Liguem as câmaras, sff!

zoom-videoNas sessões síncronas uma maioria bastante significativa dos meus alunos não têm disponibilizado a sua imagem com base no direito à sua imagem. O professor tem à sua frente um ecrã com mosaicos escuros. Esta situação tem de ser resolvida para se poder utilizar o ensino à distância, pois como as coisas estão não sabemos se os alunos estão presentes nas aulas à distância. Para contornar este problema comecei por solicitar a sua participação com voz, o que só resultava marginalmente, depois em vez de fazer a chamada no início, comecei a fazê-la no meio ou mais perto do términos da sessão. Mas tudo isto é contornar o problema principal que a seguir se explana.

Os alunos têm de frequentar a escola obrigatoriamente até aos 18 anos, no ensino presencial há a recolha de faltas e também o controlo da postura do aluno na sala de aula. Não se percebe porque não haja também um controlo visual do aluno durante o E&D. Portanto, o normal seria o aluno disponibilizar a sua imagem e estar apresentável para participar na mesma, tal como se viesse para a escola, pois a aula à distância substitui a aula presencial, estão porque permitimos que o aluno ainda esteja na cama, como alguns me confessaram, para não mostrarem a imagem? Além de que não sabemos se o aluno está a prestar atenção ou se está ao telemóvel. Assim, para o ensino à distância continuar e eu espero que seja somente como supletivo do ensino presencial, tem que se legislar para que o aluno que esteja presente nas aulas síncronas, mostre a sua imagem e tenha postura adequada. Entre o direito à imagem e a obrigatoriedade de frequentar a escola, mesmo no E&D, com controlo dos alunos pelo professor, acho que deve prevalecer a segunda, já que a educação é um bem coletivo e o direito à imagem é individual.

Concordo com Rui Ferreira. O direito à imagem – ou à privacidade, como também já ouvi invocar – não podem continuar a ser usados como desculpa para obrigar os professores a fazerem sessões síncronas perante uma plateia de rectângulos pretos, que surgem no seu ecrã em vez dos rostos dos alunos.

Na situação de ensino remoto de emergência que todos assumimos como uma necessidade ditada pelas circunstâncias, e perante o objectivo maior de não perder os alunos, a maioria dos professores foi transigindo com a atitude de um número crescente de discentes que desligam a câmara – ou nem a chegam a ligar – durante as aulas à distância. Mas quando se vai impondo a ideia de que o ensino remoto veio, pelo menos nos tempos mais próximos, para ficar, então há um conjunto de regras que, para bem de todos, deveriam ficar claras para alunos e professores. É que não se pode exigir a estes últimos que dêem a cara e se exponham, num meio em que nem todos estão completamente à-vontade, enquanto do outro lado o estar à vontade se confunde com o estar à vontadinha…

Vamos ser claros. Nenhum professor está interessado em esquadrinhar o ambiente doméstico dos seus alunos. Nem em apanhá-los em posturas impróprias para assistir a uma aula, ainda que dada em ambiente virtual. Pelo contrário: as câmaras ligadas servem precisamente, antes de mais, para induzir atitudes e comportamentos correctos: ninguém vai para a escola de pijama, não se assiste a uma aula deitado, não nos levantamos a meio para ir dar uma volta enquanto o professor expõe a matéria, faz uma apresentação ou dialoga com a turma.

Se cada aluno der de si próprio a imagem que dele se espera, idêntica à que assumiria se estivesse numa aula presencial, então creio que não há nenhum “direito à imagem” que esteja a ser posto em causa. E mesmo o risco de “devassa” da residência familiar é um falso problema. Basta posicionar o local de estudo e o computador de forma a que o aluno tenha atrás de si uma parede lisa, sem que sejam visíveis móveis, decorações ou outros elementos da família.

O ME esteve bem quando legislou no sentido de alargar os deveres previstos no Estatuto do Aluno ao contexto do ensino não presencial. A obrigação de estar presente nas sessões e de realizar as tarefas propostas pelos professores mantém-se, tal como as consequências do incumprimento reiterado. Mas, pelos vistos, não foi suficiente.

Seja na escola, em casa ou noutro lugar qualquer, o acto de ensinar e aprender tem, como muito bem nota Rui Ferreira, de ser revestido de dignidade. À generalidade dos professores faltam vocação e competências para fazer de palhaços, e para entreter meninos há certamente coisas melhores do que aulas a fingir. Quando não se percebe de outra forma, torna-se necessário ir um pouco mais longe e especificar, preto no branco, as coisas óbvias que, para muitos alunos e alguns pais, parecem levantar ainda demasiadas dúvidas…

6 thoughts on “Liguem as câmaras, sff!

  1. Não concordo com o António Duarte e com o autor do texto, Rui Ferreira.
    Poderão ambos não concordar com os requisitos do direito à imagem ou da proteção de dados, é legítimo.
    Por várias razões, inclusivamente as que se prendem com a legalidade, entendo que ninguém deve ser obrigado à cedência da imagem, mesmo neste caso excecional do ensino a distância. Concordando com a premissa de que, mesmo nestas circunstâncias, a dignidade na participação da aula deve ser uma obrigação, quer para o professor, quer para os alunos, o mesmo já não poderei acompanhar quando remete para o primeiro a necessidade de obrigar e monitorizar via imagem os segundos. Até porque existem hoje muitas técnicas para iludir a imagem.
    Sobre o assunto sou muito de considerar a orientação produzida para o efeito pela CNPD, cito, “Sempre que possível, deve optar-se por tecnologias que impliquem a menor exposição possível do titular e do seu ambiente familiar (e.g., fóruns de discussão por oposição a videoconferência)” (página 8).

