Um professor “rasteiro” se confessa

praying-silhouettes-7884141.jpgQuando vi, por mero acaso, a lista dos medalhados num recente congresso “pró-inclusão”, chamou-me a atenção o facto de eu também lá constar, integrado num colectivo designado por “professores portugueses”. À partida nada teria a opor, embora pessoalmente prefira outro tipo de homenagens: aquelas que realmente dignificam e valorizam os profissionais da educação. O que passa por confiar no trabalho que realizam, respeitar a sua autonomia profissional e melhorar as condições em que trabalham quotidianamente.

O que na verdade me incomodou foram as más companhias: nesta altura do campeonato, qual é o professor que se preze que aceita ser homenageado ao lado de pessoas como Ariana Cosme ou João Costa? Poderá haver quem ache que os mentores da flexibilidade e da inclusão ficarão para a história da Educação portuguesa. Lamento, não sou dessa opinião. Espero que não fiquem e creio que, se isso suceder, será essencialmente por más razões. Razões essas que tenho, ao longo de dezenas de posts, explanado por aqui.

Volto ao assunto porque constatei que o post original teve alguma repercussão na rede social favorita dos professores. Parece que o dono das inclusões e das pró-inclusões não gostou que um professor sem pedigree académico ousasse criticar, ainda que indirectamente, as suas nomeações.

A prosa é breve mas elucidativa de algo de que muitos de nós nos fomos apercebendo: o discurso fofinho e inclusivo funciona enquanto dizemos ámen aos sábios da flexibilidade inclusiva. Quando se ousa duvidar, criticar, ensaiar pontos de vista divergentes, o verniz não demora a estalar. A arrogância balofa e o argumento da autoridade prevalecem: quem são esses professores “rasteiros” que ousam criticar as nossas escolhas, a nossa sapiência? Esses reles “práticos”, a laborar no erro e no saber de experiência feito? Não percebem que se não fôssemos nós, os académicos que desenvolvem a teoria, dominam o conceito, determinam a “ética”, ainda estariam a ensinar, não na escola do século XIX, mas mergulhados nas profundezas do ensino medieval?

O discurso é lamentável mas, infelizmente, nada surpreendente. Ressoa os dogmas e a intolerância que a entourage de João Costa e os seus acólitos tentam impor como boa nova educativa, para o século XXI e mais além. Com gente desta, o bate-boca é geralmente pouco profícuo. Ainda assim, importa resumir aqui, de forma clara, o meu pensamento, até porque não irei debater o assunto noutros sítios.

Antes de mais, não me revejo na falsa dicotomia entre o saber teórico, “conceptual”, “ético” dos doutores da faculdade e a “prática rasteira” dos professores no terreno. Se há académicos que, em pleno século XXI, ainda precisam de argumentar desta forma, então algumas academias andarão ainda bem piores do que eu pensava… 

Na verdade, é tão limitativo o saber experiencialista como o é a reflexão teórica desligada do trabalho prático. Sobretudo numa área como a pedagogia, que é, no essencial, uma praxis. O que seria de esperar, e que eu defendo, é uma ligação mais frutuosa entre os autoproclamados cientistas da educação e os professores que trabalham nas escolas. Que aqueles tenham a humildade de observar a realidade, de descer ao terreno e comprovar que nem sempre as elaborações teóricas convivem bem com o que é possível e desejável concretizar na prática. Que sejam capazes de valorizar a nossa experiência nas escolas, com alunos concretos e não as meras abstracções que povoam os diplomas legais, os papers e as comunicações aos congressos.

Quanto aos professores no terreno, assoberbados no trabalho diário com dezenas, às vezes centenas, de alunos diferentes, é importante reconhecer que necessitam de tempos, espaços e oportunidades para estudar, aprender e reflectir, regularmente, sobre a sua profissão. Os professores precisam de mais e melhor formação, diz-se frequentemente. Com a colaboração de universitários de diversas áreas, certamente. Mas essa necessidade não pode ser satisfeita remetendo-os ao papel de receptáculos passivos das formatações ministeriais que têm abundado nos últimos tempos. Como trabalhadores intelectuais, os professores devem ser construtores activos e críticos do seu próprio conhecimento profissional. Essa é a primeira e a mais importante dimensão de uma autonomia pedagógica de que muito se fala mas que pouco se valoriza.

O que se tem feito é praticamente o oposto: afogar a profissão em burocracia, ao mesmo tempo que se aumentam as cargas lectivas e não lectivas nos horários. Extenuar os professores pelo stress e o cansaço, o que é uma estratégia clara no sentido de domesticar a profissão, impedindo o desenvolvimento de uma cultura profissional autónoma e transformando os professores em meros reprodutores, obedientes e acríticos, de todas as modas educativas. Uma política que vem de longe e à qual a trupe da flexibilidade inclusiva deu, e continua a dar, um forte impulso.

É por isso que com eles, e enquanto a política for esta, não quero cá medalhinhas…

4 thoughts on “Um professor “rasteiro” se confessa

  1. O meu total apoio ao António Duarte. Compreendo, diria e faria a mesma coisa!
    Jamais me misturaria com medíocres que destroem o ensino público potencializando e criando clientes para o privado…
    Quem quiser, e puder, uma formação sólida em Conhecimento, Saber, Exigência e Trabalho/Estudo para os seus filhos, optará pelas boas escolas privadas!

    Há cerca de 20 anos optei pelo público para os meus mas hoje tudo faria para que neto meu fosse para o privado!

    Basta olhar para o que têm feito na saúde…

    Ou então, os pais que vejam os exemplos das escolas públicas das grandes cidades dos EUA… e até francesas…são filmes que evidenciam realidades que já cá estão e que apenas se vão intensificar… Há muitos filmes à escolha…se é isso que querem para os seus…

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