As armadilhas do “software grátis”

pc-apps.JPGUm alegado estado de emergência educativo tem vindo a ser usado como justificação para empurrar escolas, alunos e professores, para a implementação, do dia para a noite, do ensino a distância. Mas será que a pressa justifica tudo? A falta de tempo é razão para adoptar a primeira solução informática “chave na mão” que se encontre disponível? A insuficiência de verba, nos orçamentos escolares, para aquisição de programas e serviços informáticos, deve determinar a opção por software pretensamente grátis?

Aqui, impõe-se um parêntesis para recordar duas máximas que nos devem nortear nesta matéria. A primeira é o velho princípio de que não há almoços grátis. Não quer isto dizer que não exista software livre e gratuito, mas esse não é o caso de sistemas desenvolvidos por grandes empresas, que neles fizeram fortes investimentos. Essas empresas estão no mercado para ganhar dinheiro, pelo que, quando decidem oferecer a utilização do software, isso significa que irão facturar a partir do uso que os utilizadores farão do seu programa. O que nos leva à segunda máxima a ter em conta: se não paga pela utilização do produto, você é o produto!

Na prática, isto significa que soluções como o Google Classroom, o Microsoft Teams, o Zoom e outras que têm sido avidamente experimentadas nos últimos tempos, apresentam pelo menos um dos seguintes problemas: têm grandes limitações nas suas versões gratuitas, de forma a obrigar os utilizadores, depois de familiarizados com o programa, a subscrever a versão paga; existem sobretudo para promover a utilização de outras aplicações, essas sim, pagas; ou encerram graves violações dos direitos de propriedade e privacidade dos utilizadores.

Como entendidos na matéria explicam, num longo texto que Paulo Guinote publicou (dividido em partes 1, 2, 3 e 4), estas empresas reservam-se o direito de armazenar dados dos utilizadores, rastrear as comunicações escritas, gravar as videoconferências, construir perfis de clientes a partir da informação pessoal obtida através da utilização da plataforma. Mas a violação grosseira dos direitos de privacidade e de propriedade e das regras de protecção de dados não são apenas cometidas por estas empresas. A urgência e o confinamento social estão a levar escolas e professores a inscrever os seus alunos, introduzindo os respectivos dados pessoais sem autorização dos pais, o que trazer graves implicações legais perante algum encarregado de educação mais cioso dos seus direitos. E os professores, ao contrário das googles e das microsofts desta vida, não têm poderosos departamentos jurídicos a defendê-los perante processos judiciais.

Neste quadro, se o ME pretende ter os seus professores a trabalhar, o mais rapidamente possível, numa plataforma comercial de e-learning, o que teria de fazer, em vez de mandar mais uma vez “as escolas” desenrascarem-se, seria contratar esse serviço para todas as escolas públicas, negociando as condições da sua prestação e salvaguardando todos os direitos e garantias legais. Para ontem.

Caso contrário, e ao contrário de colegas que vejo por aí no papel de promotores de soluções comerciais para o ensino online, entendo que a aposta segura continua a ser o tradicional Moodle de que a maior parte das escolas e agrupamentos já dispõem. É certo que o design da maioria das versões não é o mais apelativo e que em certas utilizações são pouco intuitivas. Mas são em geral plataformas robustas e seguras, reunindo a maioria das funcionalidades de que necessitamos para a aprendizagem remota.

5 thoughts on “As armadilhas do “software grátis”

  1. MAIS UMA VEZ…MOODLE…SAFA um texto enorme para deitar a baixo uns e colocar o moodle nos píncaros…E então o inovar…também dá…ou não…

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    • Caro Rafael, não coloco nenhum produto nos píncaros.

      Estou disposto a trabalhar em qualquer plataforma. Se durante sete ou oito anos usei o moodle, aprendendo à minha custa a funcionar com uma plataforma que está longe de ser das mais intuitivas e amigáveis, mas bem explorada dá para fazer muita coisa, não me assusta ter de mudar agora para outro programa qualquer. Desde que isso seja vantajoso, não apenas porque é mais bonito, vistoso ou está na moda.

      As questões da segurança e da privacidade são importantes, e se na nossa vida pessoal – quem não deve não teme – usamos com alguma despreocupação o gmail ou o facebook, apesar de nos apercebermos da monitorização e da traficância de dados que o software deles realiza permanentemente, na vida profissional, e sobretudo quando estão em causa interesses de terceiros, tem de haver outras cautelas.

      Resumindo, e como dizia uma velha cantiga dos tempos da Revolução…

      ..pra melhor, está bem, está bem; pra pior já basta assim…

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      • Aquilo que é dito no blog do Paulo Guinote, não se refere àquilo que o António acaba por justificar. Está a fazer confusão entre software livre e proprietário e freeware (espécie de software para experimentação durante um curto período de tempo, em que as fucionalidades podem, ou não, estar limitadas durante esse período ). Neste momento, todas as plataformas que correm software proprietário, caso do Teams, não existe, para a utilização para fins educacionais, qualquer tipo de restrição nas suas funcionalidades.

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        • No caso do Teams para a educação, julgo que o objectivo não é vender a plataforma, mas sim angariar clientes para o Office 365. Começando desde pequeninos…

          Tudo bem que as empresas visem o lucro, é a sua razão de existir numa economia capitalista. Não andemos é a iludir as pessoas, tentando convencê-las de que tudo é grátis.

          E se o Estado, que tem o dever constitucional de garantir o direito à educação, decide que a educação agora é dada através de plataformas online e computadores com internet, então deve assumir a obrigação de garantir os meios necessários aos profissionais e aos alunos.

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  2. As questões expostas são legitimas e validadas (vejam-se os algoritmos do Facebook, Google e aplicações telemóveis…).
    A videoconferência deve ser usada de forma parcimoniosa (uma vez por semana), apenas para um contacto visual com alunos, diálogo e aprendizagem de alguns conteúdos, principalmente no ensino básico.
    No ensino secundário, por causa dos exames, provavelmente um uso mais frequente da videoconferência para colmatar necessidades curriculares.
    Mas é levantada outra questão importante, convenientemente ignorada pelo OE: o recurso a aplicações gratuitas é porque não há dinheiro para as escolas pagarem software profissional ou para pagar salários de valor suficiente para os profs o comprarem…

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