Os professores de Abril

cravo25aMuitos destes professores vão abandonar o ensino na presente década, chamo-lhes os “Professores de Abril“, colando-os um pouco à imagem dos “Capitães de Abril“. Gente que sentiu na pele a opressão, as dificuldades de um regime castrador, tendo vivenciado momentos históricos que dificilmente voltaremos a constatar.

O 25 de abril moldou o caráter de muitos destes professores e são estes os que agora mais sofrem com a indisciplina reinante, pois viveram numa escola para alguns, de rédea curta e chicote na mão. Se por algum milagre tecnológico fosse possível regressar a esses tempos, ficaríamos chocados com o que se passava nas escolas de então, quer pelas condições de trabalho, quer pelas estratégias utilizadas para ensinar/domar os alunos. Eu que nasci em Liberdade, cheguei a levar reguadas por cometer erros e acreditem que a palavra “sumário” nunca mais deixou de ter acento…

Mas se um certo exagerado é dispensável, a verdade é que estes professores têm algo que os atuais não têm (e contra mim falo que tenho 42 anos). Uma capacidade quase inata de combater e resistir às opressões vindas de cima, com uma coluna vertebral de titânio, teimosamente determinada a manter padrões de exigência que agora se perderam.

Não serei propriamente um professor de Abril. Não sendo novo, nem para lá caminhando, estou ainda longe da idade da reforma. Mas gostei de ler as palavras inspiradas do Alexandre Henriques e, até certo ponto, revejo-me nelas.

Era criança quando a Revolução aconteceu, e embora tenha recordações bastante nítidas do período revolucionário e e dos primeiros anos da democracia, formei-me e ingressei na docência já nos anos 80, em plena ressaca pós-revolucionária. Era o tempo da adesão à CEE e da chegada ao poder de Cavaco Silva, onde haveria de permanecer durante uma década, moldando o país ao pragmatismo tecnocrático do cavaquismo.

Nas escolas, o alargamento da escolaridade para nove anos impulsionava a expansão da rede escolar e a construção de novas escolas para um número de alunos continuamente a aumentar. Com Roberto Carneiro, iniciou-se a primeira e talvez a mais profícua das reformas educativas da III República. Dando resposta à expansão acelerada do sistema educativo, a classe docente era então um grupo profissional relativamente jovem.

Nos últimos 40 anos muita coisa mudou no sistema educativo. Melhoraram as condições das escolas e as qualificações dos professores. Introduziram-se as novas tecnologias. Investiu-se em bibliotecas e noutros recursos educativos. Mas talvez o que mais incomode os professores mais antigos seja o aparente triunfo, a todos os níveis, do facilitismo.

Ultrapassada a fase crítica de expansão e massificação do sistema – quando as carências eram muitas e se davam aulas em pré-fabricados de madeira, se construíam escolas sem pavilhão desportivo para poupar nos custos e se combatia a sobrelotação improvisando salas de aula em todos os espaços disponíveis nas escolas – acreditou-se que o foco passaria a estar, já não na quantidade, mas na qualidade. Que, com a estabilização e a progressiva diminuição do número de alunos, o dinheiro até aí gasto a construir escolas e a contratar professores permitiria equipar e requalificar o parque escolar, reduzir o número de alunos por turma, apostar na carreira, na formação e na melhoria das condições de trabalho dos professores. Assegurada a escola para todos, estaria na altura de universalizar também critérios de qualidade, rigor e exigência no sistema educativo.

Na verdade, o que sucedeu foi, como todos sabemos, um forte desinvestimento na Educação. Num sector onde há 20 anos atrás se gastava o equivalente a 5% do PIB tem-se diminuído gradualmente a despesa, estagnando, nos últimos anos, em torno dos 3,6%.

A ordem, para os sucessivos ministros da tutela, foi para poupar. E onde mais se poupou foi na carreira dos professores. Conquistada em 1990, com o primeiro Estatuto da Carreira Docente, esta tem sido sistematicamente torpedeada por sucessivos governos, incomodados com a autonomia profissional conquistada pelos professores e, sobretudo, com a possibilidade de todos poderem atingir, no final, o último escalão remuneratório.

Lutadores e resistentes, na sua grande maioria, em defesa dos seus interesses e da sua profissão, os professores de Abril vão sucumbindo, como todos os outros, ao desânimo e à descrença. Na luta por uma escola pública de qualidade e uma profissão dignificada, os professores têm estado praticamente sozinhos. E os taticismos políticos que sustentaram a geringonça governativa não se mostraram favoráveis às reivindicações dos professores.

Os professores de Abril partem desencantados, abandonando gradualmente uma escola em que já não se reconhecem.

2 thoughts on “Os professores de Abril

  1. Parabéns pelo seu texto. E, sobretudo, obrigado pelo seu texto.
    Sou um desses Professores de que fala, quase 40 anos de ensino e ainda a alguns da reforma. Tem toda a razão: quando sair sairei desencantado, desiludido. Arrependido de ter escolhido esta profissão? Não, isso nunca. Continuo a acreditar que escolhi a mais bela e generosa profissão do mundo, aquela que prepara os cidadãos do futuro, que os ensina, que os forma.
    Não é culpa da escola onde lecciono (já há muito que deixei de lhe chamar “A minha escola”; porque já não o é, antes sendo outra coisa qualquer que não quero classificar), é culpa de muita coisa exterior à escola. É uma escola onde ensinam alguns dos melhores profissionais que conheci na minha longa vida, sendo alguns, igualmente, excelentes seres humanos (outros nem tanto, claro). Mas a escola onde lecciono sofre de tudo aquilo em que as aberrações que têm mandado no ensino transformaram as escolas deste país.
    Estudei no Liceu Camões, em Lisboa, antes e a seguir ao 25 de Abril, conheci tudo isso que descreve no seu texto. Estudei na Faculdade Letras da Universidade de Lisboa, nos anos que se seguiram ao 25 de Abril. Foi bom, muito bom. Ensinei em várias escolas deste país, passaram por mim milhares de alunos.

    Vou sair do sistema daqui a alguns anos. Sairei profundamente desiludido com aquilo em que a escola pública se transformou nestes 40 anos. Dei sempre o meu melhor, honestamente. Quando sair, saio magoado, decepcionado. Decepcionado com os políticos, decepcionado com a massa acrítica de imbecis que elegem e reelegem os mesmos corruptos e oportunistas, ano após ano.
    Não terei saudades, disso tenho a certeza.

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