Meninos grunhos e pedagogos do regime

santana-castilhoO programa Prós e Contras de 3 do corrente, supostamente sobre a indisciplina e a violência que reina nas escolas, mostrou que há muitos professores que aceitam como coisa sua aquilo que é coisa das famílias, dos políticos e do Estado. […]

Apesar da função dos professores ser promover o conhecimento, ensinando com independência, o programa mostrou ainda que a propaganda oficial os coloniza e leva demasiados a aceitarem que os “meninos” são grunhos e violentos porque as aulas não são motivadoras, “flexíveis” e as escolas não têm teatro.

Atento à realidade e acutilante na escrita, Santana Castilho continua a fazer uma análise certeira dos problemas de fundo que afectam a Educação portuguesa. E que, a não serem resolvidos, farão das escolas públicas portuguesas lugares de frequência cada vez menos recomendável.

A verdade é que o nosso sistema educativo, embora com naturais insuficiências, foi um dos principais factores do desenvolvimento do país e da qualificação das novas gerações. As retenções, hoje tão diabolizadas, permitiram que um sistema com fracos recursos conseguisse assegurar a universalização da escolaridade, primeiro para nove, depois para doze anos, sem que essa massificação fosse acompanhada por uma degradação irreparável dos níveis de exigência aos alunos ou da qualidade de ensino.

Com a população escolar há muitos anos em queda, deveríamos hoje ser capazes de reduzir ainda mais o insucesso escolar, reforçando os meios materiais e humanos ao serviço das escolas, de forma a assegurar mais e melhores aprendizagens a todos os alunos. O que só não acontece porque a Educação, apesar de vital para o futuro do país, não é assumida como uma prioridade política. E bem anda Santana Castilho ao desmascarar a demagogia e o cinismo dos pedagogos do regime…

Maria Emília Brederode está certa na proposição (fácil é reprovar os alunos, difícil é criar condições para que aprendam) mas erra, com dolo, quanto à solução. Porque sabe bem que as condições não estão nas mãos dos professores mas nas decisões políticas de quem a elegeu. Porque sabe bem que acabar com os chumbos só se consegue baixando o nível de exigência ou criando medidas sociais de erradicação da pobreza e de apoio à destruturação das famílias e medidas educativas sérias (mais tutores, mais professores de apoio, mais psicólogos e técnicos especializados, redução do número de alunos por turma e mais meios e materiais de ensino). A alternativa que implícita e hipocritamente sugere é a primeira. Porque sabe bem que as outras, as sérias, são incompatíveis com as mentes captas dos seus prosélitos e com a limpeza do balanço do Novo Banco (mais 700 milhões).

Questionando mesmo os consensos tidos por inquestionáveis – como aquele que obriga a permanecer na escola até aos 18 anos jovens que lá não querem andar – o cronista que venho a citar antevê, para a Educação portuguesa, um futuro que já é o presente noutros países: a uma escola pública mergulhada no caos da burocracia, da indisciplina e do facilitismo, contrapõem-se as escolas privadas de excelência onde serão formadas as novas elites…

Se nas escolas continuarmos a preterir o que verdadeiramente importa a favor de trivialidades aparentemente livres e avançadas, estaremos a breve trecho face a uma sociedade com duas escolas: uma, que valoriza o conhecimento e premeia o estudo e o esforço, para os que a possam pagar e para os filhos e netos dos governantes e dos pedagogos do regime; outra, para o povo, “flexível”, manicomial, carregada de planos e projectos, onde só chumbarão (e cada vez mais) os professores/escravos.

2 thoughts on “Meninos grunhos e pedagogos do regime

  1. Assim à primeira vista, estou em crer que o alarme resultou – em boa medida – da expressão “acabar com os chumbos” ( a-ca-bar !). Ora, acabar significa reduzi-los, artificialmente, a zero.

    Se empregassem – mesmo que eufemisticamente – os termos “combater” ou “reduzir drasticamente” as reprovações seria mais aceitável. Agora “acabar “, se incorporado um aproveitamento decente, só por milagre. Também poderiam “acabar” com as doenças (mal comparado).

    Aqui p`ra nós que ninguém nos ouve, a terminologia empregue nada mudaria, na prática. Mas, ao menos, não seria tão escandaloso.
    Pensando bem, o sistema (manhoso e facilitista ) que agora querem introduzir , já há muito foi “implementado” nas nossas escolas: são conhecidos agrupamentos onde, nos nove anos de escolaridade (do 1º ciclo ao 9º ano) – abarcando largas centenas de alunos – a taxa de reprovações foi zero (ze-ro) . Em muitos outros, aproximou-se.Por isso…

    Quanto às consequências , já tudo está dito e redito. Seria ocioso alongar-me.

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