Não aprenderam nada

covid-recessao.jpgAs medidas anunciadas por Costa de “ajuda às famílias e empresas” linhas de crédito, com juros, inclusivé nas moratórias de crédito à habitação para famílias, tudo com juros. Não são ajudas – são um novo resgate bancário, pago com as pensões dos portugueses. A isto junta-se a redução da TSU para as empresas, que é a parte dos empresários para a Segurança Social que deixa de ser paga ou é reduzida; e o Lay off, pago pela Segurança Social (reformas e pensões dos idosos e reformados), para mandar os trabalhadores para casa, com cortes salariais. Se Costa não tivesse anunciado este pacote de medidas, supostamente para ajudar “famílias e pequenas empresas” estas empresas, todas dependentes da Banca até para viverem 15 dias, iam entrar em incumprimento com a Banca, e a Banca ia falir. Sim, vivemos num país onde as empresas não conseguem sobreviver 15 dias sem a Banca – são na verdade empresas que só existem não porque são empreendedores, mas porque vivem dependentes da Banca. Um pequeno café de aldeia mandou os trabalhadores para casa e paga-lhes o salário completo 2 meses. A Padaria Portuguesa, com dezenas de lojas, manda-os para casa em Lay-off e pede que a nossa reforma e pensão e serviços públicos lhes pague as dívidas à Banca, delapidando a Segurança Social.

As famílias não foram ajudadas – há milhares de despedimentos, e pode-se, com esta lei de Costa, fazer lay off e continuar a despedir. As pequenas empresas também não foram ajudadas, porque estas medidas só conseguem proteger as grandes. As outras não têm condições de se endividar, estão apenas à espera do fim – é isso que esta lei permite, aguardar pelo fim. O fundo das reformas dos nossos idosos – que supostamente Costa trata bem, e o Ministro holandês mal – vai para o poço, desaparecer, e a Segurança Social falir. O esquema piramidal financeiro mantém-se, salvo. Os trabalhadores ficam na miséria, as empresas despedem com o auxílio da reforma dos idosos, e as grandes aguardam, sem fazer pagamentos, com os lucros e dividendos protegidos, acumulados, para vir ao mercado daqui a uns meses comprar as pequenas empresas falidas e oferecer aos trabalhadores metade do salário. Tudo isto com o uso das reformas também de médicos, enfermeiros, polícias, bombeiros, e professores, a quem farão elogios públicos, enquanto cortam nas reformas, porque “não há dinheiro”. Não aprenderam nada, com 2008.

Raquel Varela denuncia, certeiramente, a hipocrisia das “ajudas” que o Governo, sob a batuta da ortodoxia neoliberal e monetarista que continua a comandar as políticas europeias, se prepara para impor em Portugal.

Na verdade, se são as famílias que perdem empregos e rendimentos e as pequenas empresas que a crise deixa com a corda na garganta, faria todo o sentido apoiar directamente quem está em dificuldades. Até porque, ao saldarem as suas dívidas e comprarem o que necessitam, esse dinheiro acaba por circular por toda a economia, beneficiando também, e como sempre, as grandes empresas, os bancos e até o Estado.

Financiar directamente os grandes, delapidando os cofres públicos e os fundos da segurança social, será apenas repetir a longa e desatrosa recessão que se seguiu à crise de 2008: a estagnação de uma economia atolada em dívida, a par da fuga de capitais e do fortalecimento da especulação financeira e dos grandes grupos económicos.

Por detrás da desejada “união nacional” na guerra colectiva contra o coronavírus, subsiste o eterno conflito de interesses entre uma elite gananciosa e predatória, para quem a crise de saúde pública é apenas mais uma oportunidade de continuar a enriquecer, e a generalidade dos cidadãos, que querem preservar a sua saúde sem alienar o seu futuro. Em vez de consensos de regime legitimados por “guerras ao vírus” ou estados de emergência, precisamos, agora e sempre, de denúncia e pensamento crítico, de discussão aberta e ideias alternativas.

Hoje tenho a certeza, inabalável, que o maior mal que pode atingir uma sociedade é a ausência de contraditório, de pensamento crítico, de alternativa, podemos resistir a uma quarentena, não podemos resistir à ausência de reflexão crítica. Esta crise, sem pensamento crítico e políticas alternativas, vai reforçar a tragédia em que o país está, e não ajudar a sair dela. Era a hora de nacionalizar a banca sob controlo público e resgatar as pequenas empresas e os trabalhadores; e nas grandes empresas, usar os activos para pagar a Segurança Social e reforçá-la. Em vez disso caminhamos para mais do mesmo – qualquer manual de economia básico sabe como funcionam as linhas de crédito numa economia de PMEs como a nossa. Rio já disse que apoia Costa nesse caminho desastroso.

Podemos e devemos discordar, debater abertamente. Não podemos deixar de informar, pensar e projectar cenários realistas. É o que se espera de todos aqueles que têm presença e voz públicas. Sem contraditório não há democracia.

4 thoughts on “Não aprenderam nada

  1. O António e a Raquel têm toda a razão, mas importaria não esquecer as vantagens do Covid, pois tb as há. Vejam só: de repente, os tugas deixaram de passar a vida a discutir bola, mesmo os neoliberais mais extremistas passaram a louvar a intervenção do estado, a ditadura dos mercados recolheu~se à toca e a poluição global recuou para níveis há muito não vistos. São aspectos positivos, embora pagos por alto preço. A questão agora é saber a que “normalidade” vamos regressar, quando começarmos a regressar à “normalidade”.

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    • Concordo.

      Se calhar há formas mais interessantes de passar uma tarde de domingo do que ir arrastar os pés ou desarrumar lojas para os centros comerciais. Discussões mais interessantes do que as que se travam nos “donos da bola” ou trabalhos que, se não se fizerem, ninguém lhes sente a falta.

      Não estaria tudo perdido se estes longos dias, que uns passam fechados em casa enquanto outros se sacrificam para assegurar as necessidades essenciais, servirem para essa reflexão em torno do que é verdadeiramente importante nas nossas vidas e de como poderíamos ser mais felizes numa sociedade onde as pessoas estejam acima dos mercados. Com menos consumo supérfluo, menos lucro, menos poluição.

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  2. Uma boa análise de Raquel Varela que faz pensar e estremecer a indolência provocada pelo vírus.
    Pois que desta vez é uma crise pandémica que ataca todos, diz-se. Até os neoliberais e afins se tornam estatistas nesta altura.
    Venha a nós o Estado!
    Diz-se que a pandemia ataca todos. Pode ser verdade. Mas o que sair daqui não vai ser igual para todos.
    E, mais uma vez, vamos asistir a despedimentos (já estão aí), a corte de salários e a corte de pensões que mais uma vez não serão repostos. Pobres que vivem da caridade, classe média a empobrecer ainda mais.
    Em modo sarcástico, nada como uma pandemia “democrática” que parece ter antecipado a recessão que vinha a ser noticiada suavemente.
    Enquanto isto, lá vai mais uma fuga de capitais para paraísos fiscais . Desta vez com os donos a enfiarem-se comodamente nos seus jets privados também para paraísos onde estarão em quarentena vip.

    E é nesta altura que quero lá saber da poluição que recuou e dos folhetins de futebol. Se isto é o que temos de pagar, estamos mal.

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  3. Aprenderam, sim senhor. ‘Os mercados’ aprenderam que o povo se subjuga a tudo o que lhe for imposto, célebre naquela frase do banqueiro “ai aguenta, aguenta”. E por isso vão aplicar a mesma receita que lhes deu sucesso financeiro porque esta tugalândia não tem poder politico nem financeiro para lhes fazer um grande manguito…
    A austeridade que se avizinha (que este governo jamais a batizará dessa maneira…) será comparativamente mais dura e mais extensa do que a de 2008-2018…
    É este o fado deste país: a maioria que terá sempre de sofrer com fragilidade estrutural, enquanto a minoria passa sempre incólume pela desgraça…

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