Brandão continua na Educação

tiagobr-alexleitaoBrandão Rodrigues é o primeiro ministro da Educação a completar um mandato de quatro anos e a ser reconduzido

Apesar de Mário Nogueira ter afirmado há dias que a manutenção do actual ministro da Educação no futuro governo seria uma afronta aos professores, aí está, consumado, o facto de que muitos já suspeitavam: António Costa quer sublinhar a vitória que, no seu entender, obteve na guerra travada contra os professores. De outra forma, como justificar a manutenção no cargo ministerial de alguém que, tanto em termos técnicos como políticos, mostrou ser uma completa nulidade?

A verdade é que isto só se torna possível pelo estatuto de quase irrelevância que a Educação tem assumido. Não há um pensamento estratégico para o sector, o que também decorre do débil modelo de desenvolvimento do país: a aposta em sectores económicos tradicionais e em mão-de-obra pouco qualificada não requer mais nem melhor educação. Ainda assim, manter os jovens na escola por mais tempo – somos dos poucos países do mundo com 12 anos de escolaridade obrigatória – ajuda a reduzir a delinquência – os professores que os aturem! – e a baixar os números do desemprego jovem.

Da equipa do actual ME sai também uma nova ministra: Alexandra Leitão confirma as expectativas daqueles que a achavam talhada para mais altos voos. A futura titular do ministério da Modernização do Estado e da Administração Pública irá voltar a enfrentar, nas novas funções, os representantes sindicais dos professores e dos restantes trabalhadores da administração pública. Na agenda estará a revisão de carreiras, um eufemismo para designar a vontade política de restringir ainda mais as progressões e a massa salarial da função pública…

Foi Leitão quem, juntamente com a secretária de Estado da Administração e Emprego Público, Fátima Fonseca, apresentou aos representantes dos docentes a proposta do Governo, que viria a ser aprovada. Eram dois anos e dez meses, justificados com a necessidade de garantir a “equidade” entre carreiras e a “sustentabilidade” financeira.

A secretária de Estado foi quem representou o Ministério da Educação em todas as reuniões negociais com os representantes dos docentes – o ministro, Tiago Brandão Rodrigues esteve apenas nos encontros mais importantes.

Agora, vai ter nas mãos a tarefa de negociar tudo o que é revisão de carreiras na função pública: professores e não só. Trata-se da primeira vez, desde 2002, que o dossier da Administração Pública sai das Finanças, ganhando um ministério autónomo.

11 thoughts on “Brandão continua na Educação

  1. O execrável igualitarismo que o ECD consagra é penalizador e fonte de “mal-estar” para os docentes com elevadas qualificações académicas e exigente conteúdo funcional. E para o erário público! Ora,como o dinheiro não estica, a retribuição que seria devida aos melhores tem de ser generosamente distribuída pelos “outros”…

    Concretizo.No início dos anos 90, foi criado o SNPL (Sindicato Nacional dos Professores Licenciados) – licenciados por Universidades, note-se.

    O novel sindicato insurgiu-se , com veemência, contra a “carreira única” . Esta aberrante inovação consistiu em colocar ao mesmo nível (!) os docentes com formação universitária e os “colegas” cujas “habilitações literárias ” oscilavam entre o 5º ano das escolas técnicas e qualquer- coisa parecida com o actual ensino secundário. Exemplos : os patuscos “mestres” dos trabalhos manuais e oficinais; os alegres instrutores da ginástica; os emproados agentes técnicos e contabilistas (dos antigos institutos) ; os professores primários e educadores.

    Como se não bastasse o escandaloso nivelamento, a prática encarregou-se – por via do maior “tempo de serviço” – de colocar em vantagem (!) este luzidio pelotão ( em termos remuneratórios e outros ).As consequências estão à vista.

    Assim, numa hipotética revisão da carreira, todo este estendal não poderá ser ignorado. E dentro do possível , porque já é tarde, erradicar as injustiças perpetradas pelos decisores de então . Com o nosso dinheiro e em prejuízo dos vindouros, como se nota.

    Gostar

  2. As inacreditáveis benesses concedidas a milhares e milhares de “professores” daquela estirpe, tiveram um brutal impacto orçamental (nas verbas destinadas aos vencimentos e.. às aposentações).