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  2. Concordo com o Rui Ferreira, o comentador. O E@D, nos termos em que tem vindo a ser implementado, resulta de uma imposição do ministério e, sobretudo, das direcções. Somos forçados a usar plataformas privadas – Google Classroom, Microsoft Teams, Zoom – que deixam alunos e docentes expostos a vários títulos e vulneráveis ao atropelo dos seus direitos, nomeadamente à imagem. No uso das prerrogativas que, felizmente, concedeu aos professores o meu Agrupamento, a maior parte do trabalho desenvolvido é assíncrono; as aulas síncronas — que têm uma dinâmica distinta da das aulas presenciais, destinando-se, em exclusivo, a apresentações orais por parte dos discentes e ao esclarecimento de dúvidas — são feitas na modalidade de audioconferência, pelo que todas as câmaras, a começar pela minha, estão desligadas. Para além das questões de imagem em sentido estrito, é preciso ter em conta, antes de pedir que se liguem as câmaras, que os alunos, em casa, não estão num ambiente despido de estímulos como na escola: há barulhos da família, dos irmãos que estão também a realizar sessões síncronas; o espaço em que se encontram nem sempre é o mais adequado, mas tão só o possível; acresce que nem todos têm Internet ilimitada, e as videoconferências representam tráfego acrescido. Honestamente, desde que não haja perturbações, estou-me nas tintas a respeito do grau de concentração dos alunos: eu faço o meu melhor no sentido de proporcionar a quem está interessado as melhores condições de aprendizagem: não confundo ser professor com ser polícia (de resto, de que me vale olhar para as fronhas dos miúdos, se eles podem estar com o ar mais compenetrado do mundo enquanto navegam pelo Facebook?). Nada do que estamos a viver na educação faz sentido. Haja essa consciência.

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  3. No plano dos princípios, tendo a concordar com as objecções fundamentadas que me apresentam.

    Contudo, creio que neste gigantesco remendo que é o pomposamente chamado E@D os elevados princípios, como é o caso do direito à imagem, andam a ser invocados por muita gente de forma oportunista. E é isso, acima de tudo, que me desagrada. De pessoal que se está nas tintas para a sua “imagem”, ou nem sabe bem o que isso é, mas que descobriu aí um pretexto para poder, ligando-se a uma sessão síncrona com a turma e indo depois fazer o que lhe apetece, dizer que participou.

    Há outra questão que tem a ver com as idades dos alunos. Será diferente dar aulas síncronas a alunos do 1º ciclo ou a estudantes do secundário, sendo que para os mais novos o contacto visual será, parece-me, mais importante. Depois, entra aqui a eterna questão: como professor, devo limitar-me a dar a minha aula, e quem quiser aprender, que aprenda, ou é minha obrigação ir interpelando os distraídos, ir reparando nos rostos e nas expressões, interagindo directamente com este ou aquele aluno? Também é evidente que, se assumirmos que nada disto é possível fazer no ensino não presencial, então parte do problema fica resolvido.

    Claro que quanto mais se reflecte sobre o assunto, mais se chega à conclusão de que, como diz RF, nada do que estamos a viver faz sentido. E tentar introduzir lógica e racionalidade em algo que é irracional e disfuncional é tarefa muito complicada. Talvez o consenso possível passe por aqui: assumas-se de uma vez por todas que, exceptuando contextos muito específicos de aprendizagem, o E@D como panaceia pedagógica universal não funciona. E se é para desligar as câmaras, então que estejam todos, democraticamente e professores incluídos, de câmara desligada.

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    • Caro António Duarte, nada tem que ver com “… como professor, devo limitar-me a dar a minha aula. e quem quiser aprender, que aprenda,…”, mas mesmo nada, a minha folha de serviço fala por mim em relatório e não em projeto Foi uma aberração aquilo que aconteceu, num dia assume-se a legalidade com a proteção dos dados e no outro isso já não interessa, num dia assume-se a equidade no acesso à educação e no outro isso já não interessa, num dia assume-se que são necessárias condições para alunos e professores levarem por diante o processo ensino e aprendizagem e no outro isso já não interessa, num dia é imposta a flexibilidade pela especialista de Alcanena e no outro dia a mesma especialista empurra os seus professores para as metodologias expositivas no #EstudoEmCasa, num dia o ME diz que o E@D consegue inferir nas aprendizagens e no outro chama os alunos às escolas para se prepararem para os exames,…
      Não tenha o António Duarte dúvida nenhuma que o problema reside no facto de se assumir, de uma vez por todas, as insuficiências. Houve mesmo quem (cães de fila) verificasse mais vantagens no E@D relativamente ao ensino presencial.

      A imagem vem da escola real (sugiro a leitura do texto a cinzento):
      https://correntes.blogs.sapo.pt/saude-ensino-e-avaliacao-escolar-em-3045802

      Cumprimentos.

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      • Que o ME anda às aranhas, sem uma política coerente, nisso estamos de acordo. Já era visível antes da pandemia e a nova situação apenas deu maior visibilidade ao oportunismo, à incoerência e à irresponsabilidade.

        Querem flexibilidade mas nada de beliscar os exames por causa do acesso ao ensino superior. Querem sucesso, mas se acharem que há sucesso a mais mandam a inspecção. Querem autonomia das escolas, mas continuam a controlar tudo o que as escolas queiram fazer de novo ou de diferente. Não sabem como se faz inovação pedagógica, mas arrogam-se o direito de exigir que as mudanças propostas pelas escolas rumem todas no mesmo sentido.

        Claro que tudo isto se alimenta também de muito seguidismo e subserviência da parte dos directores e, infelizmente, de muitos colegas…

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