As mentiras da inclusão

equidade.jpgDurante anos os ditos meninos “da” educação especial não chegavam ao secundário. Com a escolaridade obrigatória até ao 12.º ano, a realidade é atualmente bem diferente. De repente, alguém lhes quer fazer ver (normalmente os professores de educação especial) que aqueles meninos têm todo o direito de ali estar. […]

Alunos de primeira e alunos de segunda. Estes alunos de segunda recebem um guarda-chuva marcado com um rótulo que lhes sirva e são encaminhados para qualquer apoio “porque deixa de ser problema meu” afinal se não responde ao currículo, (o objetivo máximo) não serve para o meu propósito de professor. Não quero ser mal interpretada. Não falo em passagens administrativas, facilitismo ou insistir em ajudar quem não quer ser ajudado (às vezes a maior aprendizagem é cair para se reerguer de novo). Falo em encarar todos os alunos como “todos os meus alunos” com areias na engrenagem ou não. Com o objetivo máximo de levar ao bom porto de cada um. Não é um percurso solitário, não o deve ser, repercutir uma sociedade assim não faz sentido.

Quando ouvimos numa reunião “Mas o que eu quero saber é se ele faz exame a nível de escola ou exame a nível nacional para saber como trabalhar com ele” ou “Mas este menino então é para fazer avaliação adaptada, é isso?” percebemos duas coisas: A nova função do professor, comandada única e exclusivamente pelos resultados, e o pouco tempo a desperdiçar para ouvir falar e trabalhar com alunos de segunda esperando que alguém lhes diga o que fazer.

[…]

Vamos lá clarificar um cliché recorrente mas necessário de ser aplicado mentalmente: Todos os caminhos são legítimos quando feitos com rigor, e rigor significa definir objetivos consoante os pontos fortes e menos fortes do aluno, as suas expectativas e os caminhos possíveis. Não é nivelar por baixo ou fazer o “teste do coitadinho”, é dar as ferramentas de apoio que lhe permita a caixa correta para conseguir ver para lá do muro sempre assente no compromisso mútuo, não há sucesso sem trabalho e ninguém ajuda quem não quer ser ajudado.

A Universidade é legítima, os cursos profissionais são legítimos, todos os percursos são legítimos desde que haja rigor. E adaptar o currículo e a avaliação quando é necessário não é facilitismo, é justiça.

As reflexões de Maria Joana Almeida incidem sobre um tema complexo e contraditório. Se a inclusão, nas turmas regulares, de praticamente todos os alunos com necessidades especiais, incluindo aqueles que são claramente incapazes de aceder ao currículo, já é problemática no ensino básico, as dificuldades aumentam no secundário.

É verdade que todos os alunos têm direito à educação. Se a escolaridade obrigatória é de 12 anos, então o sistema deve garantir a frequência de todos os alunos. E quando estes precisam de adaptações, apoios, acompanhamentos, tutorias, devem beneficiar de tudo a que têm direito. O problema, que a autora aflora mas não aprofunda, surge quando não são dados meios e condições aos professores para realizar esse trabalho inclusivo, que não se faz apenas de boas vontades e piedosas intenções.

Por outro lado, também se ganharia em introduzir um maior rigor e objectividade numa discussão demasiado assente em princípios vagos e ideias imprecisas e, não raro, contraditórias. Ou, simplesmente, mentirosas.

Por exemplo, o discurso neo-eduquês continua a centrar-se no aluno, esquecendo que a realidade das escolas, e ainda mais das escolas ditas inclusivas, é o professor a trabalhar, isoladamente, com grandes grupos de alunos. A diferenciação pedagógica é muitas vezes invocada como se fosse a chave-mestra que permite resolver todas as dificuldades. Na prática, se as turmas forem grandes, se um número significativo de alunos forem pouco autónomos na aprendizagem, se a dinâmica do grupo potenciar a distracção ou a indisciplina, pouca ou nenhuma margem de manobra restará aos professores para o acompanhamento mais individualizado que permite dar a cada aluno o que ele necessita.

Há também uma verdade insofismável, oportunamente referida no texto: ninguém ajuda quem não quer ser ajudado. Na realidade, ao instituir-se o direito ao sucesso e ao mandar adequar estratégias ao menor sinal de dificuldade, o que se está a fazer nem sempre é a ajustar a altura do caixote de forma a que o aluno consiga ver para além do muro. Por vezes, exige-se aos professores que ofereçam uma visão panorâmica do estádio ao aluno que apenas não vê porque não fez sequer o esforço de se levantar da cadeira.

