A agenda oculta da semestralidade

tiagobr2.PNGPoder organizar o ano lectivo em semestres, aumentando o número de pausas lectivas e passando a ter apenas dois momentos de avaliação quantitativa, foi o engodo que levou muitas escolas e agrupamentos a elaborar e apresentar à tutela os famosos PPIP – Projectos-Piloto de Inovação Pedagógica.

Decisões ingénuas, percebe-se agora, pois a última coisa que interessa à equipa que tutela o ministério é o exercício de uma verdadeira autonomia das escolas. O que pretendem, isso sim, são escolas e, sobretudo, dirigentes escolares que cumpram, por iniciativa própria, as orientações ministeriais.

A sofisticação do discurso neo-eduquês não liga bem com a necessidade de, em matérias pedagógicas, darem ordens directas às escolas. Por isso, em vez do pau, recorrem à cenoura: ao longo destes quatro anos, foram criando um sistema de recompensas com que vão beneficiando as escolas e os directores que mais fielmente cumprem os desejos e adivinham as vontades dos governantes.

Nesta lógica, não é de estranhar o castigo imposto às escolas que pretenderam mexer na organização do ano escolar sem fazer a pretendida salganhada com as matrizes curriculares: os projectos foram rejeitados. Na base dos indeferimentos, uma decisão tomada de calculadora em punho: as alterações curriculares propostas são insuficientes, não ultrapassando 25% das matrizes curriculares iniciais. E ninguém quer saber se as propostas reúnem o consenso dos órgãos representativos das comunidades educativas: não fazem o que nós queremos, é para deitar abaixo. Sem apelo nem agravo.

Quanto à avaliação semestral: julgavam, caros professores, que iam ter menos reuniões de avaliação e menos burocracia avaliativa? Ora vejam como o PPIP mais acarinhado de todos, o do Agrupamento de Cristelo, trata a questão:

A cada oito semanas, os alunos vão ter uma semana de férias, pausa em que haverá uma avaliação e a preparação das semanas seguintes. Trata-se de mais um passo num agrupamento com cerca de mil alunos (desde o pré-escolar ao 9.º ano), que há três anos entrou num Projeto-Piloto de Inovação Pedagógica para combater o insucesso escolar.

Atenção que as férias de oito em oito semanas são apenas para os alunos. Aos professores, espera-os uma maratona de reuniões-duracell, destinadas a produzir o feedback a transmitir aos alunos e a flexibilizar as semanas seguintes.

A escola de Paredes não divulgou ainda o seu calendário escolar, pelo que vos apresento o de um agrupamento de Rio Maior que segue uma linha semelhante de fidelidade canina aos desígnios ministeriais. Que lhes façam bom proveito os cinco “momentos de avaliação” anuais: duas avaliações finais e três intercalares…

semestres-riomaior.PNG

10 thoughts on “A agenda oculta da semestralidade

  1. Nem todas as escolas em regime semestral têm este calendário.
    Na escola onde estou temos:
    2 dias de interrupção em Novembro para fazer as reuniões intercalares.
    Em Dezembro temos interrupção lectiva entre 23 de Dezembro e 3 de Janeiro, SEM nenhuma reunião.
    No final de JANEIRO, de 27 a 31, interrupção lectiva, reuniões nos 3 primeiros dias.
    Pelo Carnaval 2 dias, segunda e terça mas SEM REUNIÕES.
    Na Páscoa interrupção entre os dias 2 e 13 de Abril, reuniões intercalares nos primeiros 2 dias.
    As avaliações do 2° Semestre serão no final do ano, depois das aulas acabarem.

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    • Muito bem.

      Era algo de semelhante que se pretendia experimentar lá para os meus lados. Mas o projecto foi carimbado com um “não autorizo” pelo SE João Costa, algo que, ao que parece, sucedeu à maioria das escolas que se candidataram.

      Interessa por isso denunciar o mais possível esta falsa e hipócrita autonomia. Dão “inteira liberdade” às escolas desde que estas a usem para ir ao encontro dos desejos ministeriais. Mas se o projecto, ainda que assumido por toda a comunidade educativa, não lhes agrada, nem chega a sair do papel…

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      • Porque o regime é semestral.
        Porque há interrupções noutros alturas.
        E a 23 de Dezembro já não há aulas. O último dia de aulas é 20 de Dezembro.

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  2. Nunca tive qualquer dúvida. Era, absolutamente, previsível!

    Vem-se provando o que, infelizmente, aqui também deixei expresso há uns tempos!
    Mas querem ir muito mais longe e não é em benefício dos alunos, das escolas e de um país mais qualificado e conhecedor!

    Gente baratinha, sem ambição, acrítica e servil é uma grande vantagem competitiva no feudalismo do séc. XXI…No passado recente eram os “Países do Sul” (entenda-se: da América Latina, África e generalidade da Ásia) que a ofereciam…Hoje, tencionam oferecer este tipo de vantagens nos “países sulistas do NORTE”.

    Se vamos continuar a ter gente rica e poderosa? – Claro que sim – objectivamente, têm vindo a crescer” ( mas atente-se a quem e como!!!) mas vamos ter cada vez mais remediados, pobres e indigentes!

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    • Esquecia a conclusão: uma coisa é o futuro próspero, garantido, sucessório dos seus… outra bem diferente e para a qual se estão simplesmente a marimbar é o futuro dos nossos filhos, das próximas gerações de portugueses.

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