A lista negra das escolas com amianto

escola-amianto.JPGAndré Julião, do Movimento Escolas Sem Amianto, traça um quadro dramático, mas real, de um país que tarda em levar-se a sério na forma como assume e enfrenta os seus mais graves e persistentes problemas.

Enfiamos centenas de milhões de euros no papo de banqueiros trafulhas e corruptos, desencantamos mais umas dezenas para as festas e as vaidades do regime, fazemos de conta que já somos ricos e cozinhamos até, para Bruxelas ver, um superavit orçamental.

Mas continuamos a empurrar com a barriga um grave problema de saúde pública que subsiste há décadas: o amianto presente nas construções escolares. Um material comprovadamente cancerígeno que se vai libertando do fibrocimento e que fica sujeito a ser inalado por todos os que frequentam as escolas.

Irresponsavelmente, o Governo recusa-se a cumprir a lei e a divulgar a lista das escolas onde existe amianto, bem como os planos e prioridades definidos para a sua remoção. A sensação que fica é a de um ME onde não sabem o que andam a fazer. Entre as tretas da flexibilidade e a promessa de melhor internet nas escolas, perderam por completo a noção das prioridades…

“Só neste país”, podia o caro leitor dizer entredentes, entoando a popular canção de Sérgio Godinho. Então, o que dizer se soubesse que o ministro Centeno destinou, no Orçamento do Estado para 2020, uma “generosa” verba de 20 milhões de euros para remover materiais com amianto de todos os edifícios públicos, menos de 5% do necessário?

O que diria então se, apesar de haver uma lei de 2011 que assim o obriga, o Governo se recuse a tornar pública uma lista pública e atualizada de edifícios públicos com materiais contendo amianto? E mais, que não divulgasse sequer o nome das escolas que ainda contêm este material comprovadamente cancerígeno e muito menos um calendário de intervenções para a sua remoção?

Diria talvez que “estamos entregues à bicharada” ou que “isto é a república das bananas”. Então o que dizer quando soubesse que o Ministério da Educação andou o mês de dezembro de 2019 a telefonar para os diretores de várias escolas da Área Metropolitana de Lisboa a perguntar se ali há amianto? Ou que escolas que nunca conheceram qualquer intervenção estivessem oficialmente dadas como livres de amianto? Ou ainda que existem escolas onde as obras ficaram a meio e funcionam com pavilhões descarnados e telheiros de fibrocimento empilhados mesmo no meio, onde os alunos convivem e brincam?

É nestas escolas que o ministro Tiago Brandão Rodrigues quer que os nossos alunos passem mais horas – das 9h às 17h – e onde a grande prioridade é “uma iniciativa nacional para a melhoria da Internet”. Só mesmo neste país. Um país onde há um Orçamento do Estado com 800 milhões para injetar num banco, onde facilmente se descobrem 250 milhões para contribuir para a Agência Espacial Europeia ou onde até, com simplicidade, se afetam 21 milhões para construir um pavilhão na Expo 2020 no Dubai.

Mas onde as obras em escolas se arrastam ao sabor de eventuais programas comunitários que possam abrir, condicionados a eventuais candidaturas que possam ser aprovadas, reféns de calendários eleitorais, de caprichos caciquistas ou de brilharetes financeiros ao serviço de carreiras políticas. Pois é, caro leitor, só mesmo neste país.

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