Alunos não querem aulas de tutoria – e fazem bem!

tutoria.jpgO programa de tutorias para alunos que tenham dois ou mais “chumbos”, que foi criado pelo Governo há dois anos, continua a não ser capaz de integrar uma parte do público ao qual se destina. De acordo com uma análise da Inspecção-Geral da Educação e Ciência (IGEC), feita no ano lectivo 2017/18 e que é agora publicada, não foram abrangidos 26,1% dos estudantes que estavam em condições de ter este apoio. Em muitos casos, são as próprias famílias que não autorizam a participação dos seus educandos, mas há também escolas que preferem encaminhar os jovens para outro tipo de respostas.

A notícia completa é só para assinantes, mas só o parágrafo introdutório já tem muito que se lhe diga.

Assinale-se, antes de mais, a incongruência entre o discurso da autonomia, que remete para as escolas a responsabilidade de decidirem a melhor forma de resolver os problemas e a insistência em respostas uniformes e formatadas, como se fossem respostas universais ao insucesso escolar. A verdade é que não são.

Depois, a falta de flexibilidade deste modelo de tutorias grupais: são necessários dez alunos com duas ou mais retenções que queiram aderir ao programa. Em muitas escolas não se conseguem formar grupos de tutoria apenas porque não há alunos em número suficiente – o que não deixa de ser um bom sinal. Significa que o sucesso está a ser promovido por outras vias, menos penosas e mais eficazes para os alunos.

O que nos leva ao mais importante: em vez de avaliar apenas o sucesso maior ou menor da aplicação de políticas centralmente decididas, avaliem-se a qualidade e a pertinência dessas mesmas políticas. Porque há realidades que se percebem bem no quotidiano escolar mas escapam facilmente a quem, do alto da sua sabedoria e dos seus gabinetes com ar condicionado, julga ter encontrado as soluções geniais que os professores no terreno não são capazes de descortinar.

Ora a verdade é que a eficácia das tutorias depende muito da relação que se estabelece entre o professor tutor e o tutorando. A qual implica um trabalho individualizado ou, quando muito, em pequeno grupo, reunindo alunos que tenham um mínimo de afinidades pessoais e/ou um percurso escolar comum. Percebe-se a ânsia de produzir sucesso sem gastar dinheiro, mas a realidade é que a dinâmica de uma tutoria com dez alunos em simultâneo estará mais próxima da de uma aula tradicional do que do acompanhamento de proximidade que teoricamente se pretende.

Por último, acrescente-se que também os alunos e as famílias rejeitam, muitas vezes, a tutoria que lhes é proposta. Além do sentimento de inutilidade, há outro factor que pesa: o acrescento de quatro tempos semanais ao horário lectivo – na prática, uma tarde suplementar “de castigo” na escola. Para miúdos que tendem a gostar pouco de estar fechados numa sala de aula, esta abordagem acaba por ser, muitas vezes, contraproducente.

E alguns, mostrando ter mais juízo do que os pedagogos encartados do ME, conseguem eventualmente perceber que, em alternativa às dúbias tutorias, o empenhamento nas aulas pode por ser o caminho mais directo para o sucesso…

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