Poderosos e intocáveis

É possível fazer bom jornalismo em Portugal, isento, corajoso, pertinente? Quando os assuntos mexem com os interesses dos poderosos, dificilmente. Na área do jornalismo económico, então, conhecem-se há muito as ligações e dependências entre os grupos da finança e da comunicação social.

Também não é novidade a forma como o antigo dono disto tudo subornava a imprensa amiga com generosos contratos publicitários e os jornalistas com passeatas e diversões. As férias na neve que José Gomes Ferreira descreveu num livro recente são um exemplo paradigmático.

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Mesmo pessoas sem necessidade alguma de se meterem nisto, como o actual presidente da República, na altura colaborador próximo de Ricardo Salgado, participaram activamente nestas operações de domesticação da imprensa. A teia de dependências e favores criada e robustecida ao longo dos anos criou de Ricardo Salgado a imagem de distinção que explica, ainda hoje, a reverência que se nota em torno daquele que ficará provavelmente, para a posteridade, como o trafulha mais caro de sempre para os contribuintes portugueses.

O texto que se segue é de certa forma o reverso da medalha do que acabei de referir. O testemunho é de Miguel Szymanski, um jornalista que, por não se submeter aos fretes habituais de que sobrevive o nosso jornalismo económico, teve de se fazer à vida como correspondente no estrangeiro. Um depoimento corajoso e desassombrado que não hesita, como eu gosto, em chamar aos bois pelos seus nomes.

A propósito de Berardo, lembro-me de alguns dos ‘poderosos’ e ‘intocáveis’ com os quais, para meu azar, me cruzei em Portugal ao longo de 25 anos de jornalismo.

Ricardo Salgado/BES: depois de dois artigos publicados na revista Fortunas&Negócios sobre os ‘donos da banca’ em 2001, Salgado queixou-se à administração. Sentia-se retratado no meu artigo “como se fosse um gatuno” (quem transmitiu esta citação de Salgado é hoje director de informação de um canal de televisão). Fiquei sem emprego e os meus colegas também – a administração fechou a revista para não perder a publicidade no Diário Económico e no Semanário Económico.

Jorge Jardim Gonçalves/Millennium: depois de uma crónica numa revista enviou-me um bilhete, manuscrito, assinado e não muito subtil, a ameaçar com processos judiciais.

André Jordan/magnata do imobiliário: não gostou de um artigo que escrevi sobre ele para a ‘Sábado’ e o, na altura, director da revista veio dizer-me que a minha colaboração não podia continuar: “Lamento, passaste a persona non grata; o Jordan deve ter oferecido uns cartões gold para jogar golfe a alguém da administração”.

Outras ‘figuras do regime’, da área política, que se queixaram de artigos meus e levaram um director de jornal a despedir-me: Santana Lopes e Dias Loureiro. Depois houve o jornal, de primeira linha (Expresso), com o qual deixei de poder colaborar, subitamente e depois de meses de elogios aos meus artigos, porque alguém, imagino eu, mas não sei ao certo quem, não gostava da minha abordagem aos temas.

Houve ainda, também essa uma forma de censura, várias publicações que deixaram de me encomendar artigos porque, simplesmente, deixaram de ter verbas para pagar (recentemente o DN, por exemplo).

Enfim, nunca isto me deitou abaixo por muito tempo. Quando deixei de ter trabalho em Lisboa, que me permitisse sobreviver, fui durante uns anos trabalhar como jornalista para – excelentes publicações – em Berlim e Frankfurt.

Tenho a enorme sorte de poder trabalhar para órgãos de comunicação social na Alemanha e na Áustria. Mas tenho muita pena de alguns excelentes e incorruptíveis jornalistas que, aqui em Portugal, ficaram pelo caminho.

6 thoughts on “Poderosos e intocáveis

  1. Quando ouvimos certos «comentadores» nas nossas TV, rádios e imprensa a dissertar sobre as nossas causas, temos a certeza absoluta de que estão a mando do(s) dono(s).

    São um bando de corruptos, nem que seja morais, que se pavoneiam por aí, mentindo, falsificando, omitindo, etc.

    No dia em que aparecer um político honesto, sincero e verdadeiro, regressarei à urna eleitoral. Até lá, quero distância do esterco e do lixo.

    Pedro Marques é um boneco, com figura de cromo, que congelou as pensões mais baixas. Resultado do seu brilhantismo? Vitória nas eleições europeias.

    Marcelo Rebelo de Sousa, o mister “selfie”, nunca prestou ao longo da sua vida política. Resultado? Presidente e com níveis de popularidade espantosos.

    PCP? Sempre associado à fama de cumpridor, leal e incorruptível. Resultado? Afinal, quando exerce o poder, é como os outros.

    BE? Idem, Salvaterra.

    Os jornalismos são uns tristes que não se olham ao espelho e se envergonham do que veem. Gomes Ferreira veio confessar o quê?

    Este é um país de gente reles ao nível das cúpulas e do mediatismo. Não prestam e nunca prestarão, mas enquanto houver pategos… siga!

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  2. 1- A cobertura mediática da campanha teve muito de manipulação. Os tais de comentadores acompanharam/acompanham a onda. São sempre os mesmos e saem de um canal para o outro, de um programa para outro, da política para o futebol e vive-versa.

    2- “No dia em que aparecer um político honesto, sincero e verdadeiro, regressarei à urna eleitoral.”

    Quando encontrar esse purista, Sísifo, avise. Pode ser que sim….

    Entretanto, um pouco de mitologia, com os meus cumprimentos:

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    • Amofinou-se tanto porquê? Só desejei que surgisse uma pessoa digna, nem sequer me referi à Coreia do Norte…

      Eu fico com Sísifo e a cara F… com Antístenes. Fica-lhe a matar.

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      • Não fiquei nada amofinada, longe disso.

        Não me lembro quem foi o Antístenes.

        Quando tiver tempo, vou pesquisar e obrigada pela dica.

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  3. E agora? O que vamos fazer em relação a isto que se está a passar na imprensa portuguesa? Talvez seja boa ideia explorar estes assuntos com os nossos alunos em Projeto e Educação Para a Cidadania? Os temas da corrupção e da falta de liberdade de expressão são sempre muito apreciados pelos nossos alunos. Quem sabe os pais também possam ler e ouvir os seus filhos. Quem sabe!

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    • Curiosamente, há por aí gente com responsabilidades na imprensa que, em vez de arrumar a casa, propõe-se formar professores em “literacia para os media”, combate a fake news, etc.

      Casa de ferreiro, espeto de pau…

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