Teach For Portugal: escolas públicas, negócios privados

teachfpJá aqui tinha feito referência ao projecto Teach For Portugal que se tem vindo a instalar sorrateiramente nalgumas escolas do norte do país. Trata-se da ramificação portuguesa de uma organização internacional que pretende, a exemplo de outras, explorar o filão lucrativo das parcerias privadas no sector educativo.

De facto, uma característica comum a este tipo de projectos é serem direccionados para as escolas públicas, preferencialmente as frequentadas pelos “pobrezinhos”. Estão ali para “ajudar”. E, havendo aqui maiores problemas e, quase sempre, falta de recursos para os enfrentar, é difícil não acolher a ajuda voluntária de braços abertos. Já as escolas privadas, essas não abdicam de escolher os profissionais que lá trabalham e os projectos que lhes interessam.

O projecto conta, por outro lado, com a colaboração do ministério e das autarquias, o que é fundamental para garantir financiamentos. De facto, embora sendo uma iniciativa privada, o dinheiro para este projecto é público e vem, fundamentalmente, de fundos europeus.

A Fenprof solicitou uma reunião ao ME para obter mais informações sobre uma organização que coloca nas escolas voluntários que não são professores e a quem, com um curso de Verão de algumas semanas, é dada uma formação básica para trabalhar em sala de aula. Tanto os esclarecimentos agora obtidos, como tudo o que fica ainda por saber, são preocupantes. Tendo em conta o histórico da organização em causa e as nuvens negras que ensombram o recrutamento e a carreira dos professores portugueses, há razões para não ficarmos descansados. É assunto, portanto, para continuar a seguir atentamente.

A seu pedido, a FENPROF reuniu com a Direção-Geral de Educação para saber: 1) O que fazem nas salas de aula os jovens “colocados” pela Teach for Portugal (TFP); 2) Que outros projetos, e a que se destinam, estão a entrar nas escolas; 3) O que ganham as escolas para o futuro, designadamente, no que respeita a novos e melhores recursos; 4) Por que não são as escolas a candidatar-se, com projetos próprios, e, dessa forma, aproveitarem o financiamento comunitário para melhorar, de forma estrutural, a sua capacidade de dar respostas. No final da reunião, as preocupações da FENPROF não só não se dissiparam, como aumentaram.

A reunião realizada confirmou que parte significativa das verbas que resultam do financiamento comunitário destinado a estes projetos se encontra nas CCDR (Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional )e quem se pode candidatar são as Comunidades Intermunicipais (CIM), que, no âmbito do Plano Integrado e Inovador de Combate ao Insucesso Escolar (PIICIE), promovem as mais diversas iniciativas e colocam técnicos (psicólogos, terapeutas, educadores sociais e outros), que, para além de não passarem a pertencer às escolas, deixarão de  nelas trabalhar quando acabar o programa financiado. Acresce que em regiões como Lisboa ou Algarve, por não serem elegíveis para candidatura a estes fundos, apesar de também existirem escolas com muitos problemas e situadas em zonas desfavorecidas, os projetos não existem porque, nesses casos, não há financiamento comunitário. Confirma-se, assim, que cada vez mais o Ministério da Educação deixa de governar e investir na Educação, limitando-se a ver o que se passa, pois, como se confirmou na reunião, a DGE não conhece o que está a acontecer nas escolas e seria esta a entidade que, antes de qualquer outra, deveria conhecer.

Contudo, o Ministério da Educação é parceiro ou, pelo menos, acompanhante, de projetos financiados por fundos comunitários, através de 3 entidades: DGE, DGEstE e ANQEP. Esses projetos são promovidos por empresas privadas, algumas bem conhecidas, que, como é evidente, não se envolvem por filantropia. Se assim fosse, seria natural que os seus projetos fossem desenvolvidos onde não há financiamento comunitário, logo, onde seria necessário outras fontes de investimento, mas não o que acontece.

Também as escolas TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária) podem apresentar candidaturas, mas as dificuldades são mais do que muitas. A saber:

A FENPROF sublinha que o problema, em sua opinião, não é as escolas terem projetos financiados por fundos comunitários, mas o facto de esses projetos não serem das escolas, de o Ministério da Educação não criar condições para que estas possam desenvolver os seus próprios projetos e garantir, a partir deles, mais e melhores recursos, e, ainda, de se dificultar essa possibilidade, dada a falta de pessoal administrativo nas escolas e à retenção de verbas pelo IGeFE, I.P. 

Para saber mais…

5 thoughts on “Teach For Portugal: escolas públicas, negócios privados

  1. Será que está resolvido o problema para a falta de professores para os próximos anos, com professores a aposentarem-se e pouca procura de cursos de formação para professores?

    Um outsourcing para a plebe, com muitos afectos e inclusões…..

    Colégios privados para quem quer boas médias de entrada nas universidades e lá vai fazendo um esforço financeiro….

    E, finalmente, as escolas internacionais com acesso global futuro. Para estrangeiros e lusos ricos.

    Gostar

  2. Por cá, a maioria da população deixa-se facilmente seduzir pela ilusão da escola a tempo inteiro e sem chumbos, fácil e divertida.

    A pequena e média burguesia com demasiadas certezas e pouca visão ao longe continua focada no “curso de medicina” como paradigma de sucesso académico e profissional para os seus filhos. A maioria ainda não despertou para a realidade das escolas internacionais nem se apercebeu de que já hoje um jovem informático, desde que seja competente, ganha mais e tem melhores perspectivas de carreira do que um jovem médico.

    Gostar

  3. Dinheiros públicos – negócios privados!
    Depois das privatizações, das PPP nas obras públicas, depois PPP da saúde,…, chegam as inúmeras “janelas de oportunidades” da educação!!!
    E, viva a municipalização, mais obscura, mais afastada do controle público e da comunicação social, nada ( ou quase) fiscalizável… Vem aí MAIS FESTA!

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.