Automatizar a escola

Captura de ecrã 2020-06-13, às 23.42.08A pandemia fez menos pela substituição de professores por máquinas do que inicialmente se julgava. Apesar de apressadas declarações que pareciam incluídas numa corrida entre países para ver quem se antecipava no sucesso do ensino por internet, a realidade impôs-se: ainda estamos no tempo do ensino presencial com humanos como professores. Mas os pedagogos humanistas não se devem iludir: quem constrói os orçamentos dos estados não cederá na redução dos alunos por turma nem na valorização da carreira dos numerosos professores. A educação, também porque não tem resultados imediatos, é um investimento que os contraria; a dor de cabeça nesse domínio é a crescente e irreversível falta de professores. E é também nesse sentido que a atracção pelas máquinas pode ser uma fatalidade que não ouvirá quem sabe que a aula é presencial e uma simbiose do conhecimento com as emoções.

Dito isto, interrogamo-nos: os professores vão ser substituídos por máquinas? E quando? É imprevisível num tempo veloz, incerto e de fenómenos invisíveis. E não confundamos os efeitos, e as dimensões, das políticas: os 400 milhões de euros que Portugal vai receber para o digital na educação destinam-se a assegurar o que existe e a contemplar com um computador os mais pobres; é um digital que consumirá produtos das indústrias europeias de computadores e de serviços digitais. 

Nas voltas que vou dando pela blogosfera docente, nem sempre com a exacta regularidade que desejaria, é sempre com gosto que leio as prosas inspiradas e reflexivas do Paulo Prudêncio. O blogue Correntes é, tanto quanto sei, o mais antigo blogue sobre educação em actividade regular. E a ser diariamente alimentado com reflexões que, sendo actuais e oportunas, procuram ir além da espuma dos dias, convidando-nos a pensar sobre o presente e o futuro da Educação.

Aqui, Paulo Prudêncio escreve sobre uma tendência e um propósito que já pairavam por aí, aos quais a pandemia veio dar súbito fôlego e sentido de oportunidade: o de substituir professores de carne e osso por máquinas de aprendizagem automática. E o conhecimento, a inteligência e a sensibilidade humanas por sensores e algoritmos, capazes de monitorizar os alunos e de ajustar o processo cognitivo às suas necessidades.

Claro que é uma eficácia meramente economicista que dita esta opção por um ensino que se pretende destinar às massas, mas que as elites nunca quererão para os seus filhos. Professores levam tempo a formar e ficam caros, nem tanto pelo que individualmente recebem, mas por serem a categoria mais numerosa de trabalhadores intelectuais. E como se isso não bastasse, tendem a adquirir algo que, nos tempos que correm, é cada vez mais visto como um defeito: insistem em pensar pela sua cabeça. E, pior ainda, tentam transmitir esse detestável hábito aos seus alunos…

Não é preciso imaginar um futuro muito distante para antever uma sociedade em que os computadores e os robôs, comandados pela inteligência artificial, farão quase todo o trabalho produtivo, além de substituírem os humanos em muitas profissões hoje tidas como altamente qualificadas. Neste mundo em que não haverá trabalho – pelo menos trabalho socialmente produtivo – para a maior parte da população, uma educação à antiga será vista como um desperdício. Em vez disso, uma escolarização barata e massificada, baseada nas máquinas e nos algoritmos, cumprirá as necessidades.

Ainda assim, creio que a escola com professores, espaços e actividades diversificadas, aprendizagens complexas e enriquecedoras,  nunca desaparecerá. Mas poderá voltar a ser, como nos primórdios da educação, reservada às elites. Os outros ficarão entregues às escolas digitais, ocupados num infinito scroll, deslizando os dedos num ecrã enquanto vêem a vida, em alta resolução, a passar a sua frente. Ao mesmo tempo que abanam o capacete… da realidade virtual!

3 thoughts on “Automatizar a escola

  1. Os próximos anos serão sobreaquecidos mas interessantes. Como alguém disse, a quarta indústria pode ser muito boa ou caótica.

    Abraço.

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    • Sim, isto vai ser assunto para os próximos anos. No que se refere a inteligência artificial, às suas potencialidades e ao uso que será feito dela, a procissão ainda vai no adro.

      Cá estaremos para ver e participar…

      Abraço

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