A pretensa revolução do ensino online

computer[1]Parece um dado adquirido que o recurso ao ensino a distância – E@D – irá continuar, ainda que de forma mais mitigada, no futuro próximo. As normas de distanciamento físico obrigarão a constituir grupos mais pequenos nas salas de aula, a condicionar a utilização dos espaços escolares e até a ressuscitar o regime de turnos que vinha paulatinamente desaparecendo das escolas portuguesas. Não havendo lugar para todos ao mesmo tempo, uma parte do ensino poderá ter de continuar a ser feita em casa.

Mas estaremos no limiar de uma revolução educativa, que a pandemia veio despoletar? Não me parece. Ao fim de dois meses de E@D, e mesmo tendo em conta o carácter emergencial desta solução, parece-me que vislumbram já, com alguma nitidez, tanto as vantagens como as limitações de estudar e trabalhar em casa. E há uma constatação óbvia: se as vantagens se resumem a aspectos geralmente muito particulares e específicos, as desvantagens tendem a ser mais transversais. E agravam-se nos alunos mais novos, nos que têm menos autonomia ou famílias menos presentes. A verdade é que o distanciamento enfraquece, quando não anula por completo, a relação pedagógica. Como todos os professores no terreno terão já notado, aumenta acentuadamente as desigualdades e a exclusão no acesso à educação.

E, no entanto, o digital é tentador: satisfaz ambiciosas agendas políticas e eleitorais. Fornece engenhosos pretextos para ir ao pote dos financiamentos europeus. E alimenta chorudos negócios em torno de tecnologias educativas e softwares de aprendizagem automática. Pelo que não deixa de ser curioso que, entre vários políticos, ex-políticos, consultores e académicos ouvidos pelo Expresso sobre o futuro da E@D, a visão mais lúcida provenha de um professor do Técnico:

Arlindo Oliveira, professor do Instituto Superior Técnico e diretor do INESC, rejeita mudanças estruturais no sistema de ensino provocadas pela pandemia: “Não vai ser uma revolução fundamental. O contacto é muito importante no ensino. Daqui a quatro anos, quando olharmos para trás, vamos ver isto de forma diferente”, acredita, embora considere que a pandemia “acelerou as competências tecnológicas”, facilitou o ensino à distância, mas não vai mudar um negócio que se mantém “há 500 anos: continua a basear-se num professor em frente a dezenas de alunos”.

4 thoughts on “A pretensa revolução do ensino online

  1. Apliquei um questionário sobre o E@D nas minhas turmas do secundário para tentar perceber o que ia nas cabeças desta minha boa gente. Responderam com seriedade e muito serenamente. A diferença de entendimento foi residual. A regra encontra-se refletida nesta resposta, cito, “Quando estamos na escola temos mais facilidade em compreender as coisas e estamos em convivência com os professores e colegas e estamos em harmonia, mas no ensino a distância há muitas dúvidas porque a matéria não é dada da mesma forma e torna-se muito mais complicado entender a matéria e prestar atenção”.

    Gostar

  2. Eu parece-me que o factor humano presencial é indispensável. Aprender a conviver é uma das grandes mais valias da escola, para além da relação mais próxima aluno-professor. É mais fácil passar despercebido na realidade virtual, e isso não é bom para algumas crianças, nomeadamente as de risco.

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.