As retenções no Expresso da Meia Noite

expresso-mn.GIF

Quatro entendidos no assunto debateram ontem, na SIC Notícias, o fim anunciado das retenções –vídeo aqui.

Esteve a presidente do CNE, que não estarei a ser mauzinho se disser, porque é verdade,  em representação oficiosa do ME. De facto, a forma cada vez mais impositiva como os responsáveis ministeriais impõem as suas concepções educativas às escolas contrasta nitidamente com a falta de coragem para assumirem e defenderem publicamente as suas ideias. Claro que discutirem-nas com professores e outros interlocutores críticos e conhecedores da realidade não é a mesma coisa que discursarem perante uma plateia de convertidos à boa nova educativa…

Ainda assim, os maiores elogios e a defesa mais empenhada da política do governo partiram do director do Agrupamento da Boa Água. A acreditar nesta liderança forte e esclarecida, por ali já deixaram de dar aulas, demasiado aborrecidas para os alunos. Para aprenderem, estes fazem coisas mais divertidas, sejam elas trabalhos de grupo ou interacções com tablets, telemóveis e outros zingarelhos electrónicos. E os resultados, segundo o director, estarão a ser cada vez melhores, uma afirmação que os dados disponíveis no InfoEscolas, e que vão apenas até 2018, estão longe de confirmar. Pessoalmente continuo a achar empobrecedora uma escola que, em vez de abrir horizontes aos alunos e de os confrontar com a necessidade de saírem da sua zona de conforto e aceitarem novos desafios, se limita a dar-lhes o que já sabe que gostam.

Quanto à doutora Brederode, limitou as suas intervenções ao discurso fofinho e politicamente correcto, desbobinando uma cassete de décadas e elencando um caderno de encargos educativo que será sempre mais fácil de enunciar do que de pôr em prática. Principalmente quando a ordem é, e aparentemente continuará a ser, para poupar.

Alexandre Homem Cristo, o jornalista do Observador especializado em temas educativos, mostrou-se bem informado. Amadureceu uma visão demasiado ideológica que tinha quando começou a escrever sobre estes temas e lançou algumas questões pertinentes. Mas pareceu-me faltar alguma coerência e fio condutor às suas intervenções.

Claro que o papel de transmitir a visão de quem trabalha nas escolas e dos verdadeiros especialistas em educação que são os professores coube a Paulo Guinote. Embora com o tempo algo limitado para as suas intervenções – e jogando frequentemente num verdadeiro um-contra-três, o Paulo conseguiu passar a ideia de que a diabolização das retenções, sem que se tomem medidas efectivas para melhorar o ensino e a aprendizagem, apenas traduz um facilitismo inconsequente.

Paulo Guinote esteve especialmente bem na desmontagem, que raramente é feita, do raciocínio enviesado que nos manda acabar com as retenções porque outros países, supostamente mais evoluídos, há muito que o fizeram. Na verdade, os “chumbos”, como muita gente ainda gosta de os designar, são apenas o resultado de uma realidade mais preocupante que é o insucesso escolar. Os alunos deveriam passar de ano porque aprendem efectivamente, e foi esse o percurso feito na generalidade dos países, incluindo o nosso, onde o insucesso tem vindo, paulatinamente, a baixar.

Quando se comprova, como no debate se evidenciou, que o insucesso escolar está associado à pobreza e falta de recursos das famílias, é evidente a necessidade de políticas económicas e sociais que atenuem as desigualdades e apoiem directamente as famílias e os alunos mais carenciados. Mas não é isto que é feito. Toda a pressão está a ser colocada sobre as escolas e os professores como se se pudesse corrigir, no espaço da sala de aula, tudo o que está profundamente errado na organização da sociedade e na vida desses miúdos.

O velho adágio africano dizia ser necessária uma aldeia inteira para educar uma criança. Também entre nós precisamos do envolvimento de toda a sociedade na educação das nossas crianças. Para que o seu sucesso escolar não se limite a andar doze anos a passear pela escola.

One thought on “As retenções no Expresso da Meia Noite

  1. 1 contra 3 espelha a realidade do debate sobre este tema especialmente nos últimos dias. Eles são às centenas os que debitam uma espécie de cartilha velha de décadas- na rádio, Tv e jornais.

    Porquê só um professor do terreno a questionar e esclarecer?
    Espanta-me a insistência no caso da Finlândia e outros países nórdicos desenvolvidos, como se se pudesse fazer qualquer tipo de comparação com Portugal. Não é sério. E, a partir daqui, está tudo inquinado.

    O sr. director presente foi inenarrável.
    A drª do CNE sorria e sorria sempre.
    O AHC andou meio perdido e não ajudou lá muito ao debate
    Restou o Paulo Guinote, a Alice no País das maravilhas e mais o caso da cadeira que irritou solenemento o director do melhor agrupamento de escolas do país.

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.