Figuras de urso

covid

A decisão do Conselho Nacional de Saúde Pública (CNSP) de rejeitar a possibilidade de todas as escolas em Portugal serem encerradas como forma de conter o surto do novo coronavírus foi “consensual” e, ao que o PÚBLICO apurou, o documento que saiu da reunião que se prolongou por quatro horas foi votado de braço no ar sem nenhum voto contra”.

Depois de ter garantido que o Governo iria decidir as medidas de contenção da epidemia de acordo com o que fosse recomendado pelo CNSP, António Costa acabou por ignorar os conselhos dos supostos “especialistas” e confiar no que representantes de médicos, directores escolares, líderes partidários e congéneres estrangeiros lhe foram dizendo. E anunciou ontem ao país o encerramento de todas as escolas a partir da próxima semana.

Para além da figura de urso que fizeram os que deram a cara em defesa da decisão “consensual” que o governo rapidamente descartou, o episódio é revelador de uma das fragilidades da democracia portuguesa: ao fim de quase meio século ainda não se conseguiu libertar por completo da herança corporativa do anterior regime. De facto, estes “conselhos nacionais” – também temos um na Educação! – que supostamente aconselham os governantes acerca das melhores políticas sectoriais, na prática servem apenas para caucionar, com os seus pareceres técnicos, as decisões mais ou menos arbitrárias que os governantes tomam, mas não querem assumir politicamente.

Na verdade, quando vamos analisar a composição destes órgãos, verificamos que a maior parte dos seus elementos estão ali, não como especialistas do sector, mas em representação de entidades públicas, directa ou indirectamente dependentes do Governo, ou de instituições como, neste caso, farmácias e hospitais privados, com interesses próprios relativamente às matérias em discussão.

No caso da saúde pública, verifica-se não só que os “peritos” estão em clara minoria no respectivo conselho, mas também que as suas intervenções públicas, desde que foram divulgados os primeiros casos de doença do novo coronavírus, têm revelado sucessivos erros, tanto na percepção que foram tendo da evolução da pandemia, como nas formas que encontraram para comunicar com os cidadãos.

Não esquecemos Graça Freitas a desvalorizar completamente a doença, quando estava ainda circunscrita a uma região da China e a doutora simplesmente não acreditava que pudesse chegar até nós. Ou Francisco George a culpar os professores por terem ido de férias para Itália, de onde trouxeram os vírus que contaminaram os alunos. Nem Jorge Torgal a garantir-nos, há apenas duas semanas atrás, que o Covid-19 é menos perigoso do que o vulgar vírus da gripe. A verdade é que há uma geração de especialistas que, por muitos e relevantes serviços que tenham prestado ao país, não correspondem hoje às necessidades e aos desafios que se colocam na área da saúde pública.

Julgando-se provavelmente imbuídos de uma elevada missão, os conselheiros que na quarta-feira se reuniram durante longas horas para determinar o não encerramento das escolas estariam à espera que o Governo, como prometido, seguisse as suas recomendações. Ora a verdade é que António Costa costuma ter faro apurado para as armadilhas que lhe colocam à frente e percebeu que o parecer do CNSP o conduziria a um beco sem saída. Pelo que não hesitou, na hora da verdade, em desautorizar os seus “especialistas” e fazer tábua rasa dos unanimismos que os nossos conselhos nacionais tanto se esforçam por alcançar.

Em democracia, a política faz-se de escolhas, não de pensamento único e de votações por unanimidade. É certo que nem tudo se vota: por exemplo, não podemos escolher mandar embora o novo coronavírus. Mas poderemos certamente tomar as medidas mais eficazes para conter a sua propagação.

7 thoughts on “Figuras de urso

  1. Sim, são órgão politizados. Quanto às figuras de urso, elas vão ser representadas já na segunda-feira pelos professores, que vão continuar a ter que rumar à escola. Já suspeitava que o Ministério abriria a porta ao desvario das direcções, deixando-lhes a liberdade de convocar os docentes para o que lhes apetecesse. Mas a coisa foi ainda pior. Pelos vistos, vamos ter que ir todos para as escolas, provavelmente cumprindo o horário na íntegra. Aguardo a reacção do Filinto, que tão vocal foi no protesto contra o parecer do CNSP. Alguém duvida de que os directores são mesmo professores ou, pelo menos, gente decente, não meros carreiristas de meia-tigela?

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  2. O caso coronavírus põe em evidencia a concepção de educação que tem o governo. A educação, para os alunos, é um dispositivo social para armazenar crianças e jovens, e não para aprender. Os professores são vistos como despesa pública, como uns ociosos, não como intelectuais que promovem o pensamento e o conhecimento, nomeadamente através da transmissão (palavra hoje abominada).

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  3. Claro que o ministro não poderia dizer que os professores estão de férias.
    Mas sabendo-se do que alguns directores são capazes, poderia ser um pouco mais explícito acerca do que será sensato exigir ou não, aos professores, nas actuais circunstâncias.
    Só que para isso seria necessário que o ministro que tivesse noção do que é o funcionamento das escolas…

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  4. Não estou bem de acordo com esta passagem, António:
    “António Costa acabou por ignorar os conselhos dos supostos “especialistas” e confiar no que representantes de médicos, directores escolares, líderes partidários e congéneres estrangeiros lhe foram dizendo…”

    O primeiro ministro foi claro: não seguiu a recomendação do CNSP porque o Centro Europeu de Combate às Doenças “recomendou inequivocamente a todos os estados membros da União Europeia” o encerramento de TODAS as escolas, como se pode ouvir entre o minuto 2.40 e o minuto 3:30. Tanto que até se justificou demoradamente por não ter havido consenso técnico.

    Assim, entendo que era um risco demasiado grande seguir as recomendações (supostamente técnicas) do CNSP contrárias ao entendimento (esse sim técnico) da UE, pelo que imperou a “prudência”.

    Falta sublinhar que o “Porta-voz do Conselho Nacional de Saúde Pública desvaloriza(ou) gravidade do coronavírus
    Numa entrevista há duas semanas, o médico que foi o porta-voz do Conselho de Saúde Pública, que recomendou manter as escolas abertas, dizia que o vírus é “é menos perigoso que o da gripe”.

    https://observador.pt/2020/03/12/porta-voz-do-conselho-nacional-de-saude-publica-desvaloriza-gravidade-do-coronavirus/

    Custa entender como é que tal Conselheiro ainda não foi demitido das suas funções, sendo óbvio que ninguém espera que ele mesmo se demita.

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    • De acordo, faltou referir a recomendação europeia no sentido do encerramento das escolas, que também deverá ter pesado fortemente na decisão do governo.

      Quanto aos “especialistas” nacionais, sistematicamente ultrapassados pela evolução dos acontecimentos, incapazes de avaliar correctamente as situações e de propor as medidas adequadas no tempo oportuno, concordo que a demissão é o caminho inevitável.

      A permanência em funções de um “perito” em epidemiologia que acha o covid-19 menos perigoso do que o vírus da gripe é, em si mesma, uma ameaça à saúde pública.

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  5. […] final será puramente política. O que não é inédito, sublinhe-se. No primeiro confinamento, a decisão de fechar as escolas foi tomada à revelia do parecer dos especialistas, que se tinham pronunciado na véspera contra o confinamento escolar. Dessa vez, a coragem e o faro […]

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