Um roteiro para o ensino a distância – e três contrapropostas

roteiro-ead.PNGProcurando mostrar que está atento e que tem iniciativa, o ME reage à suspensão forçada das aulas e à percepção geral de que tão depressa não serão retomadas. E apresenta o seu roteiro para a implementação de modalidades alternativas de ensino. Que terão de ser, forçosamente, não presenciais.

Os oito princípios enunciados seguem na linha do que tem sido a política educativa deste e do anterior ministério: muita parra e pouca uva. Enunciam-se ideias ambiciosas entremeadas com muita verborreia eduquesa. Contudo, quando chega a altura de concretizar, os profissionais das escolas descobrem-se, como é habitual, entregues a si mesmos. E com uma carga de tarefas e responsabilidades que vai muito além do que está ao seu alcance decidir e resolver.

Na verdade, este roteiro assemelha-se a um caderno de encargos dirigido às escolas públicas portuguesas. Só que, ao contrário do que sucede quando o Estado encomenda a construção de uma estrada ou um edifício, nada consta acerca dos deveres e obrigações do adjudicante.

Implementar a partir do zero um sistema de ensino a distância é uma missão impossível de concretizar num par de semanas, sobretudo se tivermos em conta que professores e alunos continuam confinados às suas casas e que o investimento público nesta área foi nulo ao longo da última década. Pelo que o ambicioso roteiro serve sobretudo para o ME apresentar serviço e, face ao evidente fracasso de um projecto que se quer construir a partir do telhado, apontar a dedo os culpados do costume: as escolas e os professores.

Por aqui não se têm soluções mágicas ou respostas milagrosas aos problemas da Educação. Mas tenta conhecer-se a realidade das escolas, do trabalho dos professores e do contexto social e familiar dos alunos. E é por isso que devolvo à procedência o lindo roteiro, acrescentando ao relambório eduquesmente correcto, três medidas concretas que serão indispensáveis para viabilizar, no terceiro período, qualquer arremedo de ensino a distância que se tente implementar:

  1. Ferramentas básicas para o EaD acessíveis e gratuitas para alunos e professores. Em vez de apresentarem vinte ou trinta aplicativos e plataformas que poderão ser usados por cada escola ou professor, disponibilizem o acesso gratuito a alguns serviços essenciais, de forma a poderem ser usados, sem constrangimentos, por todos os professores. Nalguns casos esses sistemas até já existem, como é o caso do Colibri, que permite aos docentes e investigadores do ensino superior aceder gratuitamente e sem limitações ao serviço de videoconferência Zoom. Do que é que estão à espera para alargar esta plataforma de acesso ao básico e secundário?
  2. Computadores para todos os alunos. Implementem de imediato – deveriam ter começado a tratar disso logo que decidiram encerrar as escolas – um programa de fornecimento de computadores a alunos que os não têm, acompanhado pelo reforço das redes móveis e fixas de internet. Esta é a única forma eficaz de combater a exclusão em tempo de isolamento social, garantindo que a Educação continua a ser um direito universal. E realce-se que quando falamos de direitos fundamentais não podemos fazê-los depender de caridades ou boas vontades locais. Independentemente das parcerias que se venham a estabelecer localmente, tem mesmo de ser o Estado a tomar a iniciativa e a criar as condições para que as soluções, expeditas e eficazes, se concretizem.
  3. Responsabilizar as famílias. É uma realidade de que se tem falado ainda pouco, mas que estas duas semanas deram para perceber. Muitos alunos desligaram por completo da escola durante este final de período antecipado. Os professores perderam-lhes o rasto, e nem sempre foi por não terem computador ou internet. É que nem todas as famílias estão a levar a sério a ideia da aprendizagem em casa. Depois de anos de campanha contra os TPC, está chegada a altura de o governo definir claramente um dever que os pais, em tempos de ensino online, têm de assumir sem hesitações nem desculpas: o de garantir que os filhos, desde que disponham dos meios para tal, correspondem às solicitações da sua escola e dos seus professores.

7 thoughts on “Um roteiro para o ensino a distância – e três contrapropostas

  1. António, o que faz ao aluno que vive nos Luzelos, uma aldeia perdida no meio da serra, que não tem Internet e até o telemóvel mal funciona, porque sem rede?

    Gostar

    • Pois, aí provavelmente não se conseguirá fazer, em duas semanas, o investimento que foi sendo adiado durante décadas.

      É o velho problema, que não me canso de denunciar, de se achar que se muda a escola para que tudo o resto fique na mesma.

      Gostar

  2. Ora bem…
    Constituição da República e LBSE tem direitos e deveres dos EE. Estes se não as têm em conta…lamento mas, existe a consequência…
    As juntas de freguesia estão halibitadas para resolver os problemas de falta de net e demais problemas. Temos lei para este tipo de situação.
    O ensino doméstico com a criação de portefólios é muito superior ao dito normal.
    Os programas de ensino à distância já existem e são muito bons…o colibri é um, o moodle é outro etc…e resulta para todos os níveis…

    Gostar

    • A realidade do ensino a distância é nova e não está contemplada na lei de forma específica.
      Quanto às juntas de freguesia, podem estar habilitadas a fazer muita coisa, não têm é meios para o concretizar, sendo como são o parente pobre do poder autárquico. Ou alguém acredita que dispõem de paletes de computadores e acessos à internet para andarem a distribuir – e a pagar as respectivas mensalidades – a agregados carenciados?
      No resto, parece-me que está a confundir programas com plataformas – que na verdade existem, o problema está na produção de conteúdos de qualidade e ajustados aos diversos públicos educativos. E isso não se faz de um dia para o outro…

      Gostar

    • O Srº alguma vez deu aulas? é que o processo ensino aprendizagem tem muito mais a ver do que o debitar matéria em plataformas e avaliar os alunos (se é que são os alunos a responder?) por respostas online. Parem com a loucura. O ensino Público Obrigatório não é um curso universitário nem um Mestrado de uma escola privada!

      Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.