Ano excepcional, medidas excepcionais – defende a Fenprof

tiagobr2No contexto de exceção que se vive, é estranho que os responsáveis do Ministério da Educação continuem sem revelar uma alternativa para tudo o que ainda falta até final do ano em curso  (atividade letiva, implicação da avaliação do 2.º período e avaliação final, bem como provas e exames), limitando-se a afirmar que, em 9 de abril, se avaliará a situação e se decidirá se as escolas reabrirão ou continuarão encerradas. Isto, apesar de as autoridades de saúde pública e o Governo preverem para 14 de abril o pico epidemiológico em Portugal, uma perspetiva que – a ser bem sucedida a estratégia que lhe está subjacente, ou seja, estender a duração do surto no tempo para evitar um pico repentino – implicará o prolongamento da situação de isolamento ou, pelo menos, de contenção social até praticamente ao final do ano letivo, para evitar um novo surto. O próprio Primeiro-Ministro já admitiu que as escolas se manterão encerradas no 3.º período.

 Neste quadro, em que nada poderá ser facilitado, esperava-se que o Ministro da Educação, no mínimo, apontasse um caminho que fosse conhecido, discutido e acompanhado pela comunidade educativa e a sociedade em geral. Contudo, declarações recentes do governante não permitem perceber, com clareza, qual a estratégia que está a ser preparada para o futuro próximo, não indo muito além de algumas frases feitas. O que os professores e as escolas conseguiram fazer na quinzena ainda em curso não poderá, simplesmente, ser replicado, semanas a fio, no 3.º período. O que é necessário é que deste tempo, que foi, essencialmente, de aprendizagem perante um quadro inesperado, se percebam as dificuldades, as limitações, os problemas, para que não se repitam no futuro. E do Ministro da Educação exige-se clareza e assertividade!

 O que aconteceu na semana que passou, prolongando-se para esta, foi muito diferente de escola para escola. As escolas, os professores e a grande maioria dos alunos procuraram dar o seu melhor, mas há problemas que são de difícil superação, desde logo e sem menorizar outros, o da falta de recursos por parte de muitos alunos e de alguns docentes para poderem desenvolver atividade a distância ou a situação de desigualdade de alunos que, mesmo possuindo os equipamentos, não dispensam um apoio individualizado. Esquecer isto é pôr em causa os fundamentos da escola inclusiva.

Continuar a ler o comunicado…

Rompendo o falso consenso em torno das virtudes da aprendizagem online e do novo mundo tecnológico que, graças ao ataque do coronavírus, parece estar ali ao virar da esquina, a Fenprof assume, num extenso comunicado, uma posição clara e assertiva em relação aos tempos difíceis que vivemos, também, na Educação.

Haja quem diga claramente que o ensino a distância, por melhor que seja, não substitui a presença física de alunos e professores. Que a aprendizagem online, podendo ser uma solução temporária e de recurso, representa também a negação da escola inclusiva em que tanto se diz apostar, prejudicando sobretudo os alunos que mais precisam de ser apoiados. Que as aprendizagens feitas em casa não são equivalentes, em termos de desenvolvimento de competências, compreensão aprofundada das matérias ou até de cumprimento de programas, com o normal desenrolar da aprendizagem em contexto escolar. Que o papel do professor é fundamental e não pode ser substituído por máquinas de ensinar.

Se para alguma coisa serviram estas duas semanas de isolamento social, foi precisamente para que se percebessem as enormes dificuldades e as fortes assimetrias que se impõem perante as tentativas de construir, praticamente a partir do zero, redes de ensino e aprendizagem assentes nas tecnologias de informação. Quando já se percebeu que no terceiro período vamos todos comer, novamente, deste arroz, o estado de negação e as indecisões do ME fazem-nos perder um tempo precioso se queremos ainda tentar fazer, na recta final do ano lectivo, algum trabalho de jeito com os nossos alunos.

E de nada adianta empurrar, uma vez mais, responsabilidades para a autonomia das escolas, as autarquias, as forças vivas locais ou as redes de voluntariado. A dimensão do problema e a urgência da resposta impedem o ME de encetar a habitual fuga às responsabilidades. Não há volta a dar: o Governo que terá de tomar a iniciativa, na Educação, tal como está a fazer na Saúde ou na Economia.

Claro que tudo seria mais fácil se António Costa, em vez de reconduzir uma inexistência, tivesse nomeado um Ministro.

2 thoughts on “Ano excepcional, medidas excepcionais – defende a Fenprof

  1. É um excelente contributo da Fenprof. Uma das propostas que mais me sensibilizou foi a de se tomar as avaliações de segundo período como tais: se não houver aulas no terceiro, dever-se-ia realizar uma reunião final de avaliação. No entanto, como o Ministério assobia para o lado, e porque não quero prejudicar os alunos com notas que poderão ter que se transformar em notas de final de ano, vou ponderar as avaliações como se este fosse o derradeiro período.

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