Evidentemente!

papelada.JPGGrupo de peritos nomeado pelo Ministério da Educação frisa que o ensino da Matemática está a ser norteado por documentos “inconciliáveis” entre si e que todos, incluindo as novas aprendizagens essenciais, devem ser revogados de modo a dar corpo a novo currículo, que se distinga também pela sua curta extensão.

Nem os programas aprovados por Nuno Crato, nem as aprendizagens essenciais sufragadas por Tiago Brandão Rodrigues. Para que a Matemática possa vir a ser um caso de sucesso em Portugal é preciso começar do zero, com um novo currículo que “deverá substituir todos os programas” actualmente existentes.

Já o escrevo há vários anos: em vez de um currículo construído de sucessivas camadas eduquesas – programas, metas, orientações, aprendizagens -, resultado incoerente de cada governo, cada associação profissional ou científica, cada grupo de trabalho, querer deixar a sua marca, há que deitar tudo fora e ter a coragem de construir de novo e de raiz. O que o grupo de peritos propõe para a Matemática deveria aplicar-se à generalidade das disciplinas.

Os documentos estruturantes do currículo deveriam ser mais objectivos, claros e concisos. Concebidos como instrumentos de trabalho e não como intragáveis exercícios da erudição barroca dos seus autores, o que sucede demasiadas vezes.

E não, não necessitamos de metas de aprendizagem, como pretendia Nuno Crato, nem de aprendizagens essenciais, como defendem os actuais governantes, para saber o que devemos ensinar. Precisamos apenas de um programa para cada disciplina. Curto, claro, exequível, que defina com rigor aquilo que todas as crianças e jovens que frequentam o sistema educativo português devem aprender. 

Ao contrário do que parecem pensar os responsáveis educativos, na sua defesa insensata de flexibilidades a 100%, existe uma coisa que se chama o currículo nacional, que é para ser cumprido e respeitado. Não consta que a Lei de Bases do Sistema Educativo tenha sido revogada…

7 thoughts on “Evidentemente!

  1. Aprecio a sensatez e objectividade com que A. Duarte aborda os temas.

    Pedindo licença, vou parafrasear (ou copiar) um excerto do seu texto . De facto, não precisamos dessa panóplia de chavões tão generosamente sussurrados pelas “ciências” da educação : “metas,” “aprendizagens essenciais” e o diabo a sete.

    Bastará que o programa de cada disciplina enumere e explicite as matérias ou conteúdos que os alunos devem aprender e … está !

    Deixem-se de m…..! (esta exclamação é minha )

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  2. “Precisamos apenas de um programa para cada disciplina. Curto, claro, exequível, que defina com rigor aquilo que todas as crianças e jovens que frequentam o sistema educativo português devem aprender. ”

    Ouve-se por aí que há escolas com professores em reuniões permanentes a operacionalizar com base nas aprendizagens essenciais e no perfil dos alunos vertidas em novas matrizes de planificações. Basicamente, era o que já se fazia, mas depois inserem aquela terminologia quase indecifrável e logo aí fica-se a pensar o que é que se pretende, tal o pretensiosismo da coisa. Ou seja, fica-se na terminologia e semiótica da coisa.

    Os conhecimentos e conteúdos ficam submersos, totalmente submersos, no meio de toda esta loucura terminológica e de competências estratégicas e mais interculturais e mais o diabo que as carregue. Sendo, como se diz no texto está tudo colado em infinitas camadas de reformas, mini reformas , decretos-lei e articulados que se escluem uns aos outros ou, pior, sei lá, que se vão tornando numa verdadeira osmose do disparate.
    Estou farta por nós, professores, pelos alunos e famílias

    Evidentemente e obviamente, eu demitia este pessoal todo que tem vindo a surgir recorrentemente que nem cogumelos (literal e metaforicamente).

    Abaixo a indigência!

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  3. Perguntava há uns posts atrás o A. Duarte, porque é que não se fala na Educação na discussão do estado da nação.

    E reafirmo que não se fala porque ninguém se entende e ninguém ENTENDE.

    A não ser aquela coisa das palavras cruzadas que apareceu por aí- os professores não ensinam porque estão sempre em greve, ou coisa do género. A isto se resume o estado da Educação da Nação.

    Dizia Nuno Crato:

    “O Ministério da Educação deveria quase que ser implodido, devia desaparecer, devia-se criar uma coisa muito mais simples, que não tivesse a Educação como pertença mas tivesse a Educação como missão, uma missão reguladora muito genérica e que sobretudo promovesse a avaliação do que se está a passar”.

    Percebe-se a visão que Nuno Crato pretendia passar – a escola como empresa que se gere por métodos empresariais, com o ME como mero regulador.

    Agora temos uma visão de autonomia, misturada com o laissez faire da municipalização da Educação (?! algo não bate certo) e com todos os normativos despejados sobre as escolas.

    E não se consegue sair da indigência e pôr cobro a isto.

    Evidentemente.

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    • A única leitura que permite dar algum sentido a isto tudo é seguir o rasto do dinheiro. O dinheiro que dizem que não há para a educação, que para outras coisas ele aparece.

      A propalada autonomia das escolas existe apenas na medida em que se espera que elas resolvam os seus problemas sem chatear o ministério. Todavia, em matérias que envolvam dinheiro ou afectação de recursos, aí temos as omnipresentes plataformas electrónicas a controlar tudo o que se passa nas escolas de norte a sul. Com o desaparecimento das direcções regionais, nunca o centralismo lisboeta foi tão controlador.

      E depois temos a municipalização, que num quadro de crescente autonomia das escolas não faz qualquer lógica. Na verdade, faz todo o sentido. Porque o que se pretende é que as câmaras e comunidades intermunicipais se organizem para, sob a capa de diversos “projectos” ir buscar dinheiro comunitário para financiar despesa na educação.

      A referida indigência assenta no facto de não haver uma verdadeira política educativa, pensada segundo os interesses e as necessidades do país. A educação é vista como uma despesa e nessa perspectiva faz-se no sector, não o que deve ser feito, mas tudo o que é susceptível, ou de gerar poupanças, ou de alcançar novos financiamentos.

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  4. Mas quais conteúdos? Isso está tudo na net.

    O que interessa são as competências, as “soft skills” nomeadamente, pois as “hard” assustam.

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    • As competências “soft” também não precisam de profissionais muito qualificados.

      Quando faltarem professores a sério, ou não lhes quiserem pagar o que é devido, podem meter animadores ou mediadores culturais a entreter os meninos.

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