Revolução no ensino?

rev-ensino.jpgEm paralelo com o sucesso da Telescola e as estatísticas que apontam para um total de 50 mil alunos sem computadores, as plataformas de ensino virtuais multiplicaram, num único mês, o número de utilizadores que demorou mais de uma década a convencer. O ensino mudou e o Governo promete oferecer computadores para que a mudança não pare. Google, Leya, Microsoft, e Porto Editora disputam um renovado e chorudo filão.

A Exame Informática chama-lhe uma revolução no ensino: a verdade é que as tecnologias educativas que a pandemia colocou em lugar de destaque já por cá andam, quase todas, há mais de uma década. Pois as estrelas do ensino a distância não são os gadgets com que se andaram por aí a equipar, em escolas seleccionadas, algumas montras tecnológicas a que chamaram “salas de aula do futuro”.

No domínio do hardware, a “revolução” está a ser feita com equipamentos que quase todos têm ou podem ter em casa, como computadores, tablets, webcams ou, à falta de melhor, um simples smartphone. Quanto ao software, o destaque vai sobretudo para as plataformas de aprendizagem online, onde se podem reunir não só recursos pedagógicos mas também as aplicações que permitem a interacção entre alunos e professores, a partilha de ficheiros, a realização e a avaliação de trabalhos dos alunos.

Não se trata, portanto, de uma revolução tecnológica. O que assume contornos que alguns tendem a considerar revolucionários é o recurso intensivo, forçado pelas actuais contingências, a ferramentas que há um ou dois meses atrás eram largamente ignoradas por muitos professores, ou usadas de forma ocasional. A grande questão é saber até que ponto estas mudanças súbitas, ditadas pela necessidade, irão efectivamente impor um novo paradigma educativo.

Presentemente, e com o Zoom a dominar claramente no campo das vídeo-aulas, assistimos à luta de titãs entre a Microsoft, que à boleia do Teams pretende promover o Office 365, e a Google, que ao seu Classroom agrega uma série de aplicações com potencialidades para o sector da Educação. A nível doméstico, o Grupo Leya com a Aula Digital e a Porto Editora através da Escola Virtual disputam também o mercado local das plataformas digitais. E vêem crescer de dia para dia a sua base de utilizadores.

Por detrás desta rivalidade comercial podem estar negócios de milhões: o sector educativo é dos poucos que o capitalismo global ainda não conseguiu abocanhar, embora vontade não lhe falte. E apesar de o futuro da educação ser ainda, em larga medida, uma incógnita, sabe-se que existem há muito tempo planos empresariais para este sector, que nem são muito difíceis de imaginar: conteúdos formatados e padronizados, que permitam uma aprendizagem fácil e tanto quanto possível automatizada. Fornecidos através de aparelhos e aplicações capazes de substituir os professores e de se adaptar ao contexto de cada aluno, personalizando – ou criando essa ilusão – o seu processo de aprendizagem.

Contudo, a imersão forçada na tecnologia educativa também pode ter o efeito contrário: evidenciar a importância decisiva dos professores nos processos de aprendizagem. O distanciamento físico e social, imposto pela força das circunstâncias, também serve para mostrar a falta que os professores fazem. E que nem os pais, nem os computadores, os conseguem cabalmente substituir…

5 thoughts on “Revolução no ensino?

  1. Estou de acordo.

    Enquanto a inteligência artificial “hollywoodesca” não estiver a carburar (e isso não vai acontecer no nosso tempo de vida), a presença física de um professor é essencial.

    Os motivos são tantos que seria fastidioso enumerá-los, mas, desde logo, o professor é o que está presente, o que pega na massa disforme e impenetrável e a transforma numa peça da mais bela olaria. Quantas e quantas vezes o aluno, depois de o professor explicar qualquer coisa (não sei se, na escola do século XXI, ainda se poderão utilizar estes termos tão ultrapassados), não exclama: “Ah, realmente agora que o setor explicou, é fácil…”.

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  2. Em qualquer dos cenários ficará a perder quem vive do trabalho. A digitalização dos manuais substituí o custo dos manuais pelo custo da licença (que seguramente aumentará), perdem os tipógrafos, ganham os designers e os assistentes editoriais… Tudo normal no ciclo de mercado, com a particularidade daquelas últimas profissões requererem formações de nível superior, mas serem remuneradas ao nível do salário mínimo.

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  3. O futuro é ainda muito incerto, mas creio que, se não for contrariada, há uma tendência que se deseja com cada vez maior clareza: para os ricos, escolas com professores de carne e osso (mas também jardins e espaços desportivos, laboratórios bibliotecas. Para os pobres, telemóveis e outros zingarelhos para experimentarem as coisas em modo virtual e programas informáticos de aprendizagem automática destinados a “desenvolver competências” úteis para a vida…

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