“Eu não aprendi nada!” – O fracasso da escola do século XXI

Pontukse- koulu-Lappeenranta.jpgA aprendizagem baseada em projectos é uma ideia antiga que está a ser recuperada em vários países, Portugal incluído. Os seus defensores acreditam que a pedagogia construtivista é mais motivadora para os alunos, propicia situações de aprendizagem mais enriquecedoras e significativas e, sobretudo, está mais bem adaptada às necessidades e aos desafios do século XXI.

A Finlândia tem liderado os rankings do sucesso educativos no continente europeu. Contudo, num desafio arriscado – em equipa que ganha não se mexe, diz-se no mundo do desporto – o país abraçou a partir de 2016 a vaga recente de velhas pedagogias recauchutadas à era da internet. Sendo cedo para ter resultados conclusivos, vão-se ainda assim acumulando as evidências de que nem tudo está a correr bem…

Aino Piironen, do sexto ano, descobriu que a necessidade de criar o seu próprio plano de estudo era um desafio insuperável, depois de uma epilepsia infantil a ter deixado com leves dificuldades de memória.

Os pais de Aino acreditam que a escola falhou na sua tarefa principal de educar Aino. Do seu ponto de vista, o ambiente de aprendizagem moderno da escola dificultava-lhe a concentração e ela também precisaria de mais ajuda de professores e funcionários para apoiar a sua memória.

Outra área de dificuldade para Aino foi quando todos os membros das unidades separadas se reuniram no espaço aberto, ou “praça do mercado”. As crianças geralmente procuravam um lugar para sentar nos assentos almofadados enquanto os professores sentavam em uma mesa no meio da sala.

“O início do dia na escola foi caótico”, lembrou Aino.

O mais difícil de tudo, segundo Aino, era a falta de ensino. Os alunos começavam o dia trabalhando no seu próprio plano semanal, aproximando-se dos professores no meio da “praça do mercado” para aconselhamento quando necessário.

“Foi difícil para mim que a professora não tivesse ensinado de início, mas em vez disso tivéssemos de ser capazes de aprender as coisas sozinhos”, disse Aino. “Eu não aprendi nada.”

O problema de fundo, incompreendido por tantos teóricos da Educação, é que a abordagem construtivista não é geralmente a mais adequada a alunos com dificuldades de aprendizagem, falta de conhecimentos de base ou pouca autonomia. Como qualquer professor experiente sabe, os bons alunos aprendem praticamente de qualquer maneira. Pelo que as melhores pedagogias, numa escola inclusiva, não são as que permitem “fazer flores”. São, isso sim, as que possibilitam que todos os alunos adquiram uma base sólida de conhecimentos, que depois poderão aplicar na resolução de problemas, no desenvolvimento de projectos e em novas aprendizagens. São aquelas que se adaptam à diversidade do público escolar, não deixando ninguém para trás. Ao contrário do que sucedeu, neste caso, com Aino e alguns dos seus colegas.

As metodologias de projecto nos primeiros anos do ensino básico podem proporcionar experiências interessantes aos alunos, mas não me parece que devam ser a base do trabalho pedagógico. Enquanto não estiverem adquiridas e consolidadas as principais competências ao nível da leitura, escrita e cálculo, dificilmente se farão aprendizagens significativas através dos projectos. Construir a casa pelo telhado pode ser, nos sonhos delirantes de alguns cientistas da educação, uma ideia desafiadora. No mundo real, resulta geralmente num monte de escombros.

Voltando à história de Aino, apesar de tudo com um final feliz: as dificuldades da aluna resolveram-se com uma simples mudança de escola. Num ambiente mais próximo das metodologias tradicionais, a criança mostrou de imediato a sua satisfação, sentindo-se segura graças à orientação e à ajuda, sempre que necessária, de um professor. A ansiedade desapareceu e não precisou sequer de apoios especiais, beneficiando unicamente dos que já estavam estabelecidos na turma em que se integrou.

2 thoughts on ““Eu não aprendi nada!” – O fracasso da escola do século XXI

  1. Revejo-me no que escreve com coragem, preto no branco. Há infelizmente muitos que atacam estas vagas e modas que já mostraram o que valiam na prática em Portugal , mas depois, para mostrar que são capazes de fazer projetos, vão na onda . Resultado: no básico, os filhos dos professores, os filhos de licenciados são sempre os líderes dos trabalhos de projeto e leva-se um ano inteiro a estudar o ciclo do pão, por exemplo. O que aprenderam os que não são meninos com capital cultural à partida, não me parece ter sido grande coisa. Só fiz algum trabalho parecido com trabalho de projeto (parecido note-se, não era pluridisciplinar nem inter) em turmas homogéneas e no SECUNDÁRIO!!!!!!!! É aí que se pode iniciar a investigação com alguma autonomia, quando algumas bases teóricas foram adquiridas e cada um dos alunos pode ir procurando informação. Mesmo assim, o que muitos faziam era copy/paste da internet , alguns nem liam o que tinham sacado 🙂 . Foi um castigo para perceberem , por exemplo, que era obrigatória a indicação da fonte consultada (incluindo sites e a data da consulta). Vi exposições de trabalhos de alunos onde a fonte era inexistente, imagens, textos , tudo muito bem escrito, tudo obviamente sacado da internet… Abstive-me de criticar pois o resultado era nulo e ainda criava inimizades com colegas…
    Há muitos anos, quando havia Economia no 9º ano fiz uma experiência interdisciplinar com a colega de História. Foi muito gratificante e foi trabalho a dobrar :-). Acho que posso dizer que os alunos gostaram muito. Mas na altura a escolaridade obrigatória acabava no 9º ano, eram turmas homogéneas, interessadas, não havia internet.

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.