400 milhões para a Escola Digital

O Governo vai lançar um programa para assegurar a universalização do acesso e utilização de recursos educativos digitais, um investimento no valor de 400 milhões de euros, anunciou o primeiro-ministro, esta quinta-feira.

“Esta crise demonstrou bem como é essencial combater as desigualdades, designadamente aquelas do ensino à distância”, afirmou António Costa em conferência de imprensa, no final da reunião do Conselho de Ministros, sublinhando a necessidade de assegurar o acesso ao ensino digital em suporte digital.

O programa que foi hoje aprovado pelo Conselho de Ministros faz parte do Programa de Estabilização Económica e Social, que vai enquadrar o futuro Orçamento Suplementar.

No documento oficial onde o Governo explica como vão ser gastos os 400 milhões de euros na digitalização da educação, a prosa é lacónica e pouco inspiradora…

escoladigital

Posso estar enganado, mas costuma dizer-se que, em política, o que parece, é. E o que aqui se não parece nada um programa educativo estruturado, reflectido e coerente. É mais com um lançar de dinheiro em cima de reais ou supostos problemas, de forma a beneficiar determinados interesses, sem nada de substancial resolver naquilo que são as verdadeiras carências, fragilidades e bloqueios do sistema educativo.

Para começar, é difícil não ver no nome que escolheram para a coisa uma involuntária declaração de interesses. A expressão Escola Digital aglutina as designações comerciais das duas plataformas de aprendizagem online que disputam o mercado português, o duopólio formado pela Escola Virtual e a Aula Digital, respectivamente da Porto Editora e do Grupo Leya. Vendedores óbvios das “licenças de software” a serem pagas pelo contribuinte.

Quanto à “capacitação digital” dos docentes, é caso para perguntar: há quantas décadas se anda a fazer formação na área das TIC para professores? Será por falta de “capacitação” que não somos todos, ainda, génios da educação digital? Não andaremos a esquecer-nos de uma coisa básica, que é o objecto do trabalho docente serem os alunos e não as tecnologias educativas? A verdade é que, para a grande maioria dos docentes, é impossível conciliar as elevadas cargas de trabalho lectivo e as correspondentes exigências ao nível da burocracia escolar com o tempo que é necessário para conhecer diferentes programas e plataformas de aprendizagem, produzir materiais e usá-los com os alunos.

Não é por acaso que nestes quase três meses que levamos de confinamento se deram passos de gigante no domínio das tecnologias educativas. É que todo o quotidiano docente ganhou uma configuração radicalmente nova, levando cada professor a potenciar o uso das ferramentas digitais que já antes utilizava ou, em muitos casos, a partir à descoberta de novos instrumentos, adequados aos novos contextos de aprendizagem. Mas não se pense que, no futuro, os professores continuarão com a mesma disponibilidade física e mental para, depois de um dia de escola presencial retomarem, pela noite dentro, a escola virtual.

Por último, o que dizer da ambição de António Costa, que quer combater a desigualdade no acesso à educação dando aos alunos carenciados computadores e acessos à internet? Diz-se em poucas palavras: este período de confinamento e de ensino a distância deu para perceber várias coisas, entre elas que a realidade educativa não é – nunca foi – a preto e branco. Tivemos alunos sem acesso a computador e internet que, assim que estes lhes foram disponibilizados, se puseram em contacto com a escola e os professores, cumprindo com afinco as tarefas escolares. E outros que, dispondo de todos os recursos necessários, nunca assumiram os seus compromissos. Há ainda aqueles que, embora tendo os meios para trabalhar, não se conseguem orientar sem a presença ou o apoio de proximidade dos professores.

Em suma, se é verdade que sem conexão à escola, aos professores e aos colegas não se aprende, é igualmente certo que a tecnologia não garante só por si o acesso à educação, muito menos em condições de equidade. A desigualdade e a exclusão no acesso à educação combatem-se na escola. Não quero com isto negar a importância dos apoios directos às famílias e aos alunos carenciados noutras vertentes, nomeadamente económicas e sociais. Mas é uma perigosa ilusão pensar que um computador em casa é remédio santo para mais e melhores aprendizagens. Ou que uma escola mais personalizada, humanista e inclusiva se constrói na base de aprendizagens automáticas e padronizadas, ministradas por máquinas de ensinar.

2 thoughts on “400 milhões para a Escola Digital

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