Aferição do 2.º ano a Matemática: uma prova para adultos?

afer-mat-2.PNGDo muito que já se escreveu e disse sobre os exames nacionais, há uma ideia que se vem reforçando: de um modo geral vêm-se tornando mais enquadrados nas matérias leccionadas, claros na formulação das perguntas, bem estruturados, acessíveis aos alunos. De facto, uma rápida ronda pela imprensa mostra-nos que a prova de Filosofia agradou a alunos e professores, a de Português também correspondeu às expectativas e mesmo na de Física, o uso da calculadora gráfica, que tinha suscitado alguma polémica, ficou circunscrito a uma única questão.

Esta realidade torna ainda mais incompreensível o que se passou com a prova de aferição de Matemática do 2.º ano de escolaridade: exercícios complexos, enunciados demasiado extensos, linguagem nalguns casos desajustada ao nível de vocabulário dos alunos. E até, aparentemente, um erro científico, que obrigava os alunos a assinalarem uma afirmação incorrecta para acertarem na resposta que supostamente estaria certa.

Tratou-se, em suma, de uma prova para crianças feita como se fosse dirigida a adultos. Como muito bem explica Guida Santos, uma professora que fala do que sabe e, ao contrário de tantos autoproclamados especialistas, sabe do que está a falar:

Antes do grau de dificuldade que se apresenta às crianças a nível matemático, há que ser conscientes da exigência a nível da leitura: vocábulos de leitura complexa; exercícios demasiado extensos; excesso de figuras num só exercício; demasiadas alíneas. 

A leitura é crucial para a compreensão; uma criança de 6/7 anos ainda não apresenta a globalização da maioria das palavras, esquece o que leu anteriormente quando esbarra na tentativa de decifração de uma palavra. Não, não vai reler, a extensão é demasiado penosa para o fazer; aquilo dói e tem indicações para terminar o seu trabalho: quer fazer tudo; quer a felicidade e satisfação dos adultos que o acompanham. Regra geral, quando um exercício é extenso ou a linguagem utilizada se  situa fora do seu domínio, fixa a última informação e com ela responde. Responde mal, perdeu informações essenciais. 

Nesta faixa etária, a criança ainda revela muitas dificuldades em se orientar no espaço, o excesso de imagens, num só exercício, fá-la perder-se, desorienta-a e incapacita-a de relacionar as informações.

Quando chegamos à Matemática, a criança já tem negativa, esbarrou na exigência desmedida de quem tem muitos anos e sabe escrever para adultos. Ultimamente, é isso que sinto: adultos que elaboram exigências a crianças de 6 /7 anos, como se estas também o fossem. Esquecem que a aprendizagem se constrói como uma casa: primeiro, tenho que criar condições no terreno para implantar os alicerces, adaptados à realidade que quero.

Os profissionais que elaboraram esta indigna aberração, esqueceram-se que, nesta idade, a criança não detém poder de abstração, não consegue relacionar tantas informações, não detém maturidade para a realizar. Necessita da concretização para, um dia, numa idade que não a sua,  aprender a abstrair-se.

Cá por mim, penso assim: as médias nacionais têm demonstrado que a exigência é superior às capacidades da criança. O nosso maior problema é o constante desrespeito pelos nossos alunos: mereciam um ensino adaptado ao que o seu corpo pode dar – desenvolveriam o gosto, o querer, o brio e a satisfação do saber  fazer.

Lanço-vos o desafio: resolver o que hoje foi exigido às crianças de 6/7 anos. Sei que muitos vão errar.

Não se percebe como é que esta prova se conjuga com a ideia da escola em que cada um aprende ao seu ritmo. Com a ausência de retenções no 1.º ano, que faz com que cheguem ao 2.º crianças com níveis de desenvolvimento cognitivo muito diversos. Alguns, certamente preparados para resolver a maioria dos desafios que esta prova lhes coloca. Mas outros, ainda a soletrar, acabam por se perder logo nas primeiras sílabas dos palavrosos enunciados. Percebo que, quando se faz a opção de aferir aprendizagens, se tente aferir algum conhecimento mais substantivo do que o mero ler, escrever e contar. Mas nesse caso faria sentido, como sempre defendi, aplicar estas provas no 3.º ano de escolaridade.

