Curso superior compensa? Já compensou mais…

canudosEis uma realidade que em Portugal se evidencia cada vez mais, quando a valorização académica das novas gerações de trabalhadores suplanta em muito o crescimento da economia: na hora de procurar emprego, as vantagens comparativas da formação superior tendem a diluir-se perante a falta de empregos qualificados que são, naturalmente, a primeira escolha de licenciados e mestres.

Portugal é o país da União Europeia onde a diferença entre as taxas de desemprego consoante a qualificação é menor. E onde a sobrequalificação dos trabalhadores face ao emprego que desempenham é das mais altas.

Se é certo que tirar um curso de ensino superior traz várias compensações para quem se diploma, financeiras e não só, há uma delas cujo impacto ainda não se faz sentir muito em Portugal e que tem a ver com a dificuldade em arranjar emprego. Pelo menos é o que dizem as taxas de desemprego por qualificação.

Tradicionalmente, a escassez de trabalhadores com formação superior era uma garantia quase absoluta de emprego garantido e melhores salários para quem tivesse “canudo”. Mas hoje já não é assim. E por isso tenho dificuldade em aceitar que se continue a iludir os jovens, fazendo-lhes crer que, mesmo tendo pouca apetência para os estudos, ficarão sempre a ganhar se frequentarem um curso superior.

A verdade é que já hoje se emprega mais facilmente, e com melhor salário, um técnico competente com habilitações ao nível do 12.º ano, do que um licenciado com um curso superior que o mercado não valoriza. Sendo que este último acaba muitas vezes em empregos precários a ganhar o salário mínimo. Muitas vezes com excesso de habilitações para as funções que desempenha.

A alternativa para os inconformados acaba por ser em muitos casos, como se sabe, a emigração. O que é a demonstração clara de que outros países encontram soluções satisfatórias para valorizar e empregar mão-de-obra qualificada que, por cá, é tão facilmente descartada.

Um tema estruturante para o nosso futuro colectivo, cuja discussão tem interessado pouco às nossas academias, mais preocupadas em alimentar ideias irrealistas acerca da empregabilidade dos seus cursos. Curiosamente, o assunto também tem estado a ser pouco discutido – ou será impressão minha? – entre os candidatos às Legislativas.

3 thoughts on “Curso superior compensa? Já compensou mais…

  1. Assertivo diagnóstico , caro A. Duarte. De tão delicado e complexo, sem fim à vista, e sem grandes alternativas , a “solução” tem sido esta, na minha lapalisseana opinião :

    a) o Estado não sabe como lidar com a problemática face ao exorbitante número de candidatos que todos os anos , legitimamente, procuram ingressar no ensino superior : se restringe significativamente, “compra” uma guerra social ; se não restringe … bem, é o estendal que descreve . Opta pela segunda opção.

    b) Naturalmente que a segunda opção é ouro -sobre-azul para as Universidades e Politécnicos: mantêm as portas abertas, garantindo o emprego aos seus professores.
    Para o efeito, em ambos os subsistemas , mas principalmente nos politécnicos ,são criados um sem -número de cursos com extravagantes designações ( para serem mais atractivos), sem contemplarem uma área de conhecimento digna desse nome, sem que se possa vislumbrar a menor hipótese de empregabilidae . Ah!, e aproveita-se a ocasião para achincalhar os graus académicos, emprestando os títulos de licenciado e mestre a esses destemidos diplomados – mestre (!) em creche, mestre em fitness e por aí fora. Juro que é verdade.

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  2. Quanto à “valorização académica” de que fala :

    Quando tínhamos apenas três Universidades ( Lisboa, Porto e Coimbra), os licenciados daqui saídos eram reconhecidos e respeitados – e não era apenas pela raridade.

    Agora , infelizmente, não é assim: quando alguém se intitula licenciado – ou mestre ! – teremos obrigatoriamente de saber :

    a) Quando? É um licenciado pré- Bolonha( com 5 anos ) ou um modernaço pós -Bolonha (com 3 ) ?

    b) Licenciado ( ou mestre!) em quê? “Isso” é merecedor de um grau académico?

    b) Mais! Onde (aonde) estudou? Numa Universidade pública, ou privada ? Num formidável politécnico ? Público ou privado? Regularmente ou ao fim de semana?

    Podem dizer-me que “os tempos são outros”. Pois. Mas se estamos , como dizem, na “Era do Conhecimento”, a variação tem de ser, sempre, para mais e melhor , e não o contrário.

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  3. Penso que qualidade e rigor deveriam ser referências comuns no ensino superior, tanto nas universidades como nos politécnicos.
    Claro que quando algumas instituições se tornam sobredimensionadas face à procura, é natural que a procura de alunos a qualquer preço, para garantir os lugares dos professores, leve a situações de um certo facilitismo.

    Não concordo que algumas escolas superiores pouco mais façam do que vender uns diplomas aos estudantes que por lá passam, e que pelo meio das praxes, das noitadas e das farras, lá vão concluindo algumas cadeiras.

    Mas também não apoio a falsa meritocracia que faz dos canudos das universidades e cursos mais prestigiados um passaporte seguro para o mercado de trabalho, independentemente do mérito real dos recém-formados.

    Não sendo fácil, penso que o caminho tem de ser, cada vez mais, olhar para o valor de cada pessoa, para os conhecimentos que tem e o que sabe fazer. E acho que a formação superior tem de ser vista sobretudo nessa perspectiva da valorização pessoal, que é o que o mercado de trabalho acaba também por procurar.

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