Leituras: Byung-Chul Han – A emergência viral e o mundo de amanhã

covid19A Europa está fracassando. Os números de infectados aumentam exponencialmente. Parece que a Europa não é capaz controlar a pandemia. Na Itália, morrem diariamente centenas de pessoas. Retiram os respiradores dos pacientes idosos para socorrer os jovens. Porém, também se podem observar ações inúteis. O fechamento de fronteiras é evidentemente uma expressão desesperada de soberania. Nos sentimos de volta à época da Monarquia. O soberano é quem decide sobre o estado de exceção. É soberano aquele que fecha fronteiras. Mas isso é uma exibição vazia de soberania que não serve para nada. Seria muito mais útil cooperar intensamente dentro da zona do Euro do que fechar fronteiras a esmo. Entretanto, também a Europa decretou a proibição de entrada a estrangeiros: um ato totalmente absurdo diante do fato de que a Europa é precisamente aonde ninguém quer vir. Quando muito, seria mais sensato decretar a proibição de saída de europeus, para proteger o mundo da Europa. Afinal, a Europa neste momento é o epicentro da pandemia.

Em comparação com a Europa, que vantagens oferece o sistema da Ásia que resultem eficientes para combater a pandemia? Estados asiáticos como Japão, Coreia, China, Hong Kong, Taiwan ou Singapura têm uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural (confucionismo). As pessoas são menos relutantes e mais obedientes do que na Europa. Também confiam mais no Estado. E não só na China, mas também na Coreia ou no Japão a vida cotidiana está organizada muito mais estritamente do que na Europa. Sobretudo, para enfrentar o vírus os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Acreditam que no big data poderia encontrar-se um potencial enorme para defender-se da pandemia. Poderíamos dizer que na Ásia as epidemias não são combatidas apenas pelos virólogos e epidemiólogos, mas sobretudo também pelos informáticos e os especialistas em macrodados. Uma mudança de paradigma da qual a Europa ainda não se deu conta. Os apologetas da vigilância digital proclamariam que o big data salva vidas humanas.

A consciência crítica em relação à vigilância digital na Ásia é praticamente inexistente. Quase não se fala de proteção de dados, inclusive em Estados liberais como Japão e Coreia. Ninguém se incomoda com o frenesi das autoridades por recompilar dados. Entretanto, a China introduziu um sistema de crédito social inimaginável para os europeus, que permite uma avaliação ou uma análise exaustiva dos cidadãos. Cada cidadão deve ser avaliado de acordo com sua conduta social. Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido a observação. Se controla cada clique, cada compra, cada contato, cada atividade nas redes sociais. De quem avança com o semáforo no vermelho, de quem interage com críticos do regime ou de quem posta comentários críticos nas redes sociais: são tirados pontos. Então, a vida pode chegar a ser muito perigosa. Ao contrário, a quem compra pela internet alimentos saudáveis ou lê jornais afins com o regime, são dados pontos. Quem tem pontos suficientes obtém um visto de viagem ou créditos baratos. Ao contrário, quem cai abaixo de um determinado número de pontos poderia perder seu trabalho. Na China é possível esta vigilância social porque se produz um irrestrito intercâmbio de dados entre os provedores de Internet e de telefonia móvel e as autoridades. Praticamente não existe proteção de dados. No vocabulário dos chineses não aparece o termo “esfera privada”.

Na China há 200 milhões de câmeras de vigilância, muitas delas providas de uma técnica muito eficiente de reconhecimento facial. Captam inclusive as pintas no rosto. Não é possível escapar da câmera de vigilância. Estas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar qualquer cidadão nos espaços públicos, nas lojas, nas ruas, nas estações e nos aeroportos.

