A uberização da docência

prof-e.pngEnquanto por cá se tenta relançar a discussão acerca do modelo de colocação de professores, preparando o terreno para uma futura revisão da lei dos concursos, no Brasil ensaiam-se processos inovadores de recrutamento para necessidades temporárias de docentes.

É o caso do aplicativo prof-e. Os candidatos à docência registam-se e, depois de um processo simplificado de selecção, ficam integrados numa plataforma de funcionamento semelhante à Uber: as escolas aderentes comunicam as suas vagas temporárias e o sistema convoca os professores disponíveis, que podem aceitar ou não. As aulas poderão ser leccionadas presencialmente, caso a escola se situe na cidade em que o professor reside, ou via internet, para qualquer escola brasileira.

…os docentes que quiserem fazer parte da plataforma precisam pagar um valor para a inscrição, que é de R$20,00 para o ensino fundamental Ciclo II (todas as disciplinas); R$30,00 para o ensino médio e técnico (todas as disciplinas) e R$ 40,00 para instituições de ensino superior – Ies (todas as disciplinas).

Não há prova nem classificação de candidatos. O resultado é publicado como aprovado ou não aprovado, sendo avaliados os requisitos mínimos que constam no Edital. O prazo de inscrição encerra em 7 de fevereiro.

Os candidatos preenchem o formulário, postam os documentos solicitados e gravam uma vídeo-aula de até 5 minutos em alguma disciplina de sua graduação ou licenciatura como se fosse se candidatar ao Big Brother.

Os promotores desta plataforma oferecem 80 horas de formação aos candidatos aceites e afirmam que o novo sistema ajuda a minimizar o que consideram ser um dos maiores problemas das escolas: as aulas que se perdem por não se conseguir substituir atempadamente os professores ausentes.

Para já o sistema estará a ser experimentado apenas em escolas particulares, mas há quem tema que este possa ser apenas um passo intermédio antes da sua extensão ao ensino público. Algo que, obviamente, não interessa nem aos professores nem a quem defende uma escola pública de qualidade.

De facto, a falta de professores não se resolve com a precarização da profissão. Implica, pelo contrário, um investimento continuado na formação docente, na valorização profissional dos professores e das suas carreiras e num sistema de colocações que garanta estabilidade profissional e continuidade no trabalho pedagógico.

Marcio Pochmann, economista especializado no mundo do trabalho,  pesquisador e professor da Unicamp e ex-presidente do Ipea, de 2007 a 2012, afirma que trata-se de precarização do trabalho do professor. Em sua conta no twitter ele destaca que, após ser autorizado esse tipo de contratação pelo governo Temer há dois anos, “começou a instalação da uberização nacional da docência privada”, para ele, trata-se da antessala da educação pública , a ocorrer por “cadastramento de professores” para servir ao processo contínuo de substituição em aulas presenciais ou não, em qualquer local do país.

O professor Marcos Fuhr, da direção do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do RS (Sinpro/RS), diz que “esse formato de contratação é um absurdo e que o Sindicato já está estudando formas de atuar diante de eventuais irregularidades ocorridas no Rio Grande do Sul e outros descumprimentos da legislação vigente, buscando respeito aos pisos salariais e manutenção dos direitos dos professores”.

2 thoughts on “A uberização da docência

  1. A aula não presencial via internet é uma gracinha. Já tivemos a tele-escola e outras tele-qq coisa.
    Agora temos uma uberização.
    Por cá teremos a municipalização.
    Depois teremos uma Sophia ou um Ken chipados também a “dar aulas”.

    Finalmente vão construir-se uns museus dedicados ao passado, às escolas, alunos e professores porque já não haverá necessidade de nada disto.

    Será algo que aparecerá por geração espontânea, brotando por entre as pedras da calçada tal qualmente onde também se cultiva o esparguete.

    Hoje não me estou a sentir nada bem.

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  2. […] Ou seja, as escolas aderentes a essa plataforma comunicam suas vagas temporárias e o sistema convoca os professores disponíveis, que podem aceitar ou não. As aulas poderão ser lecionadas presencialmente, caso a escola se situe na cidade em que o professor reside, ou via Internet, para qualquer escola brasileira. Confira aqui artigo sobre a uberização do magistério. […]

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