O pedagogo egocêntrico

jose-pachecoLuís Filipe Torgal escreve sobre a vaga neo-eduquesa que, sob o pomposo nome de autonomia e flexibilidade curricular dos ensinos básico e secundário, está novamente a tomar conta do ensino em Portugal.

O texto é especialmente interessante, pois antes de demonstrar as contradições e as imensas confusões do novo eduquês – um tema a que voltarei – começa por contextualizar o aparecimento, entre nós, das não-tão-novas pedagogias, com especial destaque para o Movimento da Escola Moderna e a Escola da Ponte.

O Governo e os seus leais funcionários do Ministério da Educação, pressionados pelas organizações internacionais e por uma nebulosa ideologia igualitarista escorada em pretextos economicistas, decidiram declarar guerra ao insucesso escolar. Para isso, criaram um novo «eduquês» que apelidaram de autonomia e flexibilidade escolar dos ensinos básico e secundário — designação desvendada num pacote prolixo de diplomas mais ou menos herméticos plagiados de documentos curriculares provenientes de meia dúzia de países mais ilustrados e prósperos do que Portugal e inspirados nas filosofias da Escola Moderna.

A Escola Moderna não é invenção nova, pois remonta ao início do século XX. Foi uma notável filosofia educativa teorizada por diversos pedagogos e bafejada por ideologias anarquistas e socialistas. Ajudou a combater o ensino elitista, magistral, teórico, confessional, misógino, empedernido e repressivo de outros tempos. Abraçou extraordinários desígnios humanistas já incorporados nos sistemas educativos contemporâneos. Mas também conceções controversas, românticas e lunáticas. Por exemplo, José Pacheco, missionário nacional da Escola Moderna e criador da Escola da Ponte, a qual, entretanto, deixou para pregar a sua boa nova no Brasil, defende, nutrido de certezas, uma escola sem divisão de ciclos de ensino, sem turmas, nem aulas, sem horários, nem testes, sem exames, nem reprovações, onde os alunos brincam a aprender e são felizes. Os políticos que nos governam ainda não arriscaram promulgar este modo final da história da educação.

Ora aqui é que a porca torceu o rabo. À espreita lá do outro lado do Atlântico, o prof. Pacheco não gostou que se metessem com ele e com a menina dos seus olhos. E abandonando a pose sedutora de tele-evangelista que, com a idade, tem apurado, usou a caixa de comentários do jornal para destilar a sua profunda intolerância à crítica – uma faceta que já lhe conhecia, mas que habitualmente anda dissimulada nas suas aparições públicas…

É confrangedora e atrevida a ignorância do escriba. É insultuosa e mentirosa a referência à minha pessoa. Mas que Deus lhe perdoe, porque ele não sabe o que diz. Estarei em Portugal, entre Junho e Julho. Aceitarei conversar com o autor do artigo, em público. Está convidado para o debate construtivo e fundamentado, num dos eventos em que irei participar. Acaso recuse este convite, concluirei que para além de ignorante e caluniador, é cobarde.

Tentar desqualificar os críticos chamando-lhes ignorantes, aceitar que falem de nós e dos nossos projectos apenas para os elogiar, recorrer ao insulto ou ao patético desafio para um duelo mediático ao cair da tarde – eis, no seu esplendor, a escola de cidadania e de valores de mestre Pacheco. E Torgal, será que se deixou intimidar? A resposta à altura deixa bem claro que não…

JP dogmatizou as suas teorias sobre educação. Revela uma humildade enganadora, pois julga-se bafejado por Deus e detentor da verdade suprema, o que é uma atitude bizarra para um prosélito da tolerante Escola Moderna! Quem pensa de forma diferente é, segundo JP, ignorante, insultuoso, mentiroso e outras coisas mais. Reagiu de forma trauliteira à minha visão sobre a educação, a qual, afinal, reproduz, a opinião de milhares de professores que trabalham há anos nas escolas deste país, em condições bem difíceis. Depois de me insultar, desafiou-me para um duelo mediático. Ora eu já não tenho idade, nem feitio, nem paciência para participar em espetáculos sobre teologia educativa, que, neste caso, apenas visam idolatrar o descomunal ego de JP.

Precisamos de mais professores a defender publicamente o nosso trabalho e a dignidade da nossa profissão. Sem medos nem hesitações perante a pretensa superioridade moral dos autoproclamados gurus educativos, do século XXI ou de mais além.

12 thoughts on “O pedagogo egocêntrico

  1. Li ontem este texto.
    E, tal como o António, também fui ler a caixa de comentários.

    Desde o ano passado que na escola renascem grupos de apoiantes das ideias do professor J. Pacheco , calendarizam-se reuniões e visitas guiadas à escola da Ponte.

