Se a preocupação é poupar, acabem com o ensino!

mealheiroSe é verdade que o chumbo por si só de pouco servirá, também é verdade que quem não sabe não deve poder, na minha opinião, progredir. A questão-chave é atacar, por um lado, o desinteresse dos alunos, enquanto, por outro, se investe num maior acompanhamento de facto que permita uma aquisição real de conhecimentos, raciocínio crítico e capacidade de trabalho, os três factores-chave para um desenvolvimento saudável e completo de um adulto preparado para o ensino superior e/ou o mercado de trabalho.

Isso inclui, por exemplo, turmas mais pequenas, programas curriculares mais abrangentes e com um leque mais variado de escolhas, ou o reconhecimento de que diferentes alunos funcionam a ritmos diferentes a cada disciplina e, por questões de optimização e eficiência, devem ser agrupados com quem exibe ritmos semelhantes. Mas isso é capaz de já ser pedir demais numa terra em que nem as infra-estruturas foram renovadas capaz e seriamente.

Este tipo de legislação baseada em linguagem muito vaga e abstracta dificilmente terá qualquer tipo de resultado prático que não a passagem administrativa se não houver um investimento real em recursos humanos na educação, seja ao nível dos auxiliares educativos, seja na tentativa de capturar aqueles que foram bons alunos para transmitir o seu conhecimento às gerações seguintes.

Porque a suposta poupança de 250 milhões ao acabar com os chumbos será, por si só, reflectida numa perda ainda maior de rendimentos futuros quando a nossa força laboral for ainda menos qualificada do que aquilo que já é hoje em dia. E, se a preocupação é poupar, acabem de vez com o ensino – mais barato que isso não há.

As palavras sensatas do economista João Barros comprovam que não é preciso ser professor ou estar directamente envolvido na vida escolar para perceber o óbvio. Nenhuma escola, nenhum professor, têm qualquer gosto ou interesse em reprovar alunos. Se o fazem, é apenas naquelas situações em que as alternativas à retenção fracassaram. E repetir o ano, tendo em conta a dimensão das lacunas e dificuldades evidenciadas, acaba por ser a solução menos má. Como, aliás, a descida sustentada das percentagens de insucesso demonstra claramente.

Assim, quando se anunciam novos planos para combater o insucesso e se diabolizam os “chumbos”, a contradição do discurso, reveladora da hipocrisia dos responsáveis, torna-se evidente: afirma-se que as retenções são sempre inúteis e prejudiciais aos alunos e até à economia nacional. Mas então porque não decretam o seu fim? Porque não determinam a transição automática em todos os anos de escolaridade, como já há muito se faz na passagem do 1.º para o 2.º ano? Claro que para isso era necessária coerência e coragem política, coisas que não abundam na equipa que tutela o ME. É sempre mais fácil atirar com o ónus das reprovações para cima dos professores, ao mesmo tempo que se evita enfrentar uma opinião pública ainda maioritariamente hostil às “passagens administrativas”.

O que pode efectivamente evitar as retenções é o investimento directo na Educação, aumentando e diversificando os recursos materiais e humanos ao serviço das escolas. Ainda mais num país em que a escolarização avançou tardiamente e em que subsistem profundas desigualdades económico-sociais e no acesso à cultura. Ora esse investimento público em Educação há muito que deixou de ser prioridade, e não é com o governo dos centenos que o voltará a ser. Sem mais recursos, e na impossibilidade de fazer omeletes sem ovos, a solução é o facilitismo: baixar os níveis de exigência e flexibilizar critérios de avaliação, de forma a que mais alunos passem de ano, ainda que tendo aprendido menos.

Os resultados deste processo de degradação lenta da qualidade e da exigência da escola pública só serão evidentes a médio e longo prazo: pouco ou nada do que se decide no sector da Educação gera efeitos imediatos. À cautela, as elites dirigentes, elas próprias produto, maioritariamente, da escola pública, já vão acautelando o futuro dos filhos e dos netos. Matriculados, não na “escola inclusiva”, mas nos colégios privados mais exclusivos…

One thought on “Se a preocupação é poupar, acabem com o ensino!

  1. Premissa :
    Caso queiramos ser honestos, só poderemos considerar sucesso educativo SE – repito mil vezes o SE – o aluno transitar de ano TENDO – adquirido – os – devidos – conhecimentos – ou – competências. De contrário não é sucesso, é fraude! (peço desculpa por dizer tamanha banalidade… mas que hei-de fazer, face a tantas alarvidades por aí semeadas) . Dito isto:

    a) Para muitos alunos, cujas dificuldades de aprendizagem possam ter a ver com uma menor preparação em determinadas matérias, “trazida ” do ano anterior, ou mesmo sendo portadores de algum ( leve) défice cognitivo, é possível – com o tal plano – salvá-los. (dentro da premissa enunciada )

    b) Agora uma afirmação bombástica : não é possível – por muito “científicos” que sejam os “planos” – obter um sucesso a 100% . (refiro-me ao “tipo” de sucesso acima ).

    Saberão porquê : seja em que actividade humana for, há sempre, sempre, os que “conseguem” e os que não conseguem. Para uns existem barreiras “naturais” que os impedem (lamento) de chegar onde outros chegam facilmente. Faz parte da natureza humana, não há nada a fazer.
    No caso do ensino, nem todos possuem as capacidades e aptidões necessárias para atingir o patamar que desejariam. Podem ter para atingir um determinado nível de ensino, mas não ter para atingir o seguinte. Já “no meu tempo” era assim e existia uma selecção à entrada. Que diremos com a massificação ou universalização do ensino. Mas poderá, e deverá , haver encaminhamentos, de acordo com o perfil de cada um ( como na Alemanha ) .

    Agora, encapotadas passagens administrativas até serem “doutores ? Não, e não !

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