Porque se persiste em fazer provas deste tipo, insistindo em “aferir” conhecimentos e capacidades que muitos miúdos de 7 anos ainda não adquiriram? Será apenas falta de noção, por parte de quem elabora e autoriza estas provas, do que são as reais capacidades dos alunos desta idade? Ou continuamos a alimentar o mito de que os programas são “ambiciosos” e a escola da flexibilidade mais ” exigente”, os professores é que não são capazes de promover a aplicação dos conhecimentos, desenvolver o “pensamento crítico”, proporcionar “aprendizagens significativas”?

Conhecendo a conversa e a prática de outros carnavais, os professores olham já com conformada indiferença para a forma despudorada como se manipula a avaliação externa para fins políticos. O mais preocupante são, isso sim, os efeitos negativos que estas provas desproporcionadas e despropositadas têm sobre os alunos, numa fase em que o gosto e o estímulo em torno da aprendizagem têm uma importância crucial. Usar crianças de sete anos para alcançar ganhos políticos, tentando insensatamente provar não se sabe bem o quê é, a meu ver, um crime sem perdão.

11 thoughts on “Aferição do 2.º ano a Matemática: uma prova para adultos?

  1. Quem elaborou a prova desconhece – em absoluto – Piaget . Vale uma aposta?

    Pensamento ” concreto” ou pensamento “abstracto” é o mesmo . Nunca ouviram falar em semelhante coisa.

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  2. E vem-me à memória um exame de matemática, já nem me lembro de que ano era (básico), em que se iniciava o exercício com uma extensa introdução sobre o sol, a praia e o Verão e as férias e de como era bom nadar e estar deitado na areia desde que se evitasse o período entre as 11:30h e as 17:00h por causa dos raios solares, mesmo que se usasse um bom protector solar (nunca abaixo do factor de protecção 50) por causa das alergias dérmicas e dos melanomas.
    Após isto, pedia-se ao aluno para resolver um qualquer cálculo relacionado com as horas de chegada ou saída da praia.

    E eu que conhecia bem o meu mais novo, pensei:- Da janela da sala onde o rapaz está vê-se a praia não muito ao longe e mais o areal e o mar azul. O rapaz vai ler esta introdução, olhar pela janela, inspirar toda aquela situação de cor e movimento e nunca mais vai chegar ao cálculo da hora de saída da praia.

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  3. Eu vigiei a prova numa sala onde estavam alunos com medidas do 54 e 55.
    Havia um misto de exercícios simples e outros complexos.
    A colega tem razão nalguns aspetos, isso é inquestionável, porém dá-me a sensação que está com medo dos resultados e alguma da sua argumentação é confrangedora.

    PS. Eu resolvi a prova todinha enquanto ia lendo o enunciado.

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    • ” PS. Eu resolvi a prova todinha enquanto ia lendo o enunciado”.

      A sério, António ? Parabéns, V. é genial!

      Que idade tem ?

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        • Entendámo – nos, caro António :

          como tanto se ufanou de ter resolvido uma simples prova do 2º ano ( ou da 2ª classe dantanho) , a minha curiosidade residiu , apenas, em saber se V. é um adulto ou uma criança.

          Sem ofensa. Uma pequena ironia , até porque hoje é sábado…

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          • Como lhe disse, tenho a certeza de que a Maria captou a minha ironia na resposta que dei. Aliás, não me passa pela cabeça que a caríssima tenho lido o meu comentário de forma literal. Jamais!

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  4. Claro, António.

    Subliminarmente, apenas quis trazer à colação as teorias de Piaget no que toca ao pensamento “concreto” (inerente às crianças) e ao pensamento “abstrato” ou “formal” (inerente ao adulto).Por isso me “interroguei” se a prova era para crianças de 8 anos ou para gente crescida . Admito ter sido infeliz na forma como me expressei e, por isso, penitencio-me.

    Ainda ontem, escandalizando-me com a extrema superficialidade de um exame do secundário , o qual incidia numa área da minha especialidade, não me contive e exclamei . : ” isto até eu sei !! “. Alguns olharam-me de soslaio…

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    • Maria, o meu comentário inicial não lhe era dirigido, mas à colega que deu origem ao post do AD e que afirmou que havia professores que não saberiam resolver parte da prova. Daí surgiu a minha resposta irónica.

      Sobre facilitismos, na minha escola, entre sétimo e décimo segundo anos, excetuando o oitavo, houve UMA retenção. UMA!

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