    Nada de mal. É sempre bom debater-se estas questões.

    Não conheço pessoalmente o professor J. Pacheco. Há uns bons anos comentava alguns dos seus textos no Educare. E nunca estava a 100% de acordo com o que escrevia nem com o modo como respondia. Especialmente com o modo como respondia.

    Lembro-me de ter lido um texto em que afirmava que as professoras (sim, no feminino) mais velhas (ainda faziam formações, pelo que não cheguei a perceber a que faixa etária se estava a referir) que participavam nas suas acções de formação estavam completamente ultrapassadas pedagogicamente, não queriam saber das novas pedagogias e abordagens, contestavam o que o professor dizia e, por isso, eram responsáveis por serem entraves neste projecto de expansão das suas ideias.

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    • Eu também recordo essas charlas no Educare e alguns comentários contestatários que por lá deixei. Os textos do autor ainda por lá andam, julgo, mas os comentários desapareceram numa qualquer remodelação do site. Logo aí me apercebi de que o prof. Pacheco gosta de evangelizar, mas aceita muito mal a crítica às suas ideias.

      Não tenho dúvidas de que a Escola da Ponte e o seu principal mentor têm há muito um lugar cativo na História da Educação portuguesa. Agora também me parece que José Pacheco se tornou nos últimos anos uma caricatura de si mesmo, naquele afã obsessivo de vender as suas teorias cada vez mais radicais e, diria mesmo, totalitárias. Porque o homem viu a Luz e quer converter toda a gente à sua religião. E, qual inquisidor dos tempos modernos, diaboliza tanto os hereges como os infiéis.

      Comigo não funciona. Sempre tive mais dúvidas do que certezas e quase sempre detecto à légua as profundas contradições em que inevitavelmente incorrem os que se acham donos da verdade…

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  2. “- o desenvolvimento de mecanismos de monitorização rigorosos e de partilha de
    informação, com enfoque no percurso escolar dos alunos em níveis sequenciais, com
    vista a avaliar com fiabilidade o impacto das aprendizagens e melhorar a sua ação
    educativa, bem como a facilitar o processo de integração dos alunos nos ciclos
    subsequentes;”
    Retirado do plano de melhoria do Relatório de Avaliação Externa da Escola da Ponte.
    Não encontramos dados claros sobre a sequência académica dos alunos, incluindo a frequência Universitária e o acesso às variadas profissões, para uma escola fora da caixa, que se afirma melhor e mais produtiva, essa informação é fundamental. Os alunos serão mais livres e felizes na Escola da Ponte? Talvez, mas não sei se a satisfação desse desígnio bastará para a maioria dos encarregados de educação. Pode haver muitas crianças educadas em casa e noutros contextos muito felizes e livres, mas sem preparação para acesso a formações e profissões exigentes que exijam elevadas qualificações.
    A educação é um processo moroso e difícil desde sempre e não há processos mágicos, o que funciona com uns, não funcionará com os outros e a massificação, necessária para conter custos, não pode, sob circunstância alguma, pôr em causa a exigência e a oferta de um ensino de qualidade, que permita oportunidades para todos; os que tenham ambições exigentes e os que não veem no estudo a satisfação da sua ambição.

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  3. Já mais de uma vez assisti aos debates do professor José Pacheco, por video e pessoalmente, e sempre o vi a fazer um grande elogio a todos os professores quando dedicados, mas, como é óbvio ninguém gosta que usem do seu nome de má fé e coloquem novidades falsas ou meias verdades da sua gestão como foi o caso.
    Há aqui também um aspecto errado que é apresentar a Escola da Ponte, de há 30 anos quando o referido José Pacheco era lá o director, como o modelo de ensino ainda proposto por ele. Mas isso não é verdade pois ele hoje, embora tenha guardado e mantido vários aspectos positivos desse tempo, pode-se gabar de ter dinamizado projectos de ensino mais modernos e mais actuais de grande sucesso internacional. – a que os chama de “Comunidades de Aprendizagem”.

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    • Penso que projectos do tipo da Escola da Ponte têm o seu lugar no sistema educativo, obviamente evoluindo e adaptando-se às transformações sociais e culturais que vão ocorrendo.

      Agora da mesma forma que rejeito pedagogias únicas e acho que deve haver espaço para a diversidade e, acima de tudo, para a coexistência de diversas abordagens pedagógicas, rejeito o radicalismo intolerante do “as aulas são um escândalo” ou “com aulas ninguém aprende”. Defendo a diversidade e a tolerância e não me revejo neste tipo de fundamentalismos demagógicos. E serve de pouco elogiar os “professores dedicados”, quando o que se pretende é professores que aceitem o que ele diz e façam o que ele quer. Eu prefiro professores que pensem pela sua cabeça, mesmo que defendam ideias diferentes das minhas.