Pode repetir-se mil vezes que não se quer seguir a via do facilitismo. Na prática, a forma mais fácil – e muitas vezes a única viável – de incluir quem não quer ser incluído, de ajudar quem não se ajuda a si próprio e de mostrar o sucesso retumbante de estratégias e pedagogias datadas e ineficazes é mesmo recorrer ao suave milagre da transformação das “negativas” em notas positivas. O que, eliminando a avaliação externa, se torna ainda mais fácil. Já lá iremos…

Quanto às adaptações curriculares, há uma enorme mentira, a ser alimentada há demasiado tempo, que nos tenta convencer que todos os alunos podem, independentemente dos seus comprometimentos, aceder ao currículo. Que “chegam lá” ao seu ritmo, de forma diferenciada, eventualmente sendo avaliados de forma diferente. E que tal reconhecer que isto não é verdade? Os cortes e as simplificações de conteúdos significam que há aprendizagens que não serão realizadas. Os testes “adaptados” são na verdade testes mais fáceis, aos quais se retiraram ou alteraram as questões que poderiam potenciar o insucesso. Qual é o mal de admitir isso? Porque é que insistimos em inventar pedagogias para o século XXI com base na manipulação e na mentira?Também se deveria acabar com a farsa dos “exames a nível de escola”. Se o aluno não é capaz de fazer o exame, não seria mais sensato e honesto dispensá-lo, explicitando os motivos da decisão? Claro que, se tivessem de pagar à parte estes exames aos professores que os elaboram, como o IAVE faz em relação aos autores dos exames nacionais, a questão estaria resolvida há muito tempo…

Finalmente, a avaliação externa. Não sou um fundamentalista dos exames – critiquei muitas vezes a sua sobrevalorização no tempo de Nuno Crato – mas também não advogo a sua extinção pura e simples. Registo no entanto o profundo incómodo que os defensores dos currículos flexíveis e inclusivos continuam a demonstrar em relação a provas que, com todos os defeitos e limitações que possam ter, acabam por permitir uma coisa muito simples e objectiva: aferir, relativamente a um currículo nacional que continua a existir, as aprendizagens efectivamente alcançadas pelos alunos. Se as medidas inclusivas e flexibilizadoras permitem um sucesso pleno e universal, sem facilitismos nem passagens administrativas, será de esperar, em breve, uma subida significativa das médias dos resultados nos exames. Ou há razões para temer que tal não aconteça?…

6 thoughts on “As mentiras da inclusão

  1. Muito bem, António Duarte!
    Não consigo entender, nem quero na verdade, a utilidade de qualquer reflexão que, “laboratorialmente” não é comprovada.
    Ignorar a realidade é, infelizmente, prática habitual. Da educação às finanças, da saúde à justiça, do planeamento às políticas públicas, …, o fingimento e o “parecer” são a arte da corrupção, do tráfico de influências, de todas as teias bem urdidas para iludir e deslumbrar os portugueses e…, a parte que parecem teimar em não entender, … de os empobrecer!

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  2. Um excelente texto. Parabéns. Na minha Escola, segundo a minha opinião, por um lado, o DL 54/2018 têm sido mal interpretado, por outro, não vejo intencionalidade educativa por parte da equipa da Educação Especial. As opções pedagógicas são realizadas sem se definirem previamente objetivos, não se define o Percurso Escolar para os Alunos da Educação Inclusiva. Na minha direção de turma, no nono ano de escolaridade há uma aluna, da Educação Inclusiva que não sabe interpretar a informação e não escreve frases simples, apenas copia! Esta aluna assiste às aulas de Matemática, Geografia, Inglês, Francês, Ciências com que objetivo? Não assiste ao total de aulas semanais de cada disciplina. Só posso afirrmar, será para se sociabilizar?

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    • Bem, no ensino há tolices para todos os gostos. Três perguntas :

      – Como é possível uma aluna com esse perfil chegar ao 9º ano?
      – Se nada sabe nem possui as capacidades mínimas necessárias (coitada), que faz durante as aulas das exigentes disciplinas que enumera?
      – Ao menos está sossegada e não perturba os restantes alunos?

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