Invasor de aulas online foi apanhado

hacker.jpgPela notícia do Público ficamos a saber que o fenómeno das invasões de vídeo-aulas não é um exclusivo português, mas uma moda que atravessou vários países em período de confinamento social e, consequentemente, de recurso massivo às plataformas de videoconferência para fins educacionais.

Claro que com o mal dos outros podemos nós bem. Interessa-nos sobretudo o caso português e, aqui, compraz-me verificar a actuação correcta de diversos intervenientes: queixas e denúncias dos visados e de muitos cidadãos que tiveram conhecimento dos abusos, imediata retirada dos vídeos abusivos por parte do Youtube e investigação da Polícia Judiciária, que rapidamente identificou o autor.

Invadir aulas na ferramenta virtual Zoom e publicá-las no YouTube tornou-se num passatempo para jovens que entram em várias salas de aula virtuais só para ridicularizar os participantes, desligar e ligar microfones, partilhar desenhos obscenos e expulsar professores. O fenómeno repete-se um pouco por todo o mundo (em inglês, é conhecido por zoom raid ou zoombombing), com vários casos em Portugal a ocorrerem na última semana. Os moderadores do YouTube estão a tentar apagar estes vídeos — muitos exibem caras, nomes e vozes de menores.

A Fenprof já anunciou que se prepara para apresentar uma queixa à Procuradoria-Geral da República para que sejam identificados os responsáveis destes ataques virtuais. 

Contactada pelo PÚBLICO, a equipa da Google (dona do YouTube) sublinha que os vídeos destes ataques violam as regras da plataforma, ainda que não existam regras que visem explicitamente o fenómeno do zoombombing. “Nós temos regras rígidas que proíbem conteúdo que contém assédio, discurso de ódio e sexualização indesejada, e rapidamente removemos [conteúdos] quando são denunciados pelos nossos utilizadores”, explicou Alex Joseph, porta-voz do YouTube.

Professores, pais ou encarregados de educação de crianças que sejam vítimas em vídeos do género devem contactar a plataforma. “Na eventualidade de alguém sentir que teve a sua privacidade violada, podem preencher uma queixa e nós vamos rever e remover qualquer conteúdo contra as nossas regras”, acrescentou Joseph. Para fazer uma queixa relativa a um vídeo, deve carregar-se nos três pontos no canto inferior direito dos vídeos e escolher “denunciar”.

Costuma dizer-se que pela boca morre o peixe; neste caso, pela fanfarronice morre o youtuber que não resiste a publicar tudo o que, sem grande esforço, lhe renda milhares visualizações…

A unidade de combate ao cibercrime da Polícia Judiciária identificou um homem de 20 anos que invadia aulas virtuais na plataforma online Zoom, através do uso indevido de credenciais de acesso, para perturbar o seu normal funcionamento.

A identificação foi feita “em estreita articulação com o Ministério da Educação”, informa a PJ num comunicado divulgado este domingo.

A ocorrência deste ataques, “rapidamente comunicada pelo Ministério da Educação, permitiu vir a identificar e localizar o autor de tais factos, indivíduo este que não fazia parte das turmas, cujas aulas foram interrompidas, assumindo que o seu comportamento foi indevido e por isso se disponibilizou a apagar todos aqueles conteúdos que foram publicitados na Internet”, acrescenta a nota.

Contudo, parece haver um outro elemento perturbador, menos óbvio mas bastante insidioso, das aulas a distância: a presença física de pais que ainda não perceberam bem o papel que lhes cabe no contexto educativo atípico em que estamos a viver…

“Têm sido dias muito complicados, com casos de problemas que implicam a violação do direito à imagem e a utilização de gravações de professores e crianças para fins não lícitos”, partilha com o PÚBLICO Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof. “Já nos chegaram vários casos do género, tanto de professores como de encarregados de educação que não querem a imagem dos filhos exposta.”

Questionado sobre o facto de estes problemas surgirem em parte devido a aulas virtuais mal configuradas, Nogueira frisou que os professores não tiveram tempo de aprender a trabalhar com estas ferramentas. “Um professor que trabalha com dezenas de alunos, está a tentar que todos tenham acesso a um computador para trabalhar, tem os filhos em casa e está sobrecarregado de trabalho, não vai ter a capacidade de aprender a programar as configurações de todas as plataformas”, diz Mário Nogueira. “Não são só os intrusos. Também há pais que estão constantemente ao pé dos miúdos, interrompendo as aulas para falar com os professores. E há casas onde a rede da Internet não chega.”

“Não há condições para os alunos conseguirem avançar nos programas”, remata o secretário-geral da Fenprof.

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