Regista-se vocabulário apropriado e usam-se termos nunca ouvidos.
    Mas alguns alunos consideram que isto não é aprender. Não fazem um esforço para participar, não sabem participar ou não têm opinião.
    E, no entanto, se fossem dinamitados com quadros cheios de informação, com powerpoints ou apontamentos, sairiam da sala a considerar que tinham aprendido muito- input/output.

    Sabemos que há várias formas de aprender. O H. Gardner introduziu a teoria das inteligências múltiplas.

    Assim sendo, há que variar e de mostar aos alunos que há muitas formas de se aprender. Ora toma lá uns apontamentos, ora participa num debate, ora fala dos conteúdos, ora sai dali para fora , para a realidade e torna a voltar. Mas não fiques à espera que tudo te caia no regaço e digas depois “São rosas, senhor!”

    (refiro-me aos alunos mais velhos)

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