Aulas assistidas, para quê?

observacao-de-sala-de-aula-getty-images.jpgA situação dos professores que neste ano lectivo, por conta da recuperação de tempo de serviço, progridem para o 3.º ou o 5.º escalão, e que andam por estes dias a ter aulas observadas, lembra a velha rábula do Gato Fedorento

– Vais ter aulas assistidas?
– Vou.
– Mas já foste avaliado?
– Fui.
– E a nota das aulas, vai contar para alguma coisa?
– Não.
– Então tens mesmo de as ter?
– Tenho.
– Ou seja, não contam para nada…
– Não!
– Mas têm de se fazer…
– Têm!…

A situação, surreal, é o resultado de duas coisas. Uma é a forma displicente como o ME gere a carreira e as progressões dos professores emitindo, em vez de despachos ou outros normativos, “notas informativas” sem valor legal. O que permite adaptar procedimentos, mas não passar por cima de exigências legalmente previstas, como é o caso de uma observação de aulas que se tornou, no caso destes colegas que já foram avaliados, um “requisito” completamente inútil.

A outra realidade aqui evidenciada é que se continua a dispor, a custo zero, de trabalho suplementar realizado pelos professores que é abusivamente roubado ao seu tempo de descanso ou de trabalho individual. Faz algum sentido obrigar um professor a deslocar-se a outra escola para avaliar o exercício profissional de um colega e a produzir os respectivos registos, sabendo-se que isso não irá influir, como era suposto, na avaliação de desempenho?

Como é evidente, se tivessem de ser pagos os custos reais desta actividade inútil, ela teria sido rapidamente descartada. Mas como se conta que os professores dispensem a sua boa vontade, o seu tempo e mesmo os seus automóveis individuais para realizar estas itinerâncias, a ordem é para que se continue a alimentar a farsa de uma avaliação de desempenho rigorosa e exigente.

9 thoughts on “Aulas assistidas, para quê?

  1. Não me parece bem que seja o docente a pagar do seu bolso a deslocação, nem que o processo demore uma eternidade, atrasando as progressões, mas eu achei que o objetivo principal das aulas assistidas era precisamente para aprender com os colegas, não ter uma nota. Sempre obcecados com as notas. Se não conta, é um desperdiço de tempo. Depois se questionam porque os alunos também não querem aprender e só estão preocupados com a nota.

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    • Aprender com os colegas? Desculpe, mas deixe lá a poesia.

      Aprender o quê, com quem, se todos vivemos o mesmo quotidiano?

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    • Não me parece que este modelo do avaliador paraquedista que chega à escola, observa a aula, preenche a papelada e adeus e até qualquer dia tenha algum intuito formativo. É apenas mais uma barreira à progressão, tirando vergonhosamente partido de trabalho suplementar não remunerado imposto aos avaliadores externos. Até admito que haja alguns que gostam de ser abusados, mas não deixa por isso de ser um abuso.

      De resto, estou disponível para admitir um modelo de trabalho nas escolas que reforce o trabalho colaborativo entre professores. Que rompa com o isolamento profissional dos professores e permita colocar, nalgumas situações, mais do que um professor em sala de aula. Não para avaliar o colega, mas para trabalharem em equipa. E com horas lectivas previstas para o efeito, não a ser feito, uma vez mais, à custa da componente de trabalho individual ou do tempo livre dos professores.

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  2. Sou professora avaliadora há já alguns anos. Sou do 1º ciclo. Foi-me imposta uma formação em avaliação por ter feito mestrado em supervisão pedagógica.
    De facto desloco-me às escolas no meu carro mas entrego sempre boletim de itenerário. Pagam ao km uma ninharia.A minha turma fica com a prof de apoio ou com a coordenadora ou em casa ou distribuída pelas colegas….Para quê?Situação ridícula a deste nosso ministério! lamentável. Poderei recusar esta função?

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    • Tudo isto é uma farsa para limitar ou impedir mesmo a progressão dos professores, enganar a sociedade sob o pretexto de um modelo de avaliação de professores supostamente credível mas que em nada contribui para quaisquer melhoria de práticas a não ser alimentar uma fiscalização entre pares e criar ainda mais stress na já complicada gestão das escolas e dos recursos humanos. Isto para não falar de que ofende princípios éticos e profissionais. Acrescente-se o facto deste trabalho ser feito a custo zero e não estar contemplado nos horários dos docentes, dependendo apenas da boa vontade de cada um, quando não imposto de modo coercivo. Todo este processo atenta aos direitos profissionais nesta classe que tem sido massacrada ao longo dos anos e se vê sistematicamente atropelada e desrespeitada. Ainda mais inglório este processo é num momento em que se pondera a transição de todos os alunos no básico. Parece-me haver uma clara inversão das funções escolares. Então os professores têm ser avaliados sem benefícios reais disso, para serem melhores profestores mas os alunos já não necessitam de cumprir as suas responsabilidades e ser melhores alunos?!… O problema persiste porque os professores acabam baixando a cabeça e aceitando todas as imposições a que constantemente são forçados.

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