      Quanto às “comunidades de aprendizagem” penso que podem ter virtudes e vantagens em determinados contextos socio-educativos, mas não me parece de forma alguma um modelo de aplicação universal. Pessoalmente, nunca desejei que a escola dos meus filhos me envolvesse nas suas actividades, mas apenas que cumpra o seu papel educativo, obviamente que em articulação com as famílias.

      Acho que o prof. Pacheco falha sobretudo neste ponto: querer impor como modelo universal soluções de recurso ou que se adequam apenas a contextos educativos muito específicos – e continua a ser um mistério para mim como é que o modelo tão elogiado da Escola da Ponte não se replicou por outras escolas do país.

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      • Pelo que tenho ouvido (sem fazer por isso), parece-me que estão a dar demasiada importância ao sr. Pacheco.

        Os tiques e paleio (perdoem-me) que alardeia, são típicos do inseguro arrivista (como é o caso, coitado). O seu “arianista & C.ª ” percurso escolar diz tudo.

        Melhor seria ter-se quedado na sua simples mas nobre condição de electricista (c.f. reza o débil CV da criatura)

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    • Subscrevo tudo o que o António Duarte escreveu.

      Digo mais, são precisos pessoas como o prof José Pacheco que reflictam, alertem e falem.

      Mas quando tudo isto tem tendência em se transformar em pensamento único, já não tenho muita paciência.

      A frase :”e sempre o vi a fazer um grande elogio a todos os professores quando dedicados” é uma frase com a qual discordo e tenho sinceras dúvidas.

      Quem são os professores dedicados? (o “quando dedicados” é lapidar!)

      Se são dedicados embora não concordem totalmente e /ou discordem do edifício teórico do professor J. Pacheco, já não merecem ser elogiados?

      A questão posta nestes termos é o total oposto das ideias pedagógicas defendidas pelo professor, contraria muitas teorias sobre o assunto e vai contra a teoria das Inteligências Múltiplas de Howard Gardner, que está na base das teorias das flexibilidades curriculares e da felicidade em aprender.

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  4. Caro António Duarte, infelizmente a cultura e a sensatez anda por vezes muito afastada da “coisa” educativa. Você e o Luís Filipe Torgal claramente possuem uma e outra e quando malham nestas repetidas tentativas para descobrir a pólvora no campo da educação devem ser ouvidos. E para além de pessoas como o José Pacheco que conheci em tempos e que é uma pessoa com um carisma pessoal – penso que não o perdeu, daí a pose de tele-evangelista – que lhe dá algum capacidade para fazer avançar alguns projetos (independentemente das asneiras evidentes que atualmente profere) existem alguns gurus alçados pelo atual ministério que nem carisma, nem paleio, nem substância nenhuma têm e que nos são impingidos da forma mais descarada como especialistas. Que a paciência de nos fazerem pensar vos continue a não faltar.

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    • Tem razão, Henrique, os gurus ministeriais nem carisma, nem ideias com um pouco de originalidade e substância conseguem apresentar. É confrangedora a forma como se imitam uns aos outros repetindo aqueles chavões do modelo do autocarro, da escola do século XIX, do conhecimento no telemóvel…

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  5. Vi uma vez uma entrevista com o professor José Pacheco, e pareceu-me interessante o que ele dizia, nomeadamente a experiência no Brasil.
    Parece-me também estimulante, a realidade da Escola da Ponte e espero que haja um estudo de seguimento dos alunos que sairam dessa escola, para podermos tirar conclusões.
    Agora, temo que este género de experiências, seja como as famíias que não vacinam os filhos: enquanto houver à sua volta uma população vacinada, tudo bem; o pior é se todos passarem a fazer o mesmo, e aí, vai ser o descalabro.

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    • Não tenho nenhum estudo aprofundado sobre os resultados, a médio e longo prazo, da Escola da Ponte, e também me parece que não há muito interesse em que eles surjam. É mais conveniente alimentar mitos, e o que me parece é que se criou ali um microcosmos educativo assente num acordo tácito: deixam-nos fazer aqui as coisas à nossa maneira, mas esta experiência fica só por aqui.

      Noto também que a Escola da Ponte recebe um número reduzido de alunos e que, cada vez mais, para ali vão por escolha das famílias. Ora acreditar num projecto e ter a motivação de contribuir para o seu sucesso é meio caminho andado para obter bons resultados.

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