A quem interessa a falta de professores?

sem-aula.gifA falta de professores, sobretudo na Grande Lisboa e no Algarve, tem estado na ordem do dia. Sabemos que está sobretudo relacionada com horários incompletos e/ou temporários que vão surgindo ao longo do ano escolar. Entre o muito que já se escreveu sobre o assunto, o DN tenta ir um pouco mais longe, procurando descobrir o que pode ser feito para resolver, ou pelo menos mitigar, o problema das milhares de turmas que continuam sem um ou mais professores.

[Quando] existem milhares de alunos sem professores atribuídos e, por isso, com matérias em atraso, “o Ministério da Educação permite às escolas que paguem horas de acumulação a professores que as queiram fazer”, explica o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE). Contudo, “aquilo que os professores ganharão a mais por meia dúzia de horas acrescidas ao seu trabalho não compensa o esforço”.

Assim sendo, a solução é recorrer à bolsa nacional de contratação. Todas as quartas-feiras de manhã são divulgadas as vagas disponibilizadas por cada escola e, na sexta-feira da mesma semana, os professores disponíveis para as preencher. A partir daqui, “os docentes têm 40 horas para se apresentarem na escola e caso não o façam ou não haja colocados o processo repete-se na semana seguinte”, até que seja suprimida a falta de professores.

Em último caso, as escolas podem ainda abrir concurso através da ‘oferta de escola’, um concurso lançado pelo próprio estabelecimento de ensino, que tem autonomia para escolher quem segue para uma determinada vaga. “Tudo a correr bem, quando as escolas avançarem para este concurso, é bem possível que, a nível local, encontrem solução para o problema. Mas aqui corremos sempre o risco de pôr a ocupar a vaga recém-licenciados sem qualquer experiência, por exemplo. Tanto pode correr muito bem como pode correr mal”, alerta o dirigente da associação.

A juntar a tudo isto, há uma reflexão que interessa fazer: estamos a assumir que este é um problema grave e que todos, a começar pelos responsáveis políticos, gostariam de o solucionar. Ora eu não sei se será bem assim. Há que ter em conta que a grande preocupação de quem governa o sector tem sido a contenção de despesa. E que o grosso da poupança orçamental tem sido obtido pelo congelamento da carreira docente e pela criação de entraves à progressão. Assim sendo, há que admitir que voltar à situação que tínhamos há 30 ou 40 anos atrás, em que na falta de professores habilitados, a profissão estava aberta praticamente a qualquer detentor de um diploma do ensino secundário, poderia ser, na perspectiva economicista com que tem sido gerida a Educação, altamente tentador.

Imagine-se o que seria voltarmos a ter escolas repletas de professores contratados aos quais, por falta de habilitações, estaria vedado o acesso à carreira docente. Trabalhariam muito, ganhariam pouco, seriam pau para toda a obra e, sobretudo, nunca atingiriam ao topo de uma carreira na qual dificilmente chegariam, sequer, a entrar.

Este cenário pode parecer absurdo mas, se pensarmos um pouco, começa a fazer sentido. Veja-se a solicitude com que a DGE colabora com uma organização internacional que pretende colocar jovens licenciados noutras áreas a fazer “voluntariado” nas escolas, “ajudando” os professores. Atente-se na panóplia de velhas/novas pedagogias que tentam colocar “o aluno” no centro da aprendizagem, o dr. Google e os vídeos do Youtube como dispensadores de “conhecimento para o século XXI” e os professores como meros facilitadores das aprendizagens. Juntem-se as transversalidades, flexibilidades e “medidas universais” que desqualificam o trabalho docente e baixam a fasquia da exigência aos alunos. Acrescente-se, como cereja no topo do bolo, o desaparecimento gradual de uma avaliação externa com consequências, acabe-se com as pautas escolares em nome da protecção de dados e aí temos a receita do sucesso low cost, numa escola que, para o obter, nem precisará de investir nos professores. Onde a docência voltará a ser uma profissão de recurso e não se valorizará a competência científica nem a autonomia pedagógica dos professores, mas apenas o servilismo perante as orientações superiores.

Claro que este nunca será o modelo de escola que quem pensa e decide estas coisas alguma vez escolherá para os seus filhos. A escola pública afirmou-se, ao longo do século XX, como um poderoso nivelador social, promovendo a igualdade de oportunidades e fazendo funcionar, tanto quanto é possível em economias capitalistas, o elevador social. No século XXI, parece destinada a retomar o seu histórico papel de reprodutora das desigualdades sociais: escola para os pobres e para a classe média-baixa sem grandes aspirações, com baixo orçamento e recursos materiais e humanos a condizer. Um desinvestimento que é ditado pelo desinteresse das elites políticas e económicas, que se há uma ou duas gerações atrás ainda frequentavam as escolas públicas, hoje colocam os seus filhos em selectas escolas internacionais.

