Quem paga a “revolução digital”?…

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Um facto insofismável: os professores portugueses têm estado a suportar integralmente, pagando-o do seu próprio bolso, este ensino de emergência que se inventou, de um dia para o outro, para enfrentar a pandemia e, alegadamente, “salvar” o ano lectivo.

(Afinal, a única coisa que se está a salvar é a sagrada instituição dos exames nacionais, servindo tudo o resto para entreter enquanto se espera que o tempo passe. Mas adiante, que esta reflexão levar-nos-ia longe, mas num sentido diferente do que projectei para este post.)

A verdade é que, apesar de o programa do governo prometer uma ambiciosa agenda digital para a educação, ainda não se viu qualquer investimento público, nem na renovação do obsoleto parque informático das nossas escolas, nem no fornecimento de equipamentos informáticos aos professores para uso profissional, como fará qualquer empresa séria que invista no teletrabalho.

Quanto aos alunos, sabemos que há um número indeterminado, mas significativo, que não dispõe de computador ou usa-o com restrições, por ser partilhado com familiares. Que fora dos centros urbanos há muitos lugares, por esse país fora, onde a internet funciona aos soluços – quando funciona.

O que fez o ME para suprir estas situações? Nada, limitou-se a esperar que as escolas “desenrascassem” alguns portáteis ou tablets aos alunos mais carenciados e que as câmaras e juntas de freguesia dessem uma ajuda no levantamento e satisfação das necessidades. Iniciativas claramente insuficientes e de alcance limitado, não se sabendo o que pensarão fazer em concreto para, a partir de Setembro, resolver o problema. Com uma solução global que não seja continuar apenas a tentar a tapar buracos.

Em contrapartida o ME, sem recursos para apoiar as escolas na preparação da “revolução digital” que parece empenhado em lançar, gasta dinheiro em coisas para as quais continuamos a não ver qualquer utilidade. Deixo apenas, a finalizar, dois exemplos significativos.

Os contratos com a Novabase para o Escola 360. Um software dispendioso e problemático, apesar das promessas mirabolantes, que só tem dado dores de cabeça a quem o utiliza. Uma pesquisa rápida na base de concursos públicos mostra que já foi gasto, em ano e meio, mais de um milhão de euros neste projecto. Facilitou de alguma forma o nosso trabalho online durante a pandemia?

Os 20 milhões de euros gastos em licenças digitais dos manuais escolares. Como nesta fase já todos perceberam, há poucas coisas mais inúteis do que um manual escolar que só se pode consultar online. O estudo em casa demonstrou os malefícios do excesso de horas a trabalhar frente a um ecrã. E além de visualmente mais agradável e menos cansativo, até o simples manuseamento do livro tradicional, em papel, é muito mais prático. E não se confunda o manual digital com as plataformas de ensino online, como a Escola Virtual ou a Aula Digital. Estas têm estado a ser usadas gratuitamente porque as editoras abriram temporariamente o acesso, mas isto é apenas uma opção de marketing para angariar clientes. Logo voltarão à sua configuração lucrativa, que é o fim para que foram criadas.

2 thoughts on “Quem paga a “revolução digital”?…

  1. Já não é de agora, mas aos poucos tudo parece tender para que os problemas estruturais se resolvam à base do voluntariado, “desenrascanso”, iniciativas, peditórios. Não se verifica somente na Educação, mas a escola está imersa nisto. A atividade de um docente, letiva e, em larga escala, não letiva, é realizada com uma gestão que vai muito para além do seu trabalho.
    Outro exemplo paradigmático verifica-se naquilo em que se transformou a formação contínua de professores, colocando os professores a fazer aquilo que deveria ser a tutela a fazer. Este estado de coisas é propício ao nepotismo e servilismo. Camuflando os seus próprios interesses e apregoando sempre o “amor” incondicional aos alunos, à partilha e à colaboração, esta estirpe de professores vai ganhando os pontos de que precisam para que outras portas se lhes abram.
    Estou em crer que este é um dos fenómenos que levam os governantes a agir desta forma. Como dizia o nosso colega Luís Costa, “à tutela basta dar o mote”.

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