Mudar por mudar… em vez de melhorar

burocracia.gifAs mudanças da moda têm os mesmos traços que as anteriores: a ideia de que o que o que se fazia até surgirem na agenda educativa estava errado ou não promovia as boas aprendizagens; a ideia de que as atuais mudanças se constituem como novidades quando, na verdade, verificamos que se resumem a velhas práticas, já estudadas, implementadas no passado e abandonadas, precisamente, porque os resultados dos alunos ficavam nos patamares mais baixos dos indicadores internacionais; a terceira é a ideia de que mudança é sinónimo de melhoria. Ora, nos últimos 15 anos sucederam-se várias e a última veio sempre resolver as incapacidades da antecedente, o que prova à saciedade que muitas das mudanças não têm sido sinónimo de melhoria, antes demonstrativas de falta de rumo.

São recorrentes o apressado planeamento e a deficiente operacionalização das mudanças, pelo que muitas delas surgem aos olhos dos destinatários bastante desarticuladas e com objetivos impercetíveis, o que obriga a administração a produzir sucessivos esclarecimentos e regras interpretativas que permitam às escolas implementá-las.

A título de exemplo, veja-se a incongruência entre as cargas horárias dos alunos dos 10.º/11.º anos e do 12.º ano; veja-se a desarticulação entre as competências previstas no Perfil dos Alunos e a formação inicial de professores e as normas de constituição e funcionamento de turmas, de distribuição do serviço e organização do ano letivo; compagine-se a política de reutilização de manuais escolares com os espaços para escrita e colagem; veja-se a chocante falta de equidade entre escolas públicas com instalações de categoria europeia e, mesmo ao lado, escolas públicas com amianto e onde chove. Enfim, muda-se muito, mas melhora-se pouco!

Sintomaticamente, não se vê nenhuma nova ideia para melhorar a qualidade da formação inicial dos professores, nem para melhorar as suas condições de trabalho (muitos são agredidos no trabalho), muito menos o seu estatuto socioprofissional. Nem sequer se veem ideias para assegurar o direito básico de todos os alunos terem professor. Ou seja, muda-se tudo menos o que verdadeiramente interessa e está no centro de uma educação de qualidade.

A análise, lúcida e perspicaz, é de José Eduardo Lemos, o presidente do Conselho das Escolas que tem sido também uma voz crítica das reformas e contra-reformas educativas dos últimos tempos.

O mudar por mudar, apenas porque cada governante, cada lobby em ascensão, cada grupo de trabalho, pretende deixar a sua marca no sistema, em nada contribui para o verdadeiro sucesso educativo.

Em boa verdade, poderemos dizer que os progressos consistentes dos nossos alunos, atestados pelas avaliações internacionais, aconteceram apesar das sucessivas mudanças impostas pelos decisores das políticas educativas.

Presentemente recuperam-se, envoltas nas roupagens tecnológicas do século XXI, velhas teorias educativas que estiveram em voga há duas décadas atrás, sem que tivessem conduzido a melhorias visíveis no desenvolvimento das aprendizagens. O que comprova que persistimos no erro.

À análise de Eduardo Lemos faltaria apenas acrescentar que a soma de incongruências que é a actual política educativa é o reflecte as contradições de um país que continua a ver na Educação uma despesa, em vez de a encarar como investimento. Invoca-se a autonomia das escolas para a resolução dos problemas locais, mas subordinam-se as respostas educativas à agenda educativa da OCDE e ao centralismo burocrático do ME. Gastam-se rios de dinheiro fresco em consultorias, projectos e formações, tirando partido da disponibilidade de fundos europeus. Mas descura-se a carreira dos professores ou o equipamento e as condições de trabalho nas escolas, porque esses dependem de orçamentos de Estado que há muito deixaram de considerar a Educação na lista de prioridades.

2 thoughts on “Mudar por mudar… em vez de melhorar

  1. Sei que não tem nada a ver com o «post», mas arrisco: a greve às reuniões extra-horário letivo (incluindo as intercalares) ainda está em vigor?

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