Esta inclusão não, obrigado…

ed-inclusivaA questão gera divergências insanáveis nas escolas, como sempre acontece quando, em vez de se olhar a realidade, de ouvir os intervenientes e interessados nas eventuais mudanças, de decidir com ponderação e sensatez, de procurar consensos em matérias tão delicadas e decisivas para uma população escolar especialmente vulnerável, se opta pelo voluntarismo irresponsável, impondo às comunidades educativas uma política decidida nos gabinetes ministeriais.

E se do lado do ministério é fácil porem-se todos de acordo – carreirismos e “lealdades” a isso obrigam – nas escolas as divisões saltam à vista. Um recente inquérito promovido pela Fenprof demonstrou que a maioria dos directores têm uma opinião positiva acerca do regime de inclusão – o conhecido “54”, que veio substituir o anterior enquadramento legal dado aos alunos com necessidades educativas especiais. Já entre os professores que dão aulas e responderam ao inquérito o sentimento é o oposto: a maioria tende a ver mais inconvenientes do que vantagens na forma como tem sido implementada a educação inclusiva.

Directores satisfeitos, professores descontentes. Parece ser este o estado de espírito presente nas escolas a propósito da aplicação do novo regime de educação inclusiva, aprovado no ano passado. É, pelo menos, o que revelam os resultados de um inquérito promovido pela Federação Nacional de Professores (Fenprof), em que foram validadas 1192 respostas por parte de professores (num universo de cerca de 110.000) e de 92 direcções (para um total de 801).

No documento com os resultados do inquérito, a Fenprof destaca que as respostas dadas, por um lado, pelas direcções das escolas e, por outro, pelos docentes “são uma espécie de espelho que reflecte o inverso” com 63% das direcções a afirmarem que a resposta “aos alunos com necessidades educativas especiais (designação que foi abolida pelo novo diploma) melhorou”,  enquanto 46,3% dos docentes referem que piorou.

Por outro lado, entre os responsáveis das escolas, 9,8% consideram que com o novo regime que substituiu o da educação especial tudo “ficou na mesma”, uma opinião partilhada por 21,5% dos professores inquiridos. E 18,5% das direcções não responderam ou não têm opinião, enquanto nos docentes essa percentagem foi de 16,6%.

Claro que a inclusão de todos os alunos será sempre a solução mais desejável, embora na realidade nem sempre seja possível. Porque há barreiras que são insuperáveis – e para estes casos é necessário continuar a investir em apoios educativos individualizados e em salas com os meios adequados a estes alunos – mas também porque há uma clara vertente economicista a presidir a este encaminhamento dos alunos “especiais” para as sala de aula regulares. Ora a verdade é que, mantendo as turmas numerosas e não disponibilizando maiores recursos materiais e humanos para promover a inclusão, esta redunda numa má prática educativa, com prejuízos evidentes tanto para os alunos supostamente “incluídos” como para o resto da turma. Os professores no terreno vêem e sentem isto claramente, tal como os pais preocupados com o bem estar e o futuro dos seus filhos. Para os burocratas da inclusão, contudo, a preocupação continua a ser a de não deixar que a realidade lhes estrague a sua bela teoria.

2 thoughts on “Esta inclusão não, obrigado…

  1. Aspecto totalmente alheio à discussão, mas que não pode ser escamoteado: quantos milhões custa ao erário público – a todos nós – esta brincadeira ? É só fazer as contas, como alguém diria…

    Repare-se: são seis mil (6000) professores de EE principescamente pagos, mais umas larguíssimas centenas para colmatar as baixas-médicas (este grupo é extremamente vulnerável às “doenças” – ver RR semanais em Dearlindo).
    A esta legião, junte-se um sem-número de psis, terapeutas disto -e – daquilo, cujo trabalho e eficácia não é suficientemente escrutinado.

    E o que fazem de substancial estes “6000”, sem pôr em causa a sua honorabilidade, pois a culpa não é deles? Muito pouco :

    a) produzem infindável e inútil papelada , com textos intragáveis.

    b) Acompanham ( acompanham ! ) ” à turma” , isto é, às aulas de matemática, ciências ,português, línguas, e outras, alunos NEE. Qual a sua missão? Fazer com que não importunem os outros e passem umas coisas para o caderno diário. (a sua presença não será mais um factor de distracção ? )

    c) Uma vez por semana, dão “apoio” (apoio) na escola primária a um ou a dois alunos. Coisa que caberia ao professor residente fazer, num tempo separado : porque está mais habilitado a fazê-lo ; porque é mais conhecedor das lacunas. Assim ,o Estado paga duas vezes…

    d) a maioria esmagadora dos professores de EE são professores primários e educadores de infância. Alguém considera que estão aptos a dar “apoio” em tudo-e-mais-alguma-coisa” – matemática, física, línguas, português, filosofia, historia – nos diferentes níveis de ensino? Mas parece que “dão” !!!

    Reitero: não estou a denegrir a classe. Estou apenas a censurar o sistema, que além de ineficaz representa um tremendo encargo financeiro.

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  2. Concordo com o comentário. Finalmente vejo alguém falar deste assunto dos professores do Ensino Especial! Não estou contra eles que apenas aproveitam as condições que lhes dão, mas este sistema devia ser revisto sim. São professores que em muitos casos tiraram esta especialização apenas para conseguir entrar para os quadros ou ficarem em quadros mais próximos de casa, pois no seu grupo de origem nunca mais arranjavam lugar. São muitos deles professores do 1º / 2º ciclo. Alguns começam por estar no ensino especial nesses ciclos, mas depois acabam por dar o salto para os quadros das escolas secundárias! Têm um horário feito por eles onde acompanham os alunos às horas que lhes dá jeito. Atribuem-se a si próprios um dia livre, e este é mesmo um dia livre, pois não têm aulas para preparar ou testes para corrigir. Por vezes levam semanas para produzirem um documento, por vezes mal escrito. Vão apoiar diversos alunos em sala de aula em várias disciplinas para as quais não têm preparação, entrando numa função que deveria ser de coadjuvação por outro professor da mesma disciplina. Em alguns casos são factores de perturbação nas aulas contribuindo para um ambiente mais barulhento e há alunos que negam a sua ajuda, pois não querem sentir-se diferentes! E o absurdo será que estes colegas serão avaliados como quem dá aulas, é director de turma e tem muito mais responsabilidade!

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