    Por isso, cara Doutora Alexandra Leitão, remedeie – nas suas novas funções – o que ainda for possível remediar.

    Gostar

    • o que poderia ser remediado já está, corta-se a todos pela raiz, tiram-se 6 anos e tal a todos e assim poucos chegam ao topo da carreira. De resto o que é que se poderia remediar mais? Não estou a ver… até porque também tenho algumas dúvidas que se pudesse ir lá atrás e desfazer o que foi feito há 30 ou 40 anos… à partida isso também não me pareceria justo, independentemente da qualificação que as pessoas tenham, não se lhes pode prometer uma coisa e ao fim de uns anos tirar o que se prometeu, farto de gente que promete coisas e não cumpre já estou eu, quanto mais coisas que já são concretas e não apenas promessas… para que conste, eu tenho uma licenciatura de 5 anos e uma especialização (profissionalização em serviço) de mais dois anos.

      Gostar

      • Caro Paulo Anjo Santos

        Relembro – com todo o respeito e solidariedade – esta triste e conhecida ironia : ” não estudasse, pá ” . Triste, mesmo, pelo que verdadeiramente significa.Vai de encontro ao meu comentário acima.

        Gostar

        • Eu compreendo Maria, mas agora o que haverá a fazer será assumir os prejuízos dessas decisões. Aliás, o não reconhecimento dos 6 anos e tal afecta mais o pessoal mais novo (que terá agora até cerca de 50 anos) do que os mais velhos porque a maiora desses conseguiu progredir até ao topo (ou perto) da carreira. E nos mais velhos é que haverá mais situações das que identificou atrás. Ou seja, a correção vai acabar por ser mais injusta porque acaba por penalizar mais os professores mais qualificados e menos os que nunca tiveram qualificações elevadas… mas os tempos eram outros, na altura o estado não tinha mais ninguém a quem recorrer e, melhor ou pior, muitos daqueles formaram as gerações como a minha e as seguintes que são claramente mais qualificadas que as anteriores… ou seja, eles contribuiram para o desenvolvimento do país, naquilo que na altura era possível.

          Gostar

  3. O problema do igualitarismo é transversal, não podem defender a diferenciação por mérito para professores e o igualitarismo para os alunos, isso é uma falácia, o que pretendem é diminuir consideravelmente a massa salarial do topo, aumentar o tempo entre escalões e introduzir quotas, de modo a que poucos cheguem ao último degrau.
    Massificaram a formação com o objetivo de garantir que houvesse professores para 12 anos de escolaridade, muitos deles apenas a entreter malta que frequenta a escola porque a tal é obrigada.
    Na comparação com congéneres europeus, já somos dos que mais tarde atingem o meio e o topo, a profissão é horizontal, não tem generais. Seria preciso trazer seriedade para a educação, com políticos honestos e competentes. Sem selecionar os melhores na formação inicial e afastando os potenciais candidatos dos cursos de docência com a deterioração das condições de exercício da profissão e a constante humilhação a que os docentes são sujeitos, restarão paliativos eufemistícos travestidos de boas intenções, para colocar o povo contra os privilegiados dos zecos; bons professores nas escolas para ricos (privadas) e professores indiferenciados e baratos nas escolas para pobres, humilhados, desvalorizados e desrespeitados, meros joguetes nas mãos de alunos, pais e tutela.
    Porque não copiam o modelo da Finlândia, de França, da Bélgica, etc.?

    Gostar

    • Inteiramente de acordo.

      Sabe-se perfeitamente que a selecção dos bons profissionais tem de se fazer à entrada dos cursos de formação de professores e não ao fim de 20 ou 30 anos de docência. para passar uma barreira artificial no acesso aos escalões do topo.

      Que uma educação de qualidade depende de um corpo docente motivado e valorizado e que o papel da administração educativa deveria ser o de melhorar as condições das escolas e resolver os problemas que requerem a sua intervenção. Em vez disso, dedicam-se a rebaixar os professores, a desinvestir no sistema e a inventar novos problemas e dificuldades a quem tenta dar o seu melhor, quotidianamente, nas escolas.

      Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.