Equívocos da E@D

EADO ensino remoto de emergência não poderia correr bem, nem em Portugal nem em parte nenhuma do mundo, por razões biológicas básicas: a atenção, a memória e a disciplina intelectual de uma criança têm limites que ninguém pode contornar. Só por distração se poderia acreditar que o ensino remoto de emergência iria “cumprir os programas”, sobretudo com as crianças mais novas.  Acresce que a autonomia para a aprendizagem da maioria das crianças portuguesas, que não é incentivada nem pelas escolas nem pelas famílias, as colocava em desvantagem para uma modalidade de aprendizagem que assenta, acima de tudo, na autonomia.

António Dias Figueiredo reflecte, no sinal Aberto, um interessante site que se auto-define como jornalismo de interesse público, sobre o que chama equívocos da educação à distância. A prosa, algo extensa, faz uma análise aprofundada das vicissitudes deste ensino de emergência aplicado remotamente. E toca em diversos pontos que outras leituras, mais superficiais, tendem a ignorar.

Por exemplo, que o online tem limitações próprias e nunca substituirá, nem na aprendizagem nem na vida, o contacto presencial. Mas foi o online que, no auge da pandemia, nos manteve ligados uns aos outros e ao mundo, a começar pelos seus mais assanhados críticos.

Na altura certa não se ouviu, a esses mesmos críticos da escola online, qualquer ideia ou sugestão de como deveria a escola reinventar-se durante o confinamento. E que, mais do que as tibiezas e hesitações do ME, foi a iniciativa dos professores, que não baixaram os braços, a dar corpo a um ensino de emergência que, se não deu para “cumprir os programas”, manteve um importante elo de ligação entre os alunos e a escola e permitiu prosseguir, com as inevitáveis limitações, algumas aprendizagens.

O autor revela-se consciente das limitações do ensino remoto: é adequado essencialmente para jovens e adultos com elevados níveis de disciplina e autonomia, não se adapta a aprendizagens práticas e experimentais, exige uma sofisticação tecnológica que requer tempo de preparação e recursos humanos e financeiros que não estão ao alcance de todas as instituições. Mostra-se no entanto adepto do chamado b-learning: um ensino presencial complementado por uma componente online.

A argumentação é pertinente: queiramos ou não, estamos imersos no mundo digital. É recorrendo aos smartphones e aos computadores que tratamos de uma quantidade crescente de assuntos do nosso dia a dia, que contactamos com outras pessoas, que sabemos o que se passa no país e no mundo. Tanto os destinatários como os emissores da informação que circula através dos nossos aparelhos estão necessariamente distantes de nós. Ora se a distância já integra as nossas vidas, a escola, tal como a universidade, devam desenvolver formas de se prolongar, também, nessa distância.

Tendendo a concordar com o autor e com a perspectiva de um online com conta, peso e medida, deixo ainda assim uma ressalva: é que esta é uma porta, que pode abrir passagem a interesses poderosos e tentações perigosas. E não são apenas os vendedores de hardware e software que se perfilam para os prometedores negócios da educação do século XXI, oferecendo as suas soluções chave-na-mão para aprendizagens automáticas à distância de um clique. Para políticos que vêem a educação como despesa, há enormes poupanças que podem ser feitas mantendo os alunos mais tempo em casa, em vez de virem para a escola consumir os seus parcos recursos. E recorrendo aos computadores para substituir professores…

8 thoughts on “Equívocos da E@D

  1. “Mas foi o online que, no auge da pandemia, nos manteve ligados uns aos outros e ao mundo…”
    “É recorrendo aos smartphones e aos computadores que tratamos de uma quantidade crescente de assuntos do nosso dia a dia, que contactamos com outras pessoas, que sabemos o que se passa no país e no mundo.”

    Qual a razão que o António Duarte encontra para argumentar sobre o E@D (assuntos estritamente de natureza pedagógica e que dizem respeito à escola, concretamente ao processo ensino e aprendizagem) com os benefícios que o online nos traz noutras dimensões da vida (possibilidade de nos mantermos ligados ou de resolvermos assuntos do dia a dia)?

    No âmbito escolar, os benefícios do uso das ferramentas digitais são muitas. Administrativamente, é formidável. Pedagogicamente, somente se for integrado no ensino de relação e com muita moderação, mediante a faixa etária, os conteúdos a aprender,…

    Agradeço ao António Duarte a partilha. Aquele texto iria passar sem que eu desse por ele.

    Gostar

    • Esse é talvez o ponto mais frágil da argumentação do autor que citei. Acho que a introdução das tecnologias na educação é possível e desejável com conta, peso e medida, como afirmei. Mas nunca me seduziram aquelas ideias que defendem que temos de rumar ao digital porque a sociedade o faz, usar os telemóveis porque os alunos não os largam e por aí adiante. Isso é sobretudo correr atrás do prejuízo.

      As ferramentas tecnológicas devem, na minha opinião, ser introduzidas com base em fundamentos pedagógicos. ou seja, porque permitem enriquecer ou tornar mais eficazes os processos de aprendizagem. Não porque é moda, porque outros também têm, ou porque há umas empresas amigas interessadas nos negócios da educação.

      Gostar

  2. Um dos meus filhos pertencia aos NEE.

    Querem que reflita sobre o sucesso do ensino que teve desde março de 2020? Quantas páginas me deixam escrever?

    Podemos refletir, também, sobre o que conseguimos junto dos nossos alunos? Por mais que me tenha esforçado, os meus alunos do 8.º ano, por exemplo, aprenderam muito pouco com o ensino À distância. O resto é conversa para enganar papalvos.

    Gostar

    • Acredito perfeitamente.

      Dos meus alunos com NEE, ainda hoje um me confessou que, apesar de ter feito os trabalhos todos, não aprendeu nada.
      Outros simplesmente desapareceram do radar, ou ligam-se apenas nas aulas síncronas e de resto não fazem nada porque não conseguem ser minimamente autónomos.
      Os mais afortunados têm pais, irmãos, avós ou explicadores que fazem por eles (ou, se quisermos ser benevolentes, que os ensinam a fazer).

      Desde que com as devidas condições de segurança, não me repugnaria nada se se tivesse equacionado, como se fez noutros países, o regresso prioritário às escolas dos alunos que visivelmente não estavam a aprender nada em casa.

      Gostar

  3. Lamento dizer mas não há outra solução em caso de confinamento forçado.
    Goste-se ou não é o que há…

    A única coisa que se pode melhorar, é arranjar uma forma de avaliar o aluno de uma forma seria e fidedigna. Apresentando uma solução para isso tudo fica mais claro e justo.

    De resto nada a fazer. Não há outras soluções nestes casos pandemicos. Lamento…

    Gostar

    • A questão de se gostar ou não para aqui não é chamada. Fez-se aquilo que se poderia fazer.
      A questão prende-se com o assumir das coisas tal como elas são. Ouvir intervenientes com responsabilidades na área da educação dizer mentiras sobre as potencialidades do E@D, essa é a questão. A exemplo, o DL 14-G veiculou ignorâncias intoleráveis que o servilismo fez questão de amplificar, com capacidade para evoluir mesmo fora desta crise de pandemia. A questão é: não sejamos parvos.

      Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.