7 thoughts on “A quem interessa a falta de professores?

  1. Esta visão do problema que coloca é plausível e as peças parecem encaixar.

    Será que nós, professores, queremos contribuir para esta escola pública? Será que seremos levados por esta corrente convencidos que estamos a fazer a tal escola do séc. XXI, oposta à escola da “seca”?

    Fiquei em baixo de forma ao ler estas reflexões e…já não encontro mais palavras, a não ser que estas reflexões e análises têm de atingir um nível de audiência maior.

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  2. Concordo Fernanda, toda a sociedade devia ler isto, para entender o que os políticos pretendem, com as medidas educativas que implementam.

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  3. À medida que se vai percebendo o teor do verdadeiro “pacto educativo” existente entre os partidos que têm alternado no poder, é importante perceber também o que é que a sociedade, e não apenas os políticos e comentadores do regime, pretendem da Educação.

    Isso implica o debate de ideias, para o qual dou, a partir daqui, o meu modesto contributo.

    Com o envolvimento de muitos mais, poderemos amplificar a discussão…

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  4. Não sei o que se passa nas vossas escolas, mas há casos verdadeiramente anedóticos quanto às avaliações dos alunos. A pressa em se transformar tudo o que foi sendo construído com aquelas grelhas e plataformas que todos os anos eram retocadas são agora para esquecer em menos de 1 mês de aulas. Vire-se a 180 graus. Está tudo errado, afinal. Nota-se que os alunos falam que têm “fichas”. A palavra “teste” foi interiorizada como negativa e vai sendo omitida. Ouvem-se professores a perguntar, em surdina, afinal, como é que vão avaliar. As flexibilidades, os perfis dos alunos, as aprendizagens essenciais, as formações patéticas e a falta total de conhecimentos das direções escolares a nível do pôr em prática disto tudo criam uma entropia generalizada, tentada ser amenizada pela dita escola do séc. XXI e pela culpabilização dos professores que, parece, são todos do séc XX, rótulo que desmorariza qualquer um.

    Os projectos e clubes pupulam e desdobram-se. Qualquer dia, são mais os projectos do que os alunos.
    E ontem, dei por mim a pensar, depois de ler as reflexões do post, que até a este nível se parece vir a estabelecer a escola para ricos e para os outros- os últimos fazem recolha de comida e de roupa em muitos projectos ao longo do ano; os primeiros aprendem e, quando muito, fazem uma semana de trabalho de voluntariado ao longo do ano lectivo. Uns desenvolvem as várias competências e conhecimentos; outros desenvolvem a inteligência emocional misturada em solidariedade social que poderá ser publicidade enganosa quando sairem das escolas e virem que os transformaram em permanentes voluntários dos bancos contra a fome das Jonets e Cotrins do país na melhor das hipóteses. Porque podem até engrossar o Chega /Basta.
    O dia está triste e chuvoso. Deve ser por isso este desalento.

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  5. Não vamos seguramente voltar ao que foi há 30-40 anos. Nesse tempo, a ganância ainda não ultrapassava o decoro de forma tão generalizada e descarada. Não vamos ter escolas repletas de contratados sem acesso à carreira docente, porque ninguém iria ganhar com isso.

    O muito que há a ganhar (milhões e milhões), é quando o Ministério da Educação, ou as autarquias (que já se preparam para meter a unha), recorrer à empresa X ou Y, para contratar a prestação de serviço conhecida por “dar aulas”. Paga à empresa em função do valor que está estabelecido como “custo por aluno”, sendo que a empresa depois só tem que arranjar a mão-de-obra o mais barata possível.

    Esta solução sairá – obviamente – muuuuuito mais barata para o Estado e para os contribuintes, pelo que será seguida eternamente e Portugal será um exemplo a seguir para todo o mundo. Conseguir-se-á o pleno quando o último professor do quadro do Ministério da Educação sair do sistema.

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    • Isso não difere muito do que se fez, durante décadas, com os contratos de associação em algumas zonas do país.

      Julgo que ainda não estarão criadas condições políticas nem financeiras para enveredar por esse caminho que, ao contrário do que se pensa, não sai assim tão barato. Os privados só se metem nesse tipo de contratos com o Estado se o lucro for fácil, substancial e garantido…

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  6. Está a começar a ficar aberta a porta para se acabar com o concurso nacional… e passar-se às contratações pelas câmaras. Acaba-se com a falta de professores em 3 tempos.

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