O que fazer no terceiro período?

mochila.PNGNas vésperas do segundo momento de avaliação, com alunos e professores em recolhimento nas suas casas, o terceiro período continua a ser uma grande incógnita. Com as salas de aula fechadas, haverá condições, materiais e anímicas, para enveredar pela massificação do ensino online?

Confesso alguma perplexidade que senti quando, na ronda habitual pela blogosfera docente, me deparei com a afirmação ousada do Paulo Prudêncio, um dos observadores e comentadores mais lúcidos e perspicazes da nossa realidade educativa. Mas o certo é que, quanto mais releio estas palavras, mais lhes vou encontrando sentido:

Dissemina-se a ideia de que vamos ter uma escola do século XXI à distância em todos os lares do país. Confesso que me espanto. Mas ao contrário, o que não me espantaria era que o ano lectivo terminasse amanhã como uma decisão absolutamente excepcional. Os alunos do básico e do secundário transitavam sem notas. Ficariam poucas questões por resolver, entre elas o acesso ao ensino superior.

Na verdade, se o que se pretende é um ensino de faz-de-conta, um entreter de meninos e meninas, fazendo vista grossa aos que não respondem à chamada e avançando às cegas por um modelo de ensino a distância oscilando entre a “escola dos afectos” para “manter o contacto” e a dos TPCs para os “manter ocupados”, então estou com o Paulo: o melhor é acabar já o ano lectivo.

Pois do que estamos a falar é da necessidade de construir, em tempo recorde, respostas educativas destinadas a faixas etárias muito diversificadas – crianças e jovens dos 6 aos 18 anos – sem descurar a questão da universalidade do acesso e da igualdade de oportunidades. Ignorar as enormes disparidades económicas, sociais e geográficas no acesso às tecnologias que permitem aprender em casa é negar os princípios em que se fundamenta a escola pública, universal e inclusiva – e uma óbvia inconstitucionalidade.

Avançar com um terceiro período feito de aulas não presenciais sem acautelar as fragilidades do modelo que se tenta construir atabalhoadamente, sem alocar recursos nem fazer investimentos, esperando que tudo se resolva à base de parcerias, de sacrifícios pessoais e boas vontades colectivas, apenas aprofundará a brecha educativa entre os que têm, podem e conseguem e os outros, que ficarão cada vez mais para trás.

No ComRegras, partindo dos mesmos fundamentos, Alexandre Henriques apresenta uma proposta diferente:

Se os princípios Constitucionais da equidade, da inclusão, da igualdade estão postos em causa, não deve a escolar avançar sem que todos possam estar no mesmo comboio da aprendizagem. É um absurdo avançar na matéria e ter a plena consciência que vão ficar alunos na estação. É um atentado à verdadeira essência da Escola Pública, uma escola feita por todos e para todos.

Retiremos a pressão de dar novos conteúdos, retiremos a pressão da avaliação, retiremos a pressão de querer chegar a todos da mesma forma. Este 3º período deve ser um período de consolidação de conteúdos já lecionados, aproveitando uma oportunidade rara de ter tempo.

A proposta do Alexandre resolve o problema da exclusão. Ao não darmos ordem de partida ao comboio da aprendizagem, garantimos que ninguém fica apeado na estação. Mas cria outro problema: é que nem os bons alunos gostam de uma escola que os obriga a marcar passo, revendo e consolidando matérias, em vez de os fazer progredir nas aprendizagens. Esta escola, que não ensina coisas novas nem avalia, corre o risco de perder os bons alunos sem que consiga chegar aos restantes, que dela mais necessitam. Ninguém frequenta uma estação de onde não partem comboios…

2 thoughts on “O que fazer no terceiro período?

  1. Qualquer das duas propostas é sensata. A do Paulo Prudêncio é a melhor, pois evita, à partida, todos os disparates que se possam decidir a nível local. Por esta altura, boa parte dos professorzecos da nossa classe só está a pensar em aulas ditas à distância no próximo período, coisa que terá que ser feita a qualquer custo, dizem (e ouve-se o mantra: “Os alunos não podem ser prejudicados.”). Que importa que, pelo caminho, se ponham em risco direitos constitucionais de docentes e discentes, e que se despreze o sentido da nossa profissionalidade? O que é uma aula? O que é o acto pedagógico? O que é a monitorização e avaliação das aprendizagens? Parece que milhares de colegas desconhecem as respostas a estas questões. Aulas, aprendizagem, avaliação, já pode ser qualquer coisa, caso a alma não seja pequena… Que gentinha, que madres-teresas-de-trazer-por-cá! Somos uma classe sem noção da função intelectual inerente ao aeu estatuto, apenas preocupada com o “como”, e não com o “o quê?” e o “porquê”.

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    • A realidade suscitada pelo comentário magoa.
      É mesmo gente sem noção da função intelectual inerente ao seu estatuto.
      Como é que se pode continuar a viver na caverna platónica depois de se ter passado por uma universidade (pela universalidade do saber)?
      O exercício da docência não é compatível com o consentimento cognitivo. Para quando a dissonância cognitiva? Para quando a saída da caverna?

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