Toda a infraestrutura para a vigilância digital resultou agora ser sumamente eficaz para conter a epidemia. Quando alguém sai da estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante, todas as pessoas que estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus telefones celulares. Não à toa, o sistema sabe quem estava sentado onde no trem. As redes sociais contam que inclusive estão se usando drones para controlar as quarentenas. Se alguém rompe clandestinamente a quarentena, um drone se dirige voando a ele e lhe ordena regressar a sua casa. Talvez ainda lhe imprima uma multa e a deixe cair voando, quem sabe. Uma situação que para os europeus seria distópica, mas à qual, pelo visto, não se oferece resistência na China.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han demonstra a superior eficácia dos regimes autoritários e das democracias musculadas do Oriente, comparativamente com o demoliberalismo europeu, na contenção da pandemia do novo coronavírus. Enquanto a secular tradição de obediência e a confiança nos prodígios da tecnologia e do big data parecem apresentar resultados na luta contra o covid-19, a Europa experimenta sem grande sucesso as velhas receitas do fecho de fronteiras, das quarentenas voluntárias e do isolamento dos infectados.

Diz-se por vezes que uma pandemia desta dimensão não poderá deixar de provocar profundas transformações na economia, na sociedade, no nosso modo de viver. Há quem diga que vem pôr irremediavelmente em causa a globalização neoliberal, com os movimentos descontrolados de pessoas e mercadorias a facilitar a propagação das doenças e a divisão internacional do trabalho a privar a Europa, por exemplo, das máscaras protectoras que continuam a faltar até nos hospitais.

Mas Byung-Chul Han duvida que a pandemia possa, só por si, fazer emergir uma nova ordem mundial. Por uma razão muito simples: a História é feita pelos Homens. E os vírus não fazem revoluções…

Žižek afirma que o vírus desferiu no capitalismo um golpe mortal, e evoca um obscuro comunismo. Crê inclusive que o vírus poderia fazer cair o regime chinês. Žižek se equivoca. Nada disso acontecerá. A China poderá vender agora seu Estado policial digital como um modelo de êxito contra a pandemia. A China exibirá a superioridade de seu sistema ainda com mais orgulho. E após a pandemia, o capitalismo continuará com mais pujança ainda. E os turistas continuarão pisoteando o planeta. O vírus não pode substituir a razão. É possível que, além disso, inclusive nos chegue ao Ocidente o Estado policial digital ao estilo chinês. Como já disse Naomi Klein, a comoção é um momento propício que permite estabelecer um novo sistema de governo. Também a instauração do neoliberalismo foi precedida muitas vezes de crises que causaram comoções. Foi o que aconteceu na Coreia ou na Grécia. Oxalá que depois da comoção causada por este vírus não chegue à Europa um regime policial digital como o chinês. Se isso chegar a acontecer, como teme Giorgio Agamben, o estado de exceção passaria a ser a situação normal. Então, o vírus teria conseguido o que nem mesmo o terrorismo islâmico conseguiu totalmente.

O vírus não vencerá o capitalismo. A revolução viral não chegará a produzir-se. Nenhum vírus é capaz de fazer a revolução. O vírus nos isola e individualiza. Não gera nenhum sentimento coletivo forte. De algum modo, cada um se preocupa apenas com sua própria sobrevivência. A solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas não é uma solidaridade que permita sonhar com uma sociedade diferente, mais pacífica, mais justa. Não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus. Confiemos que atrás do vírus venha uma revolução humana. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que temos que repensar e restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e também nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para salvar-nos a nós mesmos, para salvar o clima e nosso belo planeta.

2 thoughts on “Leituras: Byung-Chul Han – A emergência viral e o mundo de amanhã

  1. Bom dia, António.

    Por aqui, neva intensamente.

    Segundo, qual a verdade por trás dos números chineses?

    Terceiro, qual a relevância da peste negra no colapsar do sistema feudal?

    PS. Já disse que neva fortemente?

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    • Por cá não costuma nevar, mas faz frio.

      Ao contrário do pessoal que vejo por aí a compilar números, a construir gráficos e a antecipar curvas, a análise dos números é um exercício que não me tem seduzido.
      Sei que é muito fácil, fazendo menos testes, ter menos confirmações de infecções.
      E se registarem os mortos como vítimas de pneumonia ou de outras doenças respiratórias também conseguem baixar a taxa de letalidade.

      Mas isto não é só na China, também se faz